A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TROIA.

JOHN ERSKINE
A VIDA PRIVADA
DE  HELENA DE TROIA
PLANETA EMORA

The Private Life of Helen Troy (D by John Erskine
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autorizao do editor
PRIMEIRA PARTE
O REGRESSO DE HELENA

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azo, e o melhor de toda esta histria, foi Pris ter dado o prmio a
Afrodite, no porque esta o subornasse, mas  apenas porque ela era
realmente bela.
Se bem que Atena e Hera comeassem a discutir sobre a superioridade do
poder e da sabedoria, a disputa entre as deusas era sobre a beleza. De
forma que, a levantar-se a acusao de tentativa desleal de suborno, so
Atena e Hera que a merecem e nunca Afrodite, pois esta mais no fez do
que apresentar-se tal qual era para resolver o pleito a seu favor. Claro
que s outras deusas no faltavam atributos. Porm, tratando-se de
beleza, Afrodite era a prpria beleza.
A profecia feita ento, casualmente, por esta deusa, de que Pris casaria 
com Helena, parecia improvvel. Todavia interessou o rapaz como 
experincia sobre o valor das promessas divinas. Talvez no 
acontecesse... Contudo, podia tambm acontecer. A deusa no quis revelar 
os seus pensamentos. Uma pessoa de senso, mesmo que acreditasse nos 
orculos, mais no tinha a fazer do que aguardar os acontecimentos.
Entretanto, comeou Pris a imaginar como seria Helena; com
quem se poderia ela parecer. Sentiu necessidade de viajar. E por que no 
ir a Esparta em vez de fazer outra qualquer viagem? Cassandra disse-lhe 
que no, mas Cassandra dizia sempre que no. Enona aconselhou-o a no ir, 
mas essa, evidentemente, no contava, porque... era a sua mulher. Partiu.

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Ao chegar ao palcio de Menelau, em Esparta, o guardio mandou-o entrar 
e, como se tratava de um estrangeiro, no lhe perguntaram nem o nome nem 
ao que vinha, antes de comer e
descansar. Menelau adiou uma viagem que tinha planeado e empenhou-se 
honestamente no cumprimento de todos os sagrados deveres da 
hospitalidade. E, ao descobrir a nobreza do seu visitante, disse a Pris 
que se considerasse como na sua prpria casa, que se servisse de tudo 
quanto lhe aprouvesse, e, depois das mais corteses desculpas, partiu para 
Creta, tal como havia planeado.
Reinava, pois, o mais franco entendimento. O pior,  que Pris j tinha 
visto Helena.
Aps a queda de Tria, que ps fim  guerra, Menelau entrou na
cidade de gIdio na mo  procura de Helena. Ainda no decidira se lhe 
iria enterrar a arma no peito tentador, se lhe cortaria de um s golpe o 
pescoo de cisne. Havia j bastante tempo que no via Helena. Esta 
esperava-o, como se tivessem marcado aquele encontro. Com um gesto de 
tocante simplicidade descobriu o peito,  altura do corao, ofereceu-o  
vingana do esposo e fitou-o. Menelau, por sua vez, tambm a fitou. 
Atrapalhou-se com o gldio...
-Helena - disse finalmente - j  tempo de voltarmos para casa.
Conta-se, ainda, a histria de outro modo. Diz-se que Menelau no estava 
s quando encontrou Helena naquela cmara retirada do palcio; 
encontravam-se a Agamnnon e outros chefes para assistirem, finalmente, 
ao castigo daquela mulher causadora de to dilatada guerra. Muitos homens 
que nunca tinham visto Helena empurravam-se  porta para lanarem um 
primeiro e
ltimo olhar quela beleza por quem haviam combatido. Quando Menelau viu 
Helena diante de si, lembrou-se que trazia uma
escolta. A raiva e as foras comearam a esmorecer aos poucos, mas 
aqueles simpticos e dedicados amigos estavam ali para assistir  
vingana de um marido ultrajado. Menelau levantou o gldio vagarosamente, 
embora no com todo o vagar que desejava e, de repente, ouviu a voz de 
Agammnon:
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- A tua ira pode perfeitamente terminar aqui, Menelau. Se encontraste de 
novo a tua mulher, para que vais mat-la? Tommos a cidade de Pramo, 
matmos Pris, ests vingado. Matar Helena s servir para embaraar 
aqueles que mais tarde quiserem investigar as causas desta guerra. 
Esparta no teve culpa alguma. A culpa  simplesmente de Pris, que veio 
como hspede e violou a tua magnfica hospitalidade.
Nesse momento Menelau compreendeu por que motivo chamavam ao seu irmo o 
mais sbio dos reis. Porm, mais tarde,  ceia, ouviram-no dizer que 
teria morto Helena se Agamnnon no se tivesse interposto.
Durante a noite foi preciso conduzir Helena para os navios, juntamente 
com os outros prisioneiros. Contudo, Menelau hesitava sobre as posies 
relativas que ele e ela tomariam no cortejo. Evidentemente, no haviam de 
ir ao lado um do outro. Talvez ele  frente... Porque no? Todavia 
renunciou  ideia, mesmo antes de chegarem  rua. A importncia que dava 
a estas preocupaes de parada pareceu-lhe fora de propsito. Resolveu 
mandar Helena  frente para que a sua presena de chefia a no protegesse 
dos insultos que as tropas curiosas lhe quisessem deitar em cara. Porm, 
os soldados viram-na passar e contemplaram-na em silncio, ou quase. 
Ningum reparava em Menelau. E ao passar, ouviu um dos homens dizer que 
ela se parecia com Afrodite apertada nos braos de Ares quando Hefasto, 
o marido enganado, atirou uma rede sobre os amantes e chamou os outros 
deuses para assistirem  vergonha da mulher. Um outro soldado disse que, 
nesse momento, se sentia como os deuses: tambm lhe apetecia trocar de 
lugar com Ares, fosse em que circunstncias fosse, mesmo com rede e tudo.
3. Na noite seguinte, quando Tria foi posta a saque, apesar de no terem 
as mesmas razes de Menelau para se mostrarem violentos os outros homens 
foram menos benevolentes do que ele. No templo de Atena, jax encontrou 
Cassandra onde servia como sacerdotisa. Era uma rapariga bastante bela 
para Apolo a ter cobiado,

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apesar de no ter aquela superior beleza que protegia Helena. De modo que 
nem a beleza nem o facto de estarem, por assim dizer, na presena da 
deusa, defenderam Cassandra das vontades de jax, que, depois de 
satisfeito o seu capricho, prosseguiu nos
afazeres da pilhagem. Quando a raiva de Atena se desencadeou, jax 
reconheceu que injuriara a sua mulher, mas negou que tivesse 
desacreditado o templo, porquanto Ulisses roubara a imagem sagrada e, por 
conseguinte, a sala, se  que era ainda um santurio, devia considerar-se 
abandonada. Porm, estas subtis distines no tinham grandes 
probabilidades de agradar  deusa, e Agammnon fez saber de imediato que 
a armada adiaria a viagem de regresso  ptria o tempo necessrio para 
que se realizassem grandes e
prolongados sacrifcios, rituais de confisso e penitncia em honra de 
Atena, no fosse a deusa lembrar-se de lhes lavar aquelas ndoas da alma 
na gua fria do mar. O rigor de Agammnon nesta determinao tornou-se 
inflexvel a partir do momento em que repartiram o saque e Cassandra lhe 
coube no quinho.
Durante todo o dia, enquanto alimentavam as chamas nos altares, 
Agammnon, rodeado do seu exrcito, permaneceu junto do sacerdote. 
Menelau estava a seu lado. Eram agora os senhores absolutos, visto que 
Aquiles tinha partido. Ao anoitecer, deixaram as oferendas a consumir-se 
lentamente. No acampamento os soldados acenderam as fogueiras para 
preparar a ceia, e o sacerdote veio anunciar que at a os pressgios 
apresentavam bons augrios.
- Os sacrifcios comeam bem - disse Agammnon.
- Para mim - disse Menelau - os sacrifcios acabaram. Como tu mesmo 
disseste ontem  tarde, no foram os nossos pecados que nos trouxeram a 
Tria, mas sim os pecados alheios. Por maiores erros que tenhamos 
cometido desde que aqui chegmos, as ocasies para os lamentar e deles 
nos arrependermos tambm no faltaram. Se alguma coisa esquecemos por 
orgulho ou por ignorncia, este dia de sacrifcios deve ter compensado 
tudo isso e alguma coisa mais. Por isso, partirei para Esparta, o mais 
tardar amanh.
- Sempre que penso em partir respondeu-lhe Agamnon -, lembro-me de 
imediato de ulis. Para largarmos desse porto precisei de sacrificar a 
vida da minha filha, oferecida em holocausto aos deuses. Nessa altura, 
nenhuns sacrifcios te pareciam excessivos. Revertiam todos a teu favor, 
meu irmo. A minha disputa com Aquiles j h muito tempo a expiei, porque 
era eu que estava
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enganado. Como, depois disso, em outras ocasies posso tambm ter errado, 
convencido de que estava certo, julgo que tenho agora obrigao de 
apaziguar a clera de Zeus e Atena, que me parece insuspeita, antes de 
levar as minhas hostes a enfrentarem mares e ventos e todos os perigos 
que nos separam da nossa ptria e dos entes que nos so queridos.
- Do que tu realmente tens medo - disse Menelau -,  da tua mulher.
- A tua est junto de ti - tornou Agammnon - e a tua filha s e 
escorreita, em Esparta, a tratar dos teus negcios, que foi tambm, 
afinal, do que ns tratmos durante todo o tempo que aqui estivemos. 
Agora  a minha vez de tratar do que me pertence.
O que realmente temo  que, enfurecida pelo roubo da sua imagem do templo 
e pela violao da sacerdotisa, Atena faa cair a sua clera sobre mim, 
sobre cada um dos meus, sobre ti, meu irmo, sobre o mais insignificante 
remador dos meus navios.
- Ulisses roubou a imagem - disse Menelau -, porque no poderamos tomar 
a cidade enquanto a esttua l estivesse. Contudo, por essa e por outras 
coisas de grande utilidade que empreendeu, s ele deve sacrificar. E 
quanto ao que aconteceu a Cassandra, parece-me muito bem feito (embora um 
pouco cruel), porque Pris era irmo dela. A nica acusao que jax 
merece  ter sido precipitado. Podia-lhe ter calhado a rapariga na 
repartio do saque. Levava-a com ele, e, em casa e com regalo, tratava-a 
como muito bem entendesse, a salvo da crtica dos deuses e dos protestos 
dos homens, uma vez que no tem mulher  sua espera l em casa.
- A minha mulher - volveu Agammnon -, at agora no causou nenhum 
escndalo na famlia. Sob esse ponto de vista  bem diferente da sua irm 
Helena. Quantos foram os homens que j seduziram Helena ou que Helena 
seduziu? Teseu, antes de ti; depois tu, claro; depois Pris; e, por fim, 
Defobo. E no houve qualquer coisa entre ela e Aquiles? E foi Heitor que 
a cobiou ou
era ela que sonhava com Heitor? Meu irmo, uma filosofia prpria da 
famlia ensina-nos que devemos viver em paz com o passado. No me pareces 
a pessoa indicada para fazer reparos  conduta de jax. Serve-te da tua 
filosofia, bem falta te faz.
- Como ia dizendo - insistiu Menelau -, amanh largo rumo a Esparta. 
Tenho pena que nos separemos zangados, depois desta contenda. Se te 
fizesse c alguma falta, ficaria de boa vontade,

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mesmo que no me agradecesses. O que os deuses preferem, penso eu, so 
coisas razoveis; no fundo, no ,,querem mesmo outra coisa. Ainda que a 
tua mania dos sacrifcios prolongados tivesse algo a
ver com a religio, sempre te diria que os mesmos deuses que nos deram 
sorte para queimarmos Tria, no iam agora querer que ficssemos aqui, 
para toda a vida.
- Segue o teu caminho - disse Agammnon. - No mais te verei.
- Ests de novo enganado - volveu-lhe Menelau. - Fao votos para que ele 
no te obrigue a mais nenhum sacrificiozinho de arrependimento.
Helena estava sentada na tenda de Menelau, imvel, junto da lanterna 
vacilante. A chama e o fumo perfumado da tripea que subiam junto do seu 
rosto e o envolviam, despertaram no marido pensamentos de deusas e de 
fogos de altar. Afinal, porque estava ela ali?
Seria possvel que tivesse passado o dia inteiro naquela tenda? L fora, 
durante os sacrifcios, Menelau imaginara-a humilhada, entre as outras 
cativas, sentindo, enfim, o ferrete do castigo. Ao menos podia bem ter-se 
levantado, quando ele entrou.
- Amanh, vamos para Esparta.
- To depressa?
- Parece-te assim to depressa? Preferes Tria?
- Agora j no - disse Helena -, alis, no sei se te lembras, nunca tive 
especial predileco por lugar nenhum. Mas acho muitos homens e 
embarcaes para aprontar num s dia. Mais tempo levaste tu a partir 
quando vieste para aqui e tinhas mais razes para andar apressado, creio. 
Repara que, antes de partirmos h ainda sacrifcios para realizar: h que 
pensar nos deuses, no imenso e sombrio oceano, nas almas de tantos mortos 
para apaziguar.
- Os mortos esto em paz e os deuses satisfeitos - disse Menelau. - Para 
isso dedicmos todo o dia aos sacrifcios. O oceano permanece amplo e 
escuro. Agammnon continuar os sacrifcios por essa e por outras razes 
que as preces nada alteram. Tivemos agora mesmo uma contenda sobre o 
assunto, antes de nos separarmos. Ele fica ainda mais algum tempo com as 
suas tropas. Eu parto amanh com os meus homens e cativos.
O que Menelau queria dizer era que partia com Helena, mas no sabia como 
diz-lo. Com a minha mulher e os meus cativos, no, no podia ser.
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Tambm lhe faltara coragem para ir at comigo e com os meus outros 
cativos.
- Menelau - disse ela -, certamente que fao a viagem contigo, mesmo que 
a considere uma imprudncia da tua parte. Mas quem tem razo  Agammnon. 
Os que tm conscincia do mal que praticaram necessitam de tempo para o 
remorso e o arrependimento, e ns, que guardamos o sentimento de no ter 
feito' mal algum, devemos tambm oferecer sacrifcios e proteger-nos 
contra o orgulho. Tu tens o teu velho bom senso, quase uma espcie de 
inteligncia, mas ainda te falta viso.
- Segundo me parece - admirou-se Menelau -, ests a aconselhar-me a no 
me desviar das regras de conduta que a sociedade estabelece.
 a minha opinio - disse Helena. Olha, estou exausto e a minha cabea 
recusa-se a obedecer-me - volveu Menelau. - Queres voltar a_ ao... para 
onde vieste, ou deixo-te nesta tenda? Partimos amanh de madrugada.
4. Abrisa soprava pela proa e os homens remavam. Menelau sentou-se junto 
ao timoneiro e Helena adiante dele com o rosto ao vento.
Os remadores levantavam os olhos para ela. No lhe guardavam rancor, 
apesar de lhes ter trazido a guerra e os padecimentos. Primeiro movera-os 
a curiosidade, mas agora era j a compreenso e o respeito, como se 
houvesse algo divino no barco. Menelau observou a mudana no olhar dos 
marinheiros e encontrou-se a cismar nas razes que, de algum modo, o 
arrastaram a Tria.
Passado muito tempo, Helena mudou de posio pela primeira vez, e fitou 
os olhos de Menelau. Os homens olharam tambm e esqueceram-se de remar.
- Menelau - disse ela -, devias oferecer sacrifcios s divindades. H 
qualquer coisa de muito estranho neste barco.
- Pelo contrrio - replicou ele -, o barco  talvez aqui a nica coisa 
que no merece reparos. O vento est contrrio, mas os homens remam bem, 
excepto quando tu os distrais.

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- Neste momento, em Tria, ou em qualquer outro stio -
disse ela -, Agammnon oferece as suas preces e parece-me que surtiro 
efeito; enquanto a nossa sorte se apresenta difcil, direi mesmo 
duvidosa, ele chegar, com certeza, a Esparta. Tu conheces bem o meu modo 
de ser. Nunca gostei de me meter em aventuras, a no ser quando sei 
exactamente para onde vou.
 Vamos para Esparta - disse Menelau.
- Receio bem que no  volveu ela.
- Seguimos o bom rumo - disse o marido -, e a menos que as estrelas 
estejam avariadas neste mundo de incertezas, chegaremos a Esparta dentro 
de uma semana. O que j  excelente, no achas? - perguntou ao timoneiro.
- Muito mais tempo levmos ns para chegar a Tria - respondeu o 
timoneiro.
- Pois eu, quando vim para Tria - contou Helena -, demorei apenas trs 
dias, mas enfim foi uma viagem excepcional...
Depois disto, os homens curvaram-se sobre os remos e o timoneiro ps-se a 
consultar os astros e a carta.
Comearam a correr os dias. No incio, Helena olhava ainda para. Menelau, 
de tempos a tempos, como que para dizer alguma coisa, se surgisse a 
oportunidade. Contudo, por fim, sentava-se imvel, fitando o mar ao 
longe. Os remadores envolviam-na num
olhar paciente, como se todos ali, menos o chefe, fssem fiis a alguma 
coisa, que Menelau no pudesse compreender, nquanto este se sentiu todo 
o tempo sozinho a recear que a gua e os mantimentos no fossem 
suficientes.
- At que enfim que se v Esparta - disse, finalmente.
- Duvido - respondeu Helena. Na realidade era o Egipto. Helena desceu 
para terra pela estreita prancha que os marinheiros suspenderam, como se 
constitusse um velho hbito passarem ali e ela desembarcar. O vento 
parou por completo. Os homens, fatigados, ergueram a tenda do rei, e 
abrigos para eles, e adormeceram. Menelau no conseguia lembrar-se de 
quando dera ordem para desembarcar, e, no tendo a certeza, no iria 
perguntar. Aguardaram melhores ventos.
- Esta famosa terra  mais interessante do que eu pensava -
disse Helena algumas semanas mais tarde. - Nos meus passeios encontro 
indgenas com uma cultura que me parece bem acima do melhor que temos em 
Esparta, no achas?
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- Helena, tu exasperas-me - disse Menelau. - No estou aqui para 
percorrer o pas nem para comparar civilizaes.
- Claro que no, nem eu - volveu Helena. - Quando achares o vento bom 
para partir diz-me. Entretanto, Polidamna, a mulher desse abastado 
mercador que te forneceu mantimentos para a viagem, est a ensinar-me a 
arte das ervas e das drogas, coisa muito til para qualquer dona-de-casa. 
A no ser que ofereas sacrifcios aos deuses, parece-me que os dias que 
ainda temos de esperar pelo vento so suficientes para eu aprender muita 
coisa.
- No quero saber de mais sacrifcios - disse Menelau. O vento h-de 
levantar-se por si.
- Ento, aprenderei tudo antes de partirmos. Sensivelmente quinze dias 
depois, Helena viu sair Menelau da casa de Tnis, marido de Polidarana, a 
esconder um cordeiro debaixo da tnica. Enquanto convocava os homens para 
um lugar retirado e sacrificava o cordeiro, ela conservou-se 
discretamente na tenda onde Menelau a veio encontrar, depois.
- Prepara-te para embarcares amanh no caso de se levantar vento.
Ela aprontou-se. E o vento tambm. No entanto, enviou uma brisa to 
frgil, to tnue e to breve que quando chegaram  ilha de Faro 
dissipou-se definitivamente.
- Ora muito bem - disse Menelau -, aqui est um bom porto e com gua bem 
fresca. Vamos aproar, encher os barris e esperar que o vento refresque.
Helena desceu para terra pela estreita prancha que os marinheiros 
suspenderam, como se fosse habitual desembarcar-se sempre em Faro. No 
havia ningum na ilha, excepto um ou outro caranguejo que se aventurava 
para fora do mar. Vinte dias depois, os mantimentos acabaram-se e os 
homens nadaram ao longo da praia pedregosa para, com um cordel e anzis 
sem isco, tentarem pescar alguma coisa. Todos esses dias, Helena ou 
passeava, muito calma e graciosa, pelos caminhos mais macios que 
conseguia encontrar nos rochedos ou se sentava no cume de um penhasco 
admirando as guas cor-de-prpura, o voo das gaivotas e a linha do 
horizonte. Menelau evitava os homens e vagueava sozinho na
extremidade da ilha oposta quela onde Helena se sentava.
At que um dia se abeirou da mulher, sem que esta manifestasse a mais 
leve surpresa.

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- Penso voltar para o Egipto - comeou ele. - Estes homens precisam 
realmente de comer mais do que podem encontrar aqui. Num dia de boa 
remada alcanaremos Canopo. _ Se ests a pedir-me conselho - disse Helena 
- parece-me ser a coisa mais ajuizada que jamais disseste, porque, como 
dizes, precisamos de comer.
- Helena, s vezes, irritas-me - explodiu Menelau. - Qualquer tolo 
saberia que somos obrigados a voltar. No aguardava a
tua opinio para o fazer, embora j o devesse ter feito h muito.
Contava que ela lhe perguntasse porque no o fizera, mas Helena manteve-
se calada. Menelau voltou-lhe as costas furioso. Deparou com trs dos 
seus homens, plidos e esfomeados, chefia- dos pelo timoneiro a 
aguardarem a oportunidade de lhe dirigirem a palavra, que, pelos modos, 
se adivinhava inapropriada.
- Menelau - comeou o timoneiro - seguimos-vos h tanto tempo que no 
podeis duvidar da nossa fidelidade. Isso autoriza-me a vir perguntar-vos 
se perdesteis a razo, se vos diverte sofrer, ou se vos apraz o 
espectculo do nosso sofrimento? Conservais-nos nesta ilha a morrer de 
fome, enquanto no Egipto, a um dia de remos, se tivermos fora, podemos 
contar com alimento e conforto. Algumas horas mais e nem fora teremos 
para deitar o nosso barco  gua.  espera de vento, dizeis. Mesmo que 
viesse agora a melhor brisa os mantimentos j no chegavam para alcanar 
Esparta; no podemos pescar enquanto navegamos.
- A fome perdoa os teus modos indesejveis - respondeu Menelau -, mas, 
como sucede sempre em casos destes, o conselho veio tarde e , alm 
disso, intil. J tinha decidido voltar ao Egipto para comprar 
mantimentos. Vamos partir imediatamente. Prepara o barco... Fiz-me 
entender? Deita o barco  gua... Ou tens mais alguma coisa a 
acrescentar? - Sim, Menelau - replicou o timoneiro. - Quando chegarmos ao 
Egipto faremos sacrifcios apropriados para que os deuses nos deixem 
chegar  nossa terra. No o fizemos em Tria com os nossos companheiros, 
porque nos mandaste embora. Agora, que sofremos o castigo, a mais ningum 
obedeceremos neste assunto seno aos deuses. Parece-nos que no teremos a 
sorte de ver os nossos amigos, a menos que ofeream hecatombes de 
sacrifcios aos imortais que governam os cus e os caminhos. Parece-nos 
ainda que j teramos morrido, se, para abrandar a clera dos deuses, no 
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trouxssemos a bordo a vossa esposa, tambm para ns considerada imortal, 
e sempre adorada com o cuidado que merecem todos quantos esto acima de 
ns, nos do a vida ou a conservam.
- Tambm me parece - disse Menelau - que  altura de oferecer 
sacrifcios, simplesmente no h aqui nada que sirva para sacrificar. 
Logo que chegarmos ao Egipto, como sugeres, contem com oferendas valiosas 
como, alis, eu j resolvera fazer na primeira oportunidade. E agora 
podes ir deitar o barco  gua, a no
ser que haja mais alguma coisa?
Os homens correram para junto dos companheiros e Menelau voltou para 
junto de Helena.
- Espero que no nos faas esperar mais porque esta conversa j durou 
bastante.
No Egipto, Tnis fomeceu-lhes mantimentos, gado e vinho para os 
sacrifcios. Bem  vista de todos e com repentes de irritao, Menelau 
enterrava a faca impiedosa nas goelas das vtimas, que caam para o cho 
a estrebuchar. Em seguida, vasava o vinho das nforas nas taas e 
espargia-o solenemente, enquanto, com voz
cortante, orava aos deuses eternos.
- Oh, Zeus, entre todos glorioso. Oh, Atena, temida me da sabedoria! Oh, 
vs todos, seres imortais! Aplicai os vossos castigos ante os olhos dos 
homens para que vejam a justia. Puni os culpados, recompensai os justos. 
Quem de entre ns vos ofendeu que morra de fome nos rochedos do mar ou 
afogado nas profundezas das guas. Mas os que, com coraes puros, 
obedeceram  vossa
vontade, esses, levai-os depressa para junto dos seus e da ptria.
E levantou-se ento o vento que os levou a todos sos e salvos at 
Esparta.
so
- Menelau - disse Eteoneu, o velho guardio do palcio -, desde o vosso 
regresso espero que me dispenseis alguns minutos para falarmos. 
Estivestes ausente tanto tempo que certamente pretendereis que vos d 
conta de quanto se passou.
- No h novidade, pois no? - perguntou Menelau.
- Orestes esteve c.

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- Ah, o filho de meu irmo.
- Exactamente - disse Eteoneu - e quase me apetecia acrescentar, o filho 
da irm da vossa esposa.
- E o que queres dizer com isso? - perguntou Menelau.
- Quero dizer que duvidei se devia mand-lo entrar.
- Parece-me que tratas mal os parentes da minha mulher.
- Para dizer a verdade - disse Eteoneu -, eu no calculava, antes de 
voltardes, que continusseis a contar com a vossa esposa entre as pessoas 
da famlia.
- Ests a exceder-te - disse Menelau.
- No, Menelau, no estou. Eu sei que o caso  melindroso, mas temos que 
o encarar bem de frente. Eu, pelo menos, tenho que o fazer apesar de 
tudo, porque em parte sou responsvel. Quando Pris aqui chegou, fui eu 
quem lhe abriu a porta. O que se passou depois, todos ns sabemos. Pelo 
menos, conhecemos os factos. Mas o que nos tem confundido a quase todos  
a interpretao que lhe devemos dar. Recebestes Pris, claro, sem 
quererdes saber ao que vinha, e ele, em troca, roubou-vos a esposa e tudo 
quanto podia levar de vossa casa. Como estava certo e era decente, 
organizastes uma expedio para vos vingardes; ora, nenhum dos que c 
ficou contava com o regresso de Helena, e menos ainda merecendo novamente 
a vossa estima. Se qussseis explicar qual  a nova situao, ou se, 
pelo menos, nos dsseis instrues sobre a
atitude que devemos tomar para com a vossa esposa, prestveis um grande 
auxlio a quantos vos servem, porque lhes resolvereis a embaraosa 
situao em que actualmente se encontram.
- Estavas a falar de Orestes - lembrou Menelau.
- Assim era. Pois, como vos deveis lembrar, antes de partir dissestes-me 
que olhasse pela casa com vigilncia redobrada, visto que os vossos 
melhores e mais valentes homens partiam convosco, e deixveis c a vossa 
filha Hermone e, ainda, os grandes tesouros das caves. Orestes apareceu 
numa situao destas. Talvez fosse minha obrigao, visto que se tratava 
de uma visita, mand-lo entrar primeiro e s depois saber quem era.e a 
que devia o prazer. A verdade, porm,  que no me quis arriscar na vossa 
ausncia. Conservei-o l fora at saber quem era.  natural que ele vos 
faa queixa por isso.
- No h nada que eu mais deteste do que estes aborrecimentos de famlia. 
Espero que no tivessem chegado a discutir?
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- Custa-me dizer-vos, mas parece-me que sim - disse Eteoneu. - Orestes 
quis saber o que se passava nesta casa para se esquecer toda a virtude, 
at a mais elementar. Insinuou, se bem me recordo, que a vergonha do 
nosso comportamento devia enojar os prprios deuses. Entrou em pormenores 
que no me atrevo a repetir. Em suma, afirmou que, comeando por um 
ligeiro deslize, perfeitamente perdovel, como era a infidelidade da 
vossa esposa, a degradao fora to longe que j nem sabamos o que era a 
hospitalidade. Assegurei-lhe que em vossa casa, tal como em qualquer 
outra de gente civilizada, nada era to sagrado como os direitos de um 
hspede, mas que ultimamente resolvramos tambm cuidar dos direitos do 
hospedeiro e, desde que estes ltimos tinham sido esquecidos por uma 
visita, nos sentamos um pouco nervosos diante dos rapazes novos, 
desconhecidos e simpticos como ele; acrescentei ainda que, atendendo aos 
tempos conturbados que vivemos, esperava que a nossa precauo no fosse 
mal interpretada.
- No vejo nessas palavras nada que o pudesse ofender - disse Menelau.
- At aqui, no, realmente - tornou o guardio -, mas eu ainda no disse 
tudo. Quando ele gracejou acerca da vossa esposa senti que, por dever de 
lealdade a esta casa, devia fazer alguma coisa e perguntei-lhe pela sade 
da sua me.
- Coisa absolutamente normal entre pessoas educadas.
- Quero dizer - continuou o guardio -, que perguntei se no achava mais 
delicado abandonar a casa do seu marido antes de o trair do que engan-lo 
sob o prprio tecto, enquanto ele est ausente. Orestes sentiu-se 
atingido. Foi por isso que se encolerizou.
- Devo confessar que Orestes  mais esperto do que eu se descobriu alguma 
inteno nessas palavras - disse Menelau. - Suponho que ainda no sabeis 
o que se passa - esclareceu Eteoneu -, mas em Esparta no se fala de 
outra coisa. A vossa cunhada Clitemenestra, a vossa cunhada dupla, podia 
eu dizer, visto ser irm da vossa esposa e mulher do vosso irmo, vive 
com Egisto desde que Agammnon partiu para Tria. Mal ele sabe o que o 
espera quando voltar.
- Eu sempre disse! - exclamou Menelau. - Nunca gostei dessa mulher. O que 
me dizes aborrece-me, mas no me surpreende, a no ser pelo homem que 
est metido no caso. Egisto vai 
22
JOHN ERSKINE
arrepender-se pelo atrevimento. O meu irmo volta, com certeza. No lhe 
devem sentir muito a falta, mas quando ele souber disso, ainda vem mais 
depressa, tanto mis que, nos ltimos tempos, aprendeu a lidar com os 
homens que roubam as mulheres dos outros.
- O que Esparta desejava saber - disse Eteoneu -  se ele alguma vez 
aprendeu a lidar com Clitemenestra. Ela  uma mulher temvel, mesmo nos 
seus momentos de maior doura, e actualmente no esconde de ningum a 
forma vergonhosa como vive. Segundo parece, pensa que os seus actos se 
justificam plenamente com outros praticados por Agammnon. Tem tanto a 
certeza do regresso do vosso irmo como vs e cr-se at que lhe prepara 
uma recepo especial.
-  terrvel - suspirou Menelau. - Em todo o caso, devem ser ditos e 
mexericos. Mulheres to bonitas como estas duas irms pagam pelos seus 
dotes, sendo alvo da m-lngua e da inveja. Realmente, Eteoneu, agora no 
me admiro em absoluto que Orestes se zangasse.
- Nem eu - disse Eteoneu. - Porm, zangado ou no, o certo  que se calou 
e no disse mais nada. Nem podia, alis, porque estes rumores de m-
lngua que se espalham sobre as mulheres bonitas so frequentemente 
maliciosos ou invejosos, como dizeis, mas  raro no serem verdadeiros.
- Bom - cortou Menelau -, isso so pormenores que no interessa 
discutir... Com que ento Orestes veio c a casa! Sinceramente, Eteoneu, 
agora gostava de ouvir a verso que ele apresenta desta histria.
- Ah, mas isso  faclimo - disse o guardio -, porque ele passou a vir 
aqui regularmente e, a no ser que os seus hbitos se tenham alterado, 
deve aparecer hoje ou amanh.
- Pensei que no o tinhas deixado entrar!
- Assim foi, no deixei. Mas ele tambm nunca mais me pediu licena. 
Entrou, simplesmente! Devo acrescentar que a inteno era estar com 
Hermone e que ela arranjava sempre as coisas para que isso acontecesse, 
no percebo bem como. E notai que agora a vossa filha gosta tanto de mim 
como Orestes!
-No acredito em nenhum escndalo com a minha filha -
disse Menelau -, e procedeste mal ao sugerir-me essa ideia. Assim, sinto-
me na obrigao de tambm duvidar dos teus outros relatos.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
23
 certo que me ausentei muitos anos e agora Hermone est uma mulher. Mas 
o seu carcter, no fundo, no mudou. Sempre me pareceu uma rapariga 
conveniente.
- Tambm a mim, tambm a mim - exclamou Eteoneu -, e, quando se trata de 
rigor, Orestes  ainda mais rigoroso. Tenho notado que acontece quase 
sempre assim: os filhos procuram portar-se bem, principalmente, quando os 
pais so alvo de conversa.
- Dizem que a minha filha se parece comigo - afirmou Menelau - e creio 
que nos entenderemos. Mas, se tu mesmo concordas que ambos so pessoas 
convenientes, que diabo tens que estar para a a barafustar? Porque no 
deixaste o rapaz entrar de imediato? Antes de todo este embrglio na 
famlia j eles estavam prometidos um ao outro. Agora que voltmos,  
natural que casem, quem sabe se brevemente. A questo  quererem.
- Menelau - insistiu Eteoneu -,  muito difcil fazer compreender estas 
coisas por meias palavras a quem no  da minha profisso. Sou o guardio 
da vossa casa, da casa da vossa famlia, e o sentimento das 
responsabilidades agua o meu esprito de obser~ vao quando se trata de 
deixar entrar algum. No momento em
que abri a porta a Pris, disse-me o corao que era o prprio amor
que entrava e o instinto garantia-me que uma grande paixo ia perturbar a 
tranquilidade da vossa casa. Em compensao no sentistes perigo algum. 
Agora, Orestes, tenho a certeza absoluta disso, traz tambm ideias novas. 
Se medisseis bem as consequncias deste facto, a introduo de novas 
ideias, tereis mais cuidado.
- Eteoneu - disse Menelau -, ouvi bastantes discursos desde que sa de 
Esparta e, posto que no me considere grande crtico no assunto, aprendi 
a descobrir as insinuaes escondidas nas
palavras. Grande parte do que acabas de me dizer soa-me como um insulto 
diplomaticamente disfarado.
- Posso ter excedido as minhas intenes - afirmou o guardio -, mas o 
que eu queria era simplesmente chamar a ateno para um problema que mais 
ningum pode resolver. Todos vos
temos servido aqui com lealdade, mas no sabemos que lei nos
governa. Uma mulher, quando abandonava os filhos e o marido, era 
desonrada, e, quando era possvel, era castigada. Pensveis assim quando 
partistes para Tria. Ns aqui em casa passmos estes anos a preparar-nos 
para vos reconfortar o melhor possvel da solido, quando um dia 
voltsseis para...

24
JOHN ERSKINE
- No disseste j isso, h pouco? - interrompeu Menelau. Repetes~te e 
desvias-te do assunto principal. Pensei que me qusesses dar relao do 
que se passou em casa desde que a deixei.
- Mas  exactamente o que estou a fazer, Menelau. E se o fao 
indirectamente  para no magoar ningum. Tento informar-vos, com todo o 
respeito e cautela, de que h ideias novas perigosas e estranhas  vossa 
casa, e tento descobrir se as conheceis e desaprovais ou se concordais 
com elas. Receio terrivelmente que concordais, porque, se assim for, 
terei de abandonar o vosso servio, velho como sou, pois, exactamente por 
ser assim to velho, j no mudo de ideias. Suspeitei que estivsseis 
mudado assim que se avistou o vosso navio ao largo. Soubemos 
imediatamente que no viajveis sozinho: Helena voltava convosco. 
Primeira ideia nova, Menelau. Fiis s nossas ideias, pensmos que o 
facto, afinal, s traduzia uma atitude respeitvel para com a cativa 
arrependida, trazida para casa coberta de vergonha. A verdade, porm,  
que ela parece ignorar que coisa seja essa, a vergonha, e no se mostra 
nada arrependida. A vossa atitude condiz com a dela e ela porta-se como 
se no fosse uma...
- Basta, Eteoneu - cortou Menelau - j ouvi mais do que devia. Primeiro, 
pretendes tratar do governo da casa; em seguida, lanar insinuaes sobre 
Orestes, que te desacreditam mais a ti do que a ele; por fim, tudo isso 
no passa de um pretexto para denegrres a reputao da minha mulher. 
Agora, que j c estou, quero ser eu prprio a assumir o governo da minha 
casa. Quanto a ti, pe-te no teu lugar: a guardar o porto. E ouve bem 
isto que te digo: se cometeres a loucura de falar novamente de Helena f-
lo de maneira que nada me chegue aos ouvidos. No sabes porque a
poupei da morte? Porque  extraordinariamente bela. No  bem o teu caso, 
entendes? Toma, portanto, tento nessa lngua!
- Louvados sejam os deuses! ~ exclamou o guardio. - Falais novamente 
como um chefe de outros tempos. Posso continuar com o que dizia?
- Termina o assunto de Orestes e retira-te! - ordenou Menelau.
- Tenho de voltar um pouco atrs, porque perdi o fio  meada - comeou 
Eteoneu. - Ah! sim... Estivemos a falar, claro, com a tripulao do 
navio, e os homens responderam-nos como se estivssemos loucos. Mesmo 
para eles, que suportaram a guerra de
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
25
Tria e as suas misrias, Helena no  mais do que, simplesmente, bela. 
Tentamos receber de vs algum esclarecimento; mas porque, segundo me 
parece, s vezes estais um pouco acabrunhado e porque, agora, vos zan -
aste tanto quando falei no assunto, parece-me
 que tambm vs considerais Helena como a autoridade intangvel e a 
inspirao protectora do vosso lar. E eis que chega o caso de Orestes. Eu 
contava Hermone entre as raparigas educadas  antiga. Achava 
encantador que ela se emocionasse com as histrias que circulavam a 
justificar a me ausente, histrias que, se lhes fssemos a dar crdito, 
faziam de Helena mais uma vtima do que uma... Bem, mas deixemos isso. 
Admirava a lealdade da filha, embora me parecesse estranha, porque, com 
certeza, ela no acreditava naqueles boatos. Mas eis que Orestes lhe mete 
na cabea ideias que noutros tempos vos teriam alarmado. E a pequena 
mudou completamente. H dias, conversando com ela acerca do primo, 
relatei-lhe tudo o que se passava entre Clitemenestra e
Egisto e aconselhei-a a evitar compromissos com aquele ramo da famlia. 
Para minha grande admirao ouvi-a defender Cliteme~ nestra! Adivinhei de 
imediato os argumentos de Orestes. Apesar de no ser louvvel o 
procedimento da tia, dizia ela, tambm nada recomendava o de Agammnon. 
Pedira a Chtemenestra a filha mais nova, falando-lhe de um falso 
casamento ajustado com Aquils, e quando a me, embevecida, lhe enviou a 
filha, ele matou-a em sacrifcio para que os deuses lhe dessem bom vento 
e a frota pudesse largar do porto de ulis. Depois disto, perguntou-me 
Hermone que espcie de lealdade devia Clitemenestra a Agamrnnon. Eu 
fiquei estarrecido. Mas ainda observei que nada sricionava a
conduta de Clitemenestra, enquanto o sacrifcio era sancionado pela 
religio. Pois riu-se-me nas barbas, Menelau... A tendes. Ora, eu acho 
isto perigoso. Se no tivsseis mudado, muito me agradecereis por estes 
amigveis avisos.
- Agora, que finalmente chegaste ao ponto importante da questo, devo 
reconhecer que na realidade mudei bastante. j no receio as novas ideias 
como noutros tempos, o que ainda acon-
tece contigo. Andei muito tempo longe de Esparta, vi outras terras, 
outras gentes. O esprito abre-se. Antes de partir, o que me podia a mim 
interessar, por exemplo, o Egipto? E, no entanto, terra bem curiosa, onde 
os indgenas sabem geralmente mais do que o
melhor que temos em Esparta. Alm disso, fiz a guerra, no te

26
JOHN ERSKINE
esqueas. Quando os nervos se conservam tensos, constantemente dominados 
por tremendas emooes, comeamos a compreender que as ideias mudam e que 
nem por isso somos piores. Os que vo  guerra parecem mais ricos de 
ideias novas do que aqueles que ficam debaixo de telha. O que, 
evidentemente, no significa que partilhe as ideias de Orestes. Mas j 
no me assustam. Se antes de partir para Tria me dissesses que Aquiles 
entregaria o corpo de Heitor para a famlia lhe fazer o enterro e que 
suspenderia a luta doze dias para se realizarem os funerais em paz, eu 
no acreditaria. Todavia, foi o que aconteceu. Quando Helena fugiu com 
Pris, segui-os para os matar. Agora, tenho Helena de novo c em casa.  
algo que no consegues compreender. Pois a tens a nica ideia nova que 
em vinte anos entra na tua cabea: a deliciosa surpresa de encontrares a 
minha mulher ao meu lado, em vez de a ires visitar ao cemitrio. No te 
escondo que eu prprio me surpreendi, mas no tanto como tu. Explicaes? 
No tas sei dar. O mais que posso fazer  constatar contigo que, na 
verdade, as nossas ideias mudaram.
- A comparao entre o cadver de Heitor e a vossa esposa no me ocorreu, 
de facto - disse o guardio. - Segundo me parece, Menelau, tendes 
demonstrado que muito de bom resultou da guerra; evidentemente, no para 
os Troianos nem para Heitor nem para Ptrocolo nem para Aquiles, mas para 
vs. Se bem compreendi a lgica da vossa argumentao, quereis dizer que 
a vossa esposa vos prestou um favor ao fugir com outro homem?
- Nunca achei tanto que a minha porta tivesse necessidade de guardio 
como neste momento. Questionei-me muitas vezes sobre o que teria levado a 
minha mulher a abandonar a casa. Pris, por si s, nunca seria razo 
suficiente. Acaso a massacraste com alguma destas conversas antes de ela 
partir?
6O
- Oh! Helena, que gentileza a tua vires to depressa retribuir a minha 
visita - exclamou Crita. - Tive tanta pena que no estivesses em casa! 
Assim que soube do teu regresso inesperado corri a visitar-te. No fiz 
mais do que a minha obrigao para com uma
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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amiga de infncia. E, depois, h tantas coisas que gostava de saber! 
Vamos para a sombra, do outro lado do jardim.
- Transformaste o teu jardim, Crita - disse Helena. - Ainda no tinha 
reparado. J antigamente era encantador. Mas ainda gosto mais dele assim 
do que da ltima vez que o vi.
- O tempo realiza maravilhas - respondeu Crita. - Olha, Helena, a tua 
criada pode esperar l fora com o guarda-sol, porque no precisas dele.
- No, pode vir comigo. Adrasta  minha confidente. Vem c, Adrasta, 
quero que a minha velha amiga te conhea. Uma amiga de infncia.
- Oh, Helena, que linda que ela ! E que extraordinria pessoa s tu para 
teres em casa rapariga to bela como esta.
- A beleza no me contraria; porque no haveria de querer Adrasta junto 
de mim?
- Talvez o teu marido no seja pessoa impressionvel, e no tens um filho 
que te preocupe! Meu filho Damastor, lembras-te dele? No lembras, com 
certeza, estava quase a nascer quando partiste para o Egipto. Pois, no 
calculas, Damastor  belo como Apolo e tudo quanto  beleza o apaixona.  
terrvel. Tentei educ-lo convenientemente, porm  uma alma de artista e 
o facto assusta-me. (Meu pai tinha um primo afastado que tambm era 
artista). Tenho tentado manter-lhe o esprito ocupado, mas no h muita 
coisa para ele se distrair em Esparta. H Hermone,  verdade, e eu bem 
gostaria que ele se prendesse por ali. Entretanto, consegui que se 
interessasse pela jardinagem. A maior parte do que vs  trabalho seu. 
Todavia, parece-me que as flores no o ocuparo por muito tempo.
- Receias - disse Helena - que se apaixone por uma qualquer rapariga 
bonita?
- Entendes bem onde quero chegar.
- No, no sei.
- Quero que ele ganhe reputao que lhe possa servir para no momento 
prprio se apaixonar por uma rapariga conveniente
- disse Crita. - Sabes, to bem como eu, que a beleza cria por vezes 
complicaes s pessoas inexperientes.
- Muitas vezes leva ao amor, creio eu - respondeu-lhe Helena -, e, na 
presena da verdadeira beleza, todos os homens se mostram inexperientes. 
Suponho que no h experiencia que chegue


28
JOHN ERSKINE
para usar em tais casos. Queres que o teu filho se tome respeitvel
e se apaixone por uma insignificante? ou que se conforme com as 
convenes e se case com alguma rapariga de quem no gosta?
- Que cnica te tornou... quero dizer... no falavas nesse tom
antes de partir de Esparta.
- Antes de me ir embora - disse Helena - nunca tocmos neste assunto 
porque o teu filho ainda no tinha nascido, seno falar-te-ia na mesma 
linguagem.  o que penso. No se trata de cinismo, mas, pelo contrrio, 
de honestidade. Sabes to bem como
eu que  absolutamente comum casar com qualquer pessoa que se respeite, 
embora se no ame. A sociedade no condena ning,urn por isso. E sabes 
perfeitamente que se cai no pas dos sonhos quando entregamos o corao a 
um companheiro, mesmo que no seja bonito. Isso  mais do que 
respeitvel;  admirvel. E coisa
semelhante o que pensas para o teu rapaz, no ?
- No coincide bem com os meus pontos de vista - respon-
deu-lhe Crita.
- Nem com os meus, acredita! Ia justamente acrescentar que qualquer uma 
das duas frmulas, amor sem beleza e casamento sem amor, posto que 
respeitveis e convencionais so tambm muito perigosas. Por mais rara 
que seja a beleza, nada impede que um dia a encontremos no nosso caminho 
e no podemos deixar de nos prendermos a ela.
- No vejo que isso possa ser uma necessidade absoluta -
disse Crita -, podemos estar presos a compromissos anteriores.
- Para quem nunca se entregou  beleza, no pode haver compromissos 
anteriores. ~ Queres dizer que no tentarias nada para evitar que um
filho teu se apaixonasse pela primeira rapariga bonita que lhe 
aparecesse?
- Tentaria tudo para evitar que se apaixonasse por qualquer outra pessoa 
- disse Helena. - Quando encontrar uma rapariga bonita, o dever do rapaz 
 an-la. , alias, o que ele far, mesmo
que tenha compromissos anteriores com a respeitvel vida caseira. Antes 
queria o rapaz livre e sincero. O teu modo de encarar o
caso, Crita, leva o teu filho a envergonhar-se de amar a beleza,
coisa que, no entanto, nunca deixar de fazer, embora de maneira prfida 
e cnica. Com tanto esforo para o tomares respeitvel, podes obrig-lo a 
ser desonesto.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
-  assim que falas a Hermone? - quis saber Crita.
- Tenho tido poucas oportunidades para falar com ela sobre qualquer 
assunto, todavia, se pudesse, dir-lhe-ia a mesma coisa. Confio que ela se 
apaixone pelo homem mais maravilhosamente belo que conhecer e agrada-me 
pensar que ficar apaixonada  primeira vista. Seja como for, amar quem 
o destino lhe marcar e  desnecessrio preocuparmo-nos com isso. Os 
deuses s aconselham os que tm o corao livre.
- Importavas-te que Adrasta aguardasse na outra extremidade do jardim? 
Tenho uma ou duas coisas que gostaria de te dizer a ss - disse Crita.
- Adrasta, espera no extremo do jardim - ordenou Helena. -
E agora que ela se foi embora, devo dizer-te que no percebo os teus 
segredos. Se no podes dizer, no digas.
- Helena, a franqueza fica-te muito bem, a ti, mas talvez faa mal aos 
outros. No devias dizer estas coisas sobre o meu filho  frente da 
rapariga, porque lhe metes ideias na cabea.
- Querida Crita, que ideias podemos expressar para proveito da mocidade, 
que s a Natureza ouve? S falei do teu filho depois de tu teres falado 
nele e mais no fiz do que desejar-lhe felicidades. Parece-me  que tu  
que ests a estragar o rapaz. Mesmo  frente da rapariga mostraste que 
no depositas confiana alguma nele. Com certeza que ela no pode 
apaixonar-se pelo teu filho s com as tuas descries. Deves mand-lo l 
a casa qualquer dia para nos provar que  mais homem do que as tuas 
palavras deixam supor. Tenho curiosidade de ver o rapaz.
- j l tem ido vrias vezes para ver Hermone. No te podia dizer isto 
diante da tua criada, mas alegrava-me bastante se ele pensasse na tua 
filha. Ao menos ningum tem nada que dizer dela.
- No ser bem assim - disse Helena -, ou ento no entendo nada da 
natureza humana. Em todo o caso acho que no merece o teu filho. Sabes se 
Hermone se interessa por Damastor? O pai sempre ambicionou cas-la com o 
primo Orestes.
- Que estranho! Nem ela nem o meu filho me falaram de Orestes. Tambm, 
verdade seja dita, no lhe conviria. Em todas as frequentes visitas que 
me fez, ultimamente, do que mais falvamos era de...
- De qu? - insistiu Helena. - Continua.

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JOHN ERSKINE
- Ora, de que havia de ser!? De ti. Esclareceu-me de tudo e devo dizer 
que me tirou um grandepeso de cima.
- Fala claro para poder compreender onde queres chegar. Que esclareceu a 
minha filha? Que dvidas te pesavam no espirito?
- Oh! Helena, queria evitar tocar no assunto assim to cedo, mas, j que 
insistes, continuo. Hermone esclareceu-me sobre tudo o que houve entre 
ti e Pris, e fiquei to grata por saber que estavas inocente, que...
- Inocente de qu? - interrompeu Helena. - Referes-te a algum crime? Essa 
 boa! Talvez Hermone me explique o caso quando eu chegar a casa.
- Bom, no lhe chamemos crime! Mas, segundo me pareceu, como aconteceu a 
toda a gente, alis, tu fugiste com Pris para Tria, porque ele era teu 
amante e porque te apaixonaras por ele. Confesso que acreditei nessa 
verso, Helena. O teu marido cometeu o mesmo erro, naturalssimo. E, como 
Pris era um prncipe, pensmos que se comportava como tal. Depois viemos 
a saber, pelos relatos de Hermone, do seu baixo carcter e do que tu te 
livraste. S ento te compreendemos como vtima involuntria e o facto 
alegrou-nos bastante. Menelau tambm te perdoou, cheio de contentamento.
- Menelau!? - admirou-se Helena. - Bom, mas, voltando a Pris, em que 
argumentos fundamenta Hermone essa convico de carcter grosseiro e 
modos de vilo?
- Roubou a moblia!
- O qu? - gritou Helena.
- Pelo menos foi o que Hermone contou - prosseguiu Crita. - E, alm 
disso, obrigou-te a ires com ele. Hermone exprimiu-se muito 
discretamente como convinha a uma menina educada, mas depreendia-se 
facilmente que, durante todo o caminho at ao Egipto, resististe a Pris 
e que l te socorreram. Deves ter vivido uma aventura apaixonante.
- Crita - volveu Helena -, nem calculas como estou interessada na verso 
que Hermone apresenta da minha histria. Quando contou ela tudo isso?
- A maior parte antes de chegares. Mais tarde, acrescentou alguns 
pormenores. E ainda h dias me garantiu que, depois da tua chegada, 
pudera confirmar alguns factos passados no Egipto.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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- Que histria  essa? - perguntou Helena. - Agora comeo a
compreender onde querias chegar em relao s referncias ao Egipto no 
princpio da nossa conversa.
- Olha! Foi Hermione que me disse o nome do casal que te recolheu. Tou ou 
Tnis?... e Polidarana, no ?
- Ah, sim... Fiquei no Egipto em casa de Tnis e Polidamna, segundo vocs 
dizem?
- Mas no foi assim? Foi o que Hermone nos garantiu...
- O melhor  contares tudo o que ela disse para depois eu
poder pr as coisas no seu devido lugar - disse Helena.
- Esta conversa, afinal, no passa de uma tolice minha. Melhor seria 
ouvir-te contar como as coisas se passaram. Mas, enfim, l vai... Antes 
dos esclarecimentos de Hermone julgmos, muito simplesmente, que fugiras 
com o teu amante. S depois soubemos que ele te raptara contra a tua 
vontade e que roubara a
Menelau alguns objectos de valor, revelando assim de que tipo era. O 
vento, certamente porque os deuses te protegiam, em vez de levar o barco 
para Tria, levou-o para o Egipto. A pediste socorro, e Tnis mataria 
Pris se os direitos da hospitalidade no lhe valessem. Pris foi 
obrigado a partir sozinho para Tria. Tu e os objectos roubados esperaram 
em casa de Tnis e Polidamna, onde o teu marido te foi buscar para te 
trazer para Esparta. Foi assim, no  verdade? - Quer dizer que Hermone 
cr que no houve guerra de Tria? - perguntou Helena.
- Claro que no... isto , sim. A guerra eclodiu, segundo ela diz, de uma 
confuso lamentvel, mas natural. O teu marido e os seus aliados chegaram 
a Tria para te reclamar. Os Troianos garantiam que no te encontravas 
l, mas os nossos no acreditaram. Sobretudo, parecia suspeito que eles 
afirmassem que esperavas por Menelau no Egipto e no negassem que Pris 
voltara  ptria. Neste estado de coisas pareceu que no havia mais nada 
a fazer seno lutar. Ora, se te encontrasses na cidade, como diz Hermone 
com muita razo, os Troianos at se alegrariam, podendo devolver-te e 
evitar a guerra.
- Hermone disse uma coisa dessas?
- Disse. E para salvar a cidade compreende-se perfeitamente. Como 
atacaram a cidade, foraram-nos a defender-se. S quando Tria caiu, se 
soube a verdade, mas j era muito tarde. Tanto tempo

32
JOHN ERSKINE
perdido! A Menelau no restava outra soluo: voltou ao Egipto e
trouxe-te para casa. Pelo que conheo do teu marido, calculo que devia 
estar bastante irritado.
- Com certeza - disse Helena. - A viagem ao Egipto no lhe agradou muito, 
no. E que mais contou Hermone?
- No contou mais nada, que me lembre...
- Ouve, Crita - perguntou Helena -, contaste esta histria a
alguns dos nossos amigos?
- A todos quantos pude, Helena. Sabia que lhes dava grande alegria ver 
limpa a tua reputao, porque todos ns somos teus amigos.
- Vejo que, durante algum tempo, vou ter bastante trabalho a corrigir 
todas essas patranhas. Posso comear por ti, Crita. Certamente que no 
acreditaste em Hermone?
- Mas certamente que sim, que acreditei. Deu-nos uma explicao 
perfeitamente plausvel e, pela amizade que nos une, uma
explicao bem do meu agrado. No me comportaria como amiga verdadeira se 
no empregasse todos os esforos ao meu alcance para poder acreditar!
- Pareceu-te verosmil que Hermone soubesse todas as circunstncias que 
me levaram a fugir de casa, quando ela, nessa
altura, no passava de uma garota? Por amizade, convenceste-te de que eu 
esperei vinte anos no Egipto, e que no podia voltar a Esparta sem a 
escolta de Menelau? Pois bem, permite-me que te esclarea completamente. 
Eu e Menelau aportmos ao Egipto, levados pelo vento, quando 
regressvamos de Tria. Nunca vivi em casa de Tnis e Polidamna, apesar 
de serem eles a venderem-nos mantimentos. Com Pris, a viagem at Tria 
foi muito rpida e directa. Pelo menos diverti-me bastante e no a achei 
demorada. Amei Pris loucamente. Alis, nunca me levaria, se no fosse 
vontade minha segui-lo. Tambm no roubou coisa alguma de casa de 
Menelau. Segundo parece, alguns objectos desapareceram na confuso; mas 
devem encontrar-se facilmente por a, em
Esparta. Nem Pris levou nada para Esparta nem Tnis entregou a Menelau 
nada para trazer.
- Helena, no me digas tal coisa. Quis pensar no melhor -
lastimou-se Crita. - No acredito, no posso acreditar: quando olho para 
ti, acho-te com um ar to..., no te zangas, se eu disser?, um ar to 
inocente! E s agora tu prpria quem desmente a nossa
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
33
interpretao honrosa dos factos, e s agora tu quem insiste em ser.. em 
ser aquilo que ns, no incio, dissemos que eras. No te compreendo nem 
entendo como voltaste com Menelau para casa...
- Ou porque voltou ele para casa comigo, se quiseres - interrompeu 
Helena. - Essa  a parte mais intrincada do caso. Parece que a famlia e 
os amigos ficaram bastante intrigados. No tentarei explicar-te a conduta 
de Menelau. A verdade, porm,  que foi ele que insistiu para que 
voltasse. Inicialmente quis matar-me, mas arrependeu-se. Se quiseres 
conhecer mais a fundo as suas razes, pergunta-lhe quando te vier 
visitar. Neste momento s te posso explicar as razes das atitudes que 
tomei. Obrigada, antes de mais nada, querida Crita, por me achares com 
ar inocente. Estou, com efeito, inocente de tudo, excepto de ter amado. 
Pelo que disseste esta tarde, talvez penses que o amor  nefando crime. 
Admitamos que sim e chamemos-lhe grande... infortnio, mas cheio de uma 
infelicidade que todos querem provar. Perante infelicidades e erros, 
devemos todos comportar-nos com sinceridade. Com mais fortes razes, 
ainda, devemos ser sinceros perante as misrias que os nossos erros e 
infelicidades trazem aos outros. Se eu consentisse que a mesquinha 
histria que inventaram para me justificar continuasse a correr, elibava-
me das censuras que mereo, como causadora de todas as desditas que 
sofremos com a guerra de Tria. No quero que assim seja. Estava l. 
Causei a guerra. Neg-lo, seria negar-me a mim prpria para viver 
encoberta na hipocrisia e na mentira. _ Por quem s, Helena! Atordoas-me 
com os teus raciocnios. Por um lado, queres que todos saibam que 
causaste a guerra, e, por outro, pretendes que te considerem to inocente 
como pareces? Que ideia fazes tu da inocncia?
- Crita, j sabes que no costumo atrapalhar-me com pouca coisa. Muito 
me agradaria saber, agora, a que chamas tu decncia. Estamos aqui 
sentadas no teu jardim em pleno dia, os teus criados e vizinhos podem ver 
as companhias comprometedoras que recebes. Queres que me retire j ou 
pretendes ouvir, primeiro, o resto da minha histria?
- No sejas susceptvel, Helena, e acaba de cont-la. Evidentemente que 
quero ouvir at ao fim. Desejo ardentemente compreender o caso.
- No sou eu quem to pode explicar - respondeu Helena. -
A nossa experincia  diferente e as nossas ideias, provavelmente,

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JOHN ERSKINE
tambm. Mas aqui tens a razo por que me considero inocente. Os homens 
costumam apaixonar-se por mim sem eu querer. Nunca procurei apoquentaes 
na minha vida. Sou eu mesma e isso tem sido suficiente. Tambm nunca 
desejei amar. Casar sim. Alegrou-me bastante casar com Menelau, e no 
andava longe de pensar, como tu, com prudente convico que o casamento 
se arranja e suporta mais facilmente do que o amor. Contra a minha 
vontade apaixonei-me por Pris. Eis uma fatalidade da qual, portanto, no 
me responsabilizo. Colocava-se o problema da sinceridade. A, pelo menos, 
agia em plena liberdade, qualquer que fosse a aco do destino. Desde que 
me cabia amar, escolhi o amor, Crita, salvei, sem mcula, uma nica 
virtude de toda esta entontecedora aventura: a sinceridade. Conservei 
tambm um pouco de lucidez, a bastante para, desde os primeiros momentos, 
compreender que tudo acabaria mal. Abandonava a minha filha. Como se 
formaria a sua alma inocente, entregue a si prpria e com tal exemplo na 
famlia? Quando chegmos a Tria, pensei que os Troianos prefeririam 
repudiar-nos, a mim e a Pris, do que arriscarem-se a uma guerra. Nada 
disso aconteceu, afinal. Receberam-me admiravelmente. E todas as vezes 
que a guerra no lhes corria de feio no se esqueciam de me afirmar que 
s o facto de me terem junto deles compensava todos os sacrifcios. 
Crita, uma mulher que comete um erro, embora sem o poder remediar, se se 
apresenta disposta a expiar todas as desgraas como nica culpada, na 
minha opinio, est com certeza acima da moral comum. Segundo as tuas 
normas, penso eu, e tambm segundo as minhas, evidentemente, os Troianos 
tinham perdido o sentido das consequncias morais dos actos que 
praticavam. A histria inventada por Hermone salvaria a reputao dos 
Troianos, mas obscureceria a minha. Orgulho-me da prontido com que me 
ofereci para pagar a infelicidade que trouxe aos outros. Sem esta 
rectido moral, nunca poderia tranquilizar-se a minha conscincia. Penso 
que Menelau, tal como os Troianos, tambm se mostrou moralmente abalado. 
Desde o incio do cerco previ que o nosso povo venceria e calculei que 
Menelau me mataria. Porm, tal no aconteceu. Muito pelo contrrio, 
trouxe-me para Tria, como vs. Quase podia dizer que os deuses no se 
comportaram como deviam por me terem poupado a vida - mas talvez, para 
expiar as minhas faltas, me reservem o sofrimento de verificar que a 
minha filha, abandonada, cresceu educada no amor
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
35
pela respeitabilidade e pela mentira. Se, junto dela, acompanhasse a sua 
educao, sempre lhe teria ensinado a amar sinceramente a verdade.
- Com as coisas colocadas desse modo, Helena, comeo a no compreender 
Menelau, como j no te compreendia a ti. Ia jurar que perseguia 
loucamente a vingana. Sempre foi um marido to ciumento...
- Na verdade. Quando me viu, avanou para mim com um punhal, uma espada 
ou algo semelhante. No reparei, por indiferena. Esperei e no fiz 
sequer um gesto instintivo para me desviar. Mais, facilitei-lhe a tarefa 
rasgando o vestido e descobrindo o seio que lhe ofereci... assim... olha!
- Ah!... E foi ento que decidiu no te matar? Pobre homem!... Helena, s 
uma mulher impossvel.
- Impossvel porqu, Crita? Simples e sem malcia  o que eu sou. Muito 
mais correcta, parece-me, do que as pessoas no meio das quais tento levar 
uma vida certa. Com a minha experincia e
habituada como estou s voltas que o mundo d, no s verias que a nossa 
ideia de justia no tem qualquer fundamento prtico, como tambm 
concordarias que grande parte das nossas infelicidades so obra de foras 
superiores a que no podemos furtar-nos. O amor, por exemplo. Farias 
melhor se lhe erguesses as mos suplicantes. To terrvel como belo e bem 
diferente do que pensas, Crita, bem longe de ser apenas uma palavra para 
exprimir um sentimento que nos domina.
- Nunca estudei o assunto to a fundo como tu - disse Crita. Com certeza 
falaste muitas vezes com Pris sobre o assunto. Como era ele? No me 
disseste quase nada sobre Pris...
- Amei-o. Morreu. Que queres que te diga dele?
- Perdoas a minha pergunta, no  verdade? Mas espicaa-me a curiosidade 
saber como teria aceite a tua filosofia. Amaste-o tanto que fugiste com 
ele, mas, agora que est morto, pareces pouco comovida. Pareces cruel por 
isso, Helena. Devias parecer triste, ao menos.
- Se te disser a verdade no me compreenders. Apesar de tudo, a a tens, 
no amei Pris, mas outro que ele me recordava. A princpio julgava que o 
amava a ele... mas, depois, quem amei e amarei sempre, foi quem pensei 
que Pris era. Comecei apaixonada, mas acabei por ter pena dele.

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JOHN ERSKINE
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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- A est o aborrecido das aventuras. Trazem sempre desiluso - afirmou 
Crita.
Ah, tu sabes uma coisa dessas? - admirou-se Helena. Quem o no sabe? E, 
no teu caso, a desiluso deve ter-te feito sentir que cometeras uma falta 
invulgarmente grave. Por isso continuo sem compreender grande coisa da 
tua filosofia sobre a inocncia, Helena.
- Se considerarmos a iluso de amar falta to grave, ento, Crita, 
consideremos a maior parte dos casamentos desastres fatais. Por favor, v 
se compreendes porque tive pena de Pris. Senti que tambm se considerava 
perdido numa louca aventura, perdido por outra que no era bem eu, mas 
que eu lhe lembrava, perdido por outra que no mais encontraria, como eu. 
No  tambm o que acontece nos chamados casamentos de amor? Muito bons 
maridos so tambm homens perdidos. E quando se chega a isso, Crita, o 
que ser das mulheres?  verdade, a propsito,  altura de eu perguntar 
como resistiu ao tempo o amor conjugal c em casa?
- Julgo que no posso falar de coisas to ntimas, nem mesmo contigo, 
Helena. Alm disso, no tenho nada a dizer. Eu e o meu marido mantivemo-
nos inteiramente fiis um ao outro.
- Talvez assim no fosse se houvesse uma criada bonita c em casa. Quanto 
a ti, Crita, queres dizer que ainda vives no apogeu da iluso amorosa 
ou, muito simplesmente, que te esforas por olhar menos para os outros 
homens do que para o teu marido?
- No fales desse modo, Helena. Confundes-me. Reconheo-me antiga, mas 
gosto das antigas maneiras entre os homens e as mulheres.
- Adrasta tambm deve gostar, porque encontrou um amigo ao fundo do 
jardim e conversa com ele h mais de um quarto de hora confidencialmente, 
para no dizer muito intimamente.
- Deuses misericordiosos! - gritou Crita. -  o meu filh,@, Damastor! 
Bem te dizia, Helena, eu bem te dizia!
7. Hermone era filha de Helena, mas Menelau era seu pai. Her~ mone 
herdara os cabelos negros, os olhos escuros e o porte real
de Menelau. Mantinha o aprumo de quem sabe o que vale. Helena nascera 
rainha, Hermone herdava um reino. No se podia dizer bonita, mas acudia 
a beleza ao esprito quando se a contemplava. Com admirvel carcter, 
Hermone pensava que o mundo podia dirigir-se pela aco directa da 
inteligncia e da vontade. Pensava desempenhar o seu papel. De p diante 
de Helena, alta e delgada, mostrava grande -vontade e questionava-se 
sobre as razes pelas quais a me a mandaria chamar.
- Hermone - comeou Helena -, mal cheguei a Esparta verifiquei que 
correm, a meu respeito, certos rumores escandalosos. Talvez possas 
explic-los. Conhece-los?
- A qual dos boatos te referes, me?
- Parece que sempre sabes do que se trata. Devo conhecer a origem de tudo 
o que se diz para, se for possvel, pr cobro a tal exagero. O escndalo 
 sempre aborrecido e muitas vezes desnecessrio.
- s vezes, no  inevitvel!
- Nunca - exclamou Helena. - Sei de muitas pessoas que assim pensam mas 
no posso estar de acordo. Seja como for, no  disso que se trata agora. 
Desejo descobrir a origem dessas histrias em que figuro bem 
discretamente. Quando comearam a correr pela primeira vez?
- Eu preferia esquecer o assunto da nossa conversa, me! - Vamos falar, 
primeiro, para esquecer depois - insistiu Helena. - Das vrias histrias 
que correm, qual ouviste contar primeiro e quando?
- Corre o boato de que deixaste o teu marido e fugiste com Pris para 
Tria. Foi o primeiro que ouvi, e logo a seguir  tua partida.
- Mas isso no  um boato,  a pura verdade.
- Se no  boato, no sei o que seja - disse Hermone.
- Vejo que no, que no sabes, minha filha. Num boato h sempre qualquer 
coisa de falso e difamatrio. Boato, segundo penso, , por exemplo, a 
histria que ouvi a Crita, ontem  tarde, afirmando que nunca estive em 
Tria, que Pris me raptou contra a minha vontade, que roubou a moblia 
c de casa, que os ventos nos levaram para o Egipto. Enfim, conheces essa 
histria absurda, no  verdade? Ora bem: a isto  que eu chamo um boato. 
Que iria eu fazer ao Egipto? Por que motivo fugiria com um ladro?

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- A verdade  que a moblia desapareceu - interrompeu Hermone -, e deves 
concordar, me, que Pris era a pessoa que devamos culpar, desde que 
ele... bem, desde que ele fez... o que fez.
- O que fez ele!? - perguntou Helena, admirada. - No passavas de uma 
criana, nesse tempo. Sempre gostava de ouvir o
que sabes sobre o episdio. Talvez se suprimisses a parte maldosa do 
boato. Pris no me raptou. Acompanhei-o com muito gosto. Mas, mesmo que 
me tivesse raptado, preferia pensar que fazia alguma diferena da 
moblia.
Hermone nada disse.
- Ento? - insistiu Helena.
- Me, isto  um assunto terrvel que preferia evitar - disse Hermone. - 
No  prprio em conversas de uma menina com a sua me tratar...
- De qu?
- _do carcter do homem que... do que te seduziu.
- Ningum me seduziu nem ningum te pediu a opinio sobre o carcter de 
Pris. Tinhas um ano quando te viu pela ltima vez.
O que quero saber so coisas de que podes falar. Como comearam estes 
boatos?
- Se pretendes que cheguemos a um acordo, acho que no
deves desviar a conversa do seu curso natural. Eu no queria dizer nada, 
mas se, afinal sempre falamos no caso, insisto que o
ponto principal da questo  Pris. Claro que, quando ele partiu, eu no 
podia formar opinio alguma sobre a sua conduta. Mas agora posso... e no 
 muito honrosa. Pris morreu, e o que l vai, l vai. No entanto, a sua 
conduta parece-me, e parecer-me-, de mau gosto.
- Pris, segundo creio - disse Helena -, j no pode evitar que assim 
penses. Hs-de concordar que eu disponho de mais elementos do que tu para 
poder avali-lo e compreend-lo. Mas isso agora no importa. Como  que 
os tais boatos comearam? Sabes?
- Visto que resolveste aclarar especialmente esse ponto, devo declarar 
que fui eu quem inventou toda a verso que tanto te interessa.
- Isso est de acordo com o que ouvi em casa de Crita. Folgo muito com a 
franqueza de te confessares a autora. Mas, como pudeste tu, Hermone, 
forjar tantas mentiras? No respondas,
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                    39
filha. Sei que  o resultado de te ter abandonado e de ningum te ter 
educado.
- Magoas-me, me - protestou Hermone -, feres-me profundarnente com a 
crueldade do que me dizes e a frieza com que o fazes. Tentei respeitar-
te, chamei-te me mas no pertencemos uma  outra. Com um pouco mais de 
sentimentos humanos compreenderias porque tentei tudo ao meu alcance para 
te salvar a reputao e quis ter esperana em aparncias enganadoras, em
ver Se conservava ao menos um pouco de considerao para o teu
regresso, no caso de voltares. No olhes para mim dessa maneira. No tens 
o direito. Se acaso filha minha me dissesse tantas verdades como eu agora 
te digo, a vergonha no me deixaria olhar assim com tal ar to 
resplandecente e sereno.
Helena continuou radiante e serena.
- Respeitabilidade baseada na falsidade - disse ela. - Nada
mais te sugeriu o teu amor por mim. j vi tentativas semelhantes 
anteriormente, Hermone. Pareces-te muito com o teu pai. E tambm com a 
minha irm, para meu desgosto. A propsito, viste Orestes, na minha 
ausncia?
- De vez em quando - respondeu Hermone. - Isto , no
muitas vezes.
- Que fossem muitas vezes, no era crime nenhum, pois no? Hermone nada 
disse.
- No precisas de corar - continuou Helena , ainda no  a
tua filha que fala; por enquanto  a tua me que te atrapalha com
a teimosia da sinceridade. No me contraria de modo algum que vejas o teu 
primo frequentemente.
Hermone continuava calada.
- Escusas de te envergonhar, mesmo que o vejas muitas vezes - continuou a 
sua me. - At chegmos a planear que o casaramos contigo e suponho que 
ele gosta de ti. Levantei a questo apenas para examinar um pouco mais do 
teu carcter. Percebo que te faltasse a coragem para falares de mim, s 
nova, e o meu
caso nico. No compreendo a dificuldade que mostras em contar
a verdade da tua vida impecvel. Tentaste manter a minha honorabilidade 
com fabulosas mentiras; diz-me o que pode ganhar a
tua honra com essa falta de franqueza?
- Orestes vem c a casa com frequncia - disse Hermone embora eu ache 
que no  muito frequentemente. Talvez por isso

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andamos to apaixonados um pelo outro. l devia ter confessado isto h 
mais tempo, mas receava que no gostasses de Orestes.
- Realmente no gosto muito, no, mas, como no sou eu que vou casar com 
ele, no importa. E tu, gostas dele? Repara no dilema em que te 
colocaste. Se desejasses casar com ele e o deixasses porque eu 
desaprovava, verificando que seguias o meu conselho, concuia igualmente 
que no estavas to apaixonada como dizias. Mas) se pretendes casar com 
ele apesar de tudo e encobres as tuas intenes para te furtares  minha 
opinio, no s no me lisonjeias como me levas a pensar que no dou nada 
por esse casamento. No casamento, mais do que em qualquer outra coisa,  
necessria uma grande coragem de convices... No incio, pelo menos...
- Fazes-me muito mal - interrompeu Hermone, sem se poder conter. - 
Tentei falar-te de uma maneira suficientemente clara para te satisfazer, 
a ti e a mim. No sei se isto  da coragem das minhas convices, ou se 
sou eu que estou irritada, mas devo dizer que no admiro em absoluto o 
teu tipo de coragem nem o gnero de homem com quem fugiste, nem as tuas 
ideias de honestidade. Houve em mim, nem sei porqu, um impulso para te 
poupar a que ouvisses algumas verdades amargas, mas j no posso conter-
me. No sou to velha como tu, mas no me sinto muito nova. Criei-me a 
meditar sobre aquilo a que chamas a tua carreira nica, e concedo, sem a 
menor sombra de vergonha, que sou mais antiquada do que tu. Gosto da 
respeitabilidade que pareces temer. Quero casar com um homem de quem 
possa gostar bastante para sermos felizes toda a vida. Pretendo viver a 
minha vida famliar sossegadamente. Peo desculpa pela tentativa de 
salvamento da tua reputao, visto que preferes que assim no seja, mas 
devo dizer que da no vem grande mal, porque, na verdade, nenhum dos 
teus amigos acreditou. Fi-lo para cumprir um dever. No te devo gratido 
nem razes de amor, porque nada tentaste para a minha felicidade, como, 
alis, nada tentaste para a
felicidade de ningum, nem do meu pai nem de Pris nem de nenhum outro. 
Pris reconheceu com certeza a loucura de te ter levado.
Hermone admirava-se com a coragem da sua prpria indignao, mas sentia-
se profundamente satisfeita. Sentia-se a viver um grande momento. Helena, 
caso estranho, tambm parecia muito satisfeita.
- Finalmente, dizes a verdade! - disse ela. - Graas aos deuses 
olmpicos, apesar de, como quase sempre que se diz coisas desagradveis 
aos outros, comeares pelo fim. Gosto muito mais de ouvir-te dizer a 
verdade do que essas tolas mentiras que a tua
cabecinha inventou. Agora mostraste-te coerente em todos os pontos: no 
tens razes para gostares de mim, nem para me teres gratido. Quanto a 
Pris, muitas vezes me pergunto porque teria gostado de mim. E respondo-
me que talvez pela mesma razo
porque o teu pai no me matou naquela noite em Tra. Disse a
Pris precisamente o que tu disseste h pouco, que nunca proporcionei 
felicidade a ningum. Tambm lhe disse que homem ne-
nhum me fizera feliz. E garanti-lhe que a promessa de xtase imortal se 
converteria num momento breve e ilusrio e que atrs da nossa paixo 
viria um cortejo de infortnios que provavelmente o arrastariam para a 
morte. Apesar de tudo, com os olhos bem abertos e em perfeito uso da 
razo, escolheu pelo nosso amor, se  que houve realmente aquilo a que se 
pode chamar escolha. Mais duras eram ainda as circunstncias de teu pai, 
quando me encontrou, de espada desembainhada e assassnio no peito. Tinha 
todo o direito de me matar e eu assim o pensava, se  que, realmente, eu 
tambm pensava nalguma coisa naquele momento.
Hermone estava aborrecida por ver a me continuar impassvel. Julgou que 
chegara o momento de tomar novamente a palavra, porm no conseguiu 
alinhavar duas ideias. Sentiu-se subitamente exausta. j h um grande 
bocado que estava de p. Sentou-se ao
lado da me. - Falaste com exactido - continuou Helena -, mas s ainda 
muito nova para apreenderes certos pormenores. Sim, tinha obrigao de te 
fazer feliz, porque se deve fazer felizes os nossos filhos. j no digo o 
mesmo do nosso amante. Neste ltimo caso, nego qualquer espcie de 
obrigao. Se soubssemos com antecedncia o que aceitamos e o que nos 
espera, a felicidade seria a
ltima coisa a pedir ao amor. Uma divina realizao da vida, sim, um 
despertar para o mundo exterior e para a vida interior, sim, mas nunca a 
felicidade. Desejava poder ensinar-te, Hermone, que uma mulher ou um 
homem amado so apenas momentos de uni sonho. Quanto mais forte  o amor, 
como ns dizemos, mais clara e real nos parece a viso. No podes amar e, 
simultaneaniente, dar felicidade ao teu amor, pela contradio que o 
desejo

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JOHN ERSKINE
encerra. Se ele te amar realmente, considera-te superior e sofre com a 
tua superioridade; se lhe provares que no vales tanto quanto supunha, 
igualmente sofrer a stil desiluso.
- No te consideras, tu mesma, um caso especial? - perguntou finalmente 
Hermone. - Para ti o amor pode ser to incerta perturbao, mas os 
outros que observo  minha volta tomam-no como felicidade belamente 
normal e breve. Pelo menos no falam como tu, mostram viver com alegria e 
conforto e felicitam os jovens que procuram casar-se.
- Minha querida filha, sou, como dizes, um caso especial, como so todos 
os que conheceram realmente o amor, o amor verdadeiro. H, no entanto, 
nessas culminncias, conhecimentos rudi- mentares, gerais, que gostaria 
de partilhar contigo, se pudesse.  intil, porm. S  tua custa 
aprenders, quando te apaixonares.
- Mas estou apaixonada - garantiu Hermone. - Amo Orestes.
- Sim, minha filha, mas no profundamente. Aposto que Orestes nunca te 
decepcionou.
- Nunca.
-  a primeira parte. S quando se cria uma iluso se pode sofrer um 
desapontamento.
- J conheo uma nova concepo de honestidade e hei-de fazer o possvel 
por apreender a tua ideia do amor. Posso fazer-te uma pergunta 
indiscreta? Suponho que estas teorias se aplicam tanto a ti como aos 
homens que te amaram. O amor tambm tem sido sempre um engano para ti?
- Nunca um engano, sempre uma iluso - respondeu Helena.
- Ento, quando fugiste com Pris, se no era realmente o prprio Pris 
que tu amavas, como descobriste mais tarde?
- Podes diz-lo. Era um Pris da minha fantasia.
- J que te no podes elibar com a desculpa que me atribuis da 
inexperincia, porque j amaras o meu pai e descobriras que no realizava 
os teus sonhos, como explicas que te deixasses ir numa segunda desiluso?
- Eu s casei com o teu pai - respondeu Helena. - Nunca disse que o amei. 
Para no te desgostar nem difamar as tradies da famlia, falo sempre da 
minha afeio para com Menelau e da sua correco como esposo. Contudo, 
mesmo que me tivesse apaixonado por ele, a tua argumentao no me 
atingia. Confessaria, nesse caso, igual desiluso no amor de Menelau e de 
Pris. Mas
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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continuaria a preferr a minha iluso por este.  pela iluso que nos 
apaixonamos, sem querer saber como acontece nem como acabar. Toda a 
iluso a mais  benvinda; s enquanto dura, atingimos a luminosidade do 
nosso prprio ser. Sob este aspecto, ao que me parece, o amor  uma 
doena incuravel.
- Nesse caso - tornou Hermone -, quando algum te causasse tal divina 
viso de ti prpria, podias conservar a felicidade, se no visses outra 
vez o objecto do teu amor?
- A est uma observao cheia de profundidade. Simplesmente para tanta 
sabedoria seria necessria desumanidade.
- Outra pergunta, me; o pai pensa como tu? - Duvido. Mas, se queres que 
te diga a verdade, no sei. Eu e o teu pai nunca falmos das ideias que 
ele tem sobre o amor.
- Quer-me parecer como certo que no concordaria e eu tambm no concordo 
- disse Hermone. - O teu elogio da franqueza d-me coragem para afirmar 
que no me parece que as pessoas que conheo, excepto tu, se considerem 
enganadas pelo amor, nem que aquilo que apresentam como sua felicidade se 
deva considerar mera iluso. Para mim, ambiciono a felicidade igual  que 
eles gozam. Nunca perceberei como tu, to bela e to inteligente, com um 
marido escolhido por ti, entre tantos pretendentes esplndidos, pudeste 
cair no erro de seguir esse asitico. Esforcei-me por me aperceber do 
estado de esprito em que estavas quando fugiste e no h forma de o 
compreender.
- No, realmente, nesse aspecto no conseguiste ver nada. Mas voltemos 
aos boatos que tu espalhaste. Afirmaste a Crita que parti contra a minha 
vontade. Pris levou-me, ento,  fora...
- Pareceu-me a verso mais simptica.
- Ah, houve escolha de verses!? Ao que eu escapei, deuses magnnimos! E 
quais eram as outras? Conta l...
- Oh, me, que interessa isso, agora!? J que espalhei boatos e que te 
aborreceram, peo-te desculpa, pronto. S consegues irritar-me com essa 
maneira com que me examinas. Tentei proceder bem e tu, em compensao, 
enervas-me.
- Se tentaste o melhor procedimento, no deves enervar-te -
disse Helena. - Mas suspeito que no te achavas muito  vontade nesse 
momento. s demasiado inteligente para no saberes aquilo que dizias.


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A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
,45
- Evidentemente, no ignorava que dizia uma mentira. Mas era no teu 
interesse, no interesse da famlia. Capaz de inventar algumas, tratei de 
escolher a melhor.A primeira em que pensei no valia grande coisa. Era 
tirada de uma poesia j antiga, daquelas que falam dos encantos dos 
deuses, que iludem os amantes, e eles ficam sem saber quem tm nos 
braos, e s quando acordam do encanto  que do pelo logro... Andava to 
desesperada, no incio, que pensei dizer que Afrodite te encantara e que, 
quando julgavas abraar Menelau, acordaste com Pris nos braos. No te 
rias, porque depressa vi a ineficcia dessa poesia cedia. Depois tambm 
poderia dizer que acompanharas Pris livremente, mas parecia muito 
desonroso e no podia explicar tudo at ao fim. Para mais, era o que 
pensava toda a cidade. Resolvi, finalmente, que Pris te arrastara  
fora.
- Por mais espantoso que isto te possa parecer, a par do que te disse h 
pouco, sobre o amor, a tua primeira ideia no se fundava numa poesia to 
tola e cedia, como dizes, e, se a tens espalhado, nunca pensaria em 
combat-la como calnia, porque realmente  a verdade. Pris nunca me 
poderia arrastar contra a minha vontade. Em certo sentido, parti por 
vontade prpria, no entanto, na verdade profunda das coisas, a tua ideia 
 que  justa: eu estava subjugada por um encantamento. - Oh, minha me, 
por favor, nisso ningum acreditar, num sculo como este.
-  verdade, Hermone, a profunda verdade! Pensamos que abraamos Menelau 
e, afinal,  Pris quem temos nos braos.
- Dou-te a minha palavra de honra, me, que nunca na minha vida ouvi 
observao mais cnica do que essa.
- Pelo contrrio, minha filha.  uma das mais puras e optimistas que 
ouvirs, principalmente proferida pela minha boca. Tu ainda no 
compreendes e muitos dos que deveriam sab-lo parecem ter medo de o 
reconhecer, mas, no amor, h sempre um natural encantamento da paixo que 
nos arrasta e, quando o encantamento desaparece, como deve, nasce das 
suas razes a erva daninha da desiluso ou a realidade soberba da 
amizade, da camaradagem e da harmonia. Sempre procurei este fruto na 
terra do encantamento e, embora o no encontrasse, estou em crer que 
existe. ~ Se todos pensassem como tu, no sei o que seria do mundo. No 
temos o direito de construir a nossa prpria vida...
Se no tratamos de construir a nossa, arriscamo-nos a destruIr a dos 
outros.
- O que eu quero dizer, minha me,  que no andamos sozinhos neste 
mundo. Bem sei que tens uma resposta para tudo, mas
que ro dizer-te que me parece bizarro o teu sentido das propores. 
Censuras-me por espalhar uma histria sobre a tua vida, falsa bem sei, 
mas em circunstncias especiais e com intenes generosas. Enquanto isso, 
tens estado aqui a proferir, com a tua voz calma e o teu ar inocente, 
ideias que incendiariam o mundo, se algum lhes desse ouvidos. Dizer uma 
pequena mentira para atenuar uma falta, no me parece to censurvel como 
incendiar cidades, provocar e semear a morte entre os homens.
- Nada te parecer to censurvel enquanto no perguntares qual a 
verdadeira causa dos incndios das cidades, das mortes e das guerras. 
Descobrirs ento que a causa remota de todas as hecatombes foi uma 
pequena mentira, apresentada com um fim generoso. Se todos pensassem como 
eu, dizes tu! No defendo nenhuma ideia especial seno a de que devemos 
ser to sinceros quanto possvel. Certamente que no estamos sozinhos no 
mundo,
e a primeira condio para viver bem com os outros, penso,  sermos 
inteiramente verdadeiros com eles. Como pode alguma vez chamar-se 
generosa a qualquer ideia que pertena a uma
mentira? Eu reparo no que aconteceu s pessoas, dizes tu. Bem, e agora 
que lhes vai acontecer? Desde que voltei, noto como as
maneiras correctas dos nossos antepassados, os modos educados que os 
homens sensatos aprovaram como forma de respeitar a
felicidade dos outros, servem presentemente para encobrir as maiores 
torpezas. Crita veio aqui assim que cheguei. Nada mais amvel do que 
desejar ver uma amiga de infncia, h muito ausente. Podia traz-la c 
outra ideia justa, seno a generosidade de ver a amiga? Retribui a visita 
e sei agora o que ela vale, por dentro e por fora. Contou-me todos os 
disparates que tentaste pr a circular com a grande esperana, sempre, de 
que no correspondessem  verdade. Calculou sempre o pior. Enquanto se 
apressava tanto para c vir, no pensava seno nas novidades frescas que 
poderia encontrar, nos pormenores da minha experincia mais ntima para 
discutir com as vizinhas com maior conhecimento de causa sobre a minha 
ignomnia. E, depois, pobre mulher que nunca
teve aventuras, ficou absolutamente desapontada. No soube

46
JOHN ERSKINE
novidades e verificou como em relao  verdade das coisas eu sou 
profundamente honesta.
- Me, como  possvel uma coisas destas?!
- Agora no quero discutir o caso - disse Helena. - E depois, estou 
cansada de servir de tema da conversa, sobretudo quando  de ti que quero 
falar. Porm, no te quero deixar sem te dizer isto, que  para teu 
governo: De todos quantos foram a Tria por minha causa, fui eu a nica 
que voltou com a noo de honestidade intacta. Por pouco que esta 
conversa te abra os olhos, observa as pessoas  tua volta, observa-te a 
ti prpria, e vers onde quero chegar. Dispomos do direito de orientar as 
nossas vidas e tu tens mesmo o direito de casar com Orestes (se bem que 
eu mantenha a secreta esperana de que no o fars). Lembra-te, porm, de 
que esse direito de escolha implica um dever: o de sofrer as 
consequencias. Se tivesse vivido junto de ti para te educar 
convenientemente no precisaria agora de te dizer que, para pessoas 
inteligentes, o momento do arrependimento entra em considerao antes de 
qualquer outro. Procede o melhor que puderes. Mas, se te enganares, no 
escondas, sente a alegria em sofrer a dor do teu engano.  isto a 
moralidade.  isto a honestidade, e parece-me que no vejo muita pela 
ruas da nossa cidade.
-  justo lembrar-te - disse Hermione -, que Crita se mostrou muito 
minha amiga durante a tua ausncia. Admirar-se-ia, com certeza, se 
soubesse o que pensas a seu respeito.
- j o sabe e ficou realmente admirada por lho ter dito - continuou 
Helena. - Considero-a uma mulher perigosa. Fixa bem as minhas palavras: 
ainda a veremos causadora de muito mal. Que tipo de rapaz  o filho dela?
- Damastor? Bastante bom. No iguala a me em firmeza de princpios, mas 
 inofensivo. Alis, Crita domina-o completamente.
- Que queres tu dizer com esse inofensivo?
- Hum? Nada; que se porta bem.  comedido, silencioso, talvez um pouco 
criana para a idade.
 o tipo de rapaz de quem tu deves gostar..
O qu, Damastor?! - exclamou Hermone. A me diz que ele sente um grande 
entusiasmo por ti. Por mim? Pois, olhe, mal o conheo. Vi-o apenas 
algumas vezes em casa da sua me. Nunca me revelou grandes sinais de
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
,47
entusiasmo, felizmente! Sempre o considerei como uma simples criana.
- Ento ele no te tem visitado ultimamente?
- Nunca. Quem te disse isso?
- Crita. Garantiu-me que o seu filho lho tinha dito. Calculei 
imediatamente que era mentira. Trata-se de uma famlia respeitvel, bem 
acima da mediania na mentira, pelo menos. Podias ter encontrado um 
partido pior.

SEGUNDA PARTE
A NOVA GERAO

- Menelau - disse Helena -, podes dar-me duas palavras?
- Agora no posso. O que pretendes?
- Queria que falssemos de Hermone.
- Porqu? O que lhe aconteceu?
- No lhe aconteceu mal nenhum. Quero apenas que pensemos no seu futuro. 
Nunca prestmos ateno ao assunto'      mas tu deves sentir, como eu, a 
obrigao de planear a felicidade futura da nossa filha.
- Temos tempo. Esta manh tenho muito que fazer. Alm disso, o assunto 
no me parece de grande importncia. Hermone no  infeliz. - Para mim  
muito importante, Menelau. Hermone pode no ser infeliz; espero que o 
no seja nunca. Mas a verdade  que a menosprezmos bastante. Agora que 
nos reunimos todos em casa de novo, devemos estudar e preparar tudo 
quanto lhe possa aumentar a felicidade, at se fazer uma senhora. No 
vejo que possas adiar to sagrado dever.
- Ora, sim senhor, gosto disso! As coisas que tu dizes, Helena. Se 
Hermone foi menosprezada, gostava que me dissesses quem
O fez. Quem te ouvisse falar pensaria que sou eu quem tem a culpa.
- Ambos a deixmos, embora por diferentes razes - interveio Helena. -
Aceito a censura, se quiseres, mas agora que voltmos  tempo de 
repararmos o mal. Presumo que os teus desejos sejam

52
JOHN ERSKINE
os mesmos e, neste caso, no pode haver nada mais importante para fazer 
esta manh. Todavia, se andas to absorvido pelas tuas ocupaes, peo-te 
que marques umdia e uma hora para conversarmos. A verdade, porm,  que 
no andas preocupado com coisa nenhuma, Menelau. Quando entrei estavas 
ali de p a olhar distraidamente l para fora. ~ J devias saber que um 
homem, mesmo de p, a olhar distraidamente l para fora, pode estar 
profundamente ocupado. Mas tu no me compreendes, Helena.  escusado 
insistir. Se eu no pensasse muitas vezes, e profundamente, onde andariam 
j estas terras... Mesmo assim, a situao no  de todo desafogada. 
Parece-me que a melhor maneira de pensar no futuro da minha filha  
restabelecer a prosperidade dos meus domnios.
- Tu diriges maravilhosamente o governo e a administrao do reino, 
Menelau. Ningum, nesse aspecto, te aprecia mais do que eu.  por isso 
que quero ouvir a tua sensata opinio. Precisamos do teu conselho antes 
que ela se entregue excessivamente...
- Se entregue a qu?
- Bom... para comear, a escolher um marido.
- Ah! Orestes?
- Por exemplo. Ela imagina que est apaixonada pelo pobre rapaz.
- ptimo! - exclamou Menelau. - Ento est tudo resolvido. Querias mais 
alguma coisa?
- Espera, que ainda no acabmos o assunto de Orestes -
volveu Helena. - No dou nada pela paixo de Hermone. Duvido que saiba o 
que  o amor. Resolveu casar com ele e nada mais.
- Posso dizer ptimo de novo, se me ds licena, e se continuas a querer 
o meu conselho, nada impede o casamento. Parece-me que todos concordamos 
com isso j h muito tempo.
- Pois, exactamente,  a que est o mal. Aprendemos muito desde ento. 
Para que me serviria ento a experincia? Orestes no  marido para a 
minha filha. _ Falas da tua filha, mas eu tambm gosto de ser includo, 
pelo menos enquanto me pedes conselhos. Veio perfeitamente onde queres 
chegar, Helena. Resolveste sozinha qualquer coisa e agora pretendes dar-
me a novidade docemente. j me pediram muitos conselhos desses. Ouve, e 
de uma vez por todas, Orestes agrada-me como genro, se a nossa filha o 
quiser. Alm disso, nunca
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
53
me constou que tivesse rivais e, finalmente, como podes ter uma opinio, 
se no vemos o nosso sobrinho h tanto tempo? No o
reconheceramos se o encontrssemos. Hermone est mais habilitada do que 
ns para ter uma opinio. Segundo me disseram,
foram atrados um para o outro pelo interesse com que ambos pensavam nos 
pais ausentes. O que diz ela de Orestes?
- Que o ama. Nada mais categrico. Ora, se  certo que no conheo 
Orestes pessoalmente, a verdade  que conheo a me, tu conheces o pai, e 
o filho no pode deixar de sair a um ou a outro.
- Realmente, nunca gostei muito da tua irm, mas julgava-te mais 
benevolente na apreciao de Agammnon; concordavas frequentemente com as 
suas opinies, pelo menos tomavas sempre o seu partido contra mim; e ele 
sempre foi muito corts para contigo. Um dos teus admiradores, alis. 
Mas, seja como for, no me parece justo que culpes Orestes do que pensas 
sobre o meu
irmo e sobre Cliteninestra. _ O sangue o dir. Sempre me pareceu que 
estava ali o ponto fraco da famlia.
- Clitemnestra, fraca? - admirou-se Menelau. - Conheces bem a tua irm. 
H muito tempo disse eu a Agammnon que dava prova de grande coragem por 
casar com ela. Vais ver como me d razo, se conseguir acabar com aquelas 
fogueiras de sacrifcios e
voltar  realidade. Na noite em que nos separmos disse-lhe que no devia 
andar com muita vontade de tornar a ver a mulher. Mas, com certeza, 
esqueceu-se da observao!
- O que queres dizer com toda essa conversa?
- Bem vs... No queria ser eu a dizer-te... Enfim, ela  tua irm- A 
tens uma das coisas em que eu estava a pensar h pouco, quando entraste. 
Eteoneu garantiu-me que Clitemnestra acabou tudo com Agammnon. Vive 
abertamente com Egisto e tenciona discutir o assunto com o meu irmo 
quando ele voltar. Vai haver grande questo, certamente. De quem eu tenho 
pena  de Egisto, coitado, qualquer que seja o final de tudo isto. Se 
soubesse onde Agammnon se encontra neste momento, eu... Quando entraste 
pensava, justamente, na melhor forma de o auxiliar, sem ser preciso andar 
ridiculamente a vigiar a porta de Cliteninestra.
- A minha irm nunca soube tratar um marido - disse Helena. - Embora no 
me importe de todo com Agammnon, sempre

5,4
JOHN ERSKINE
simpatizei com ele. Qualquer homem merece, da parte da sua mulher, que, 
pelo menos, tenha em ateno as aparncias. Se a situao for 
insustentvel, deve abandon-lo. Porm, no vejo como a conduta de 
Clitemnestra sirva de argumento para casar a nossa filha com o filho 
dela.
- De modo algum - disse Menelau. - No  um argumento contra nem a favor. 
No condenes Orestes antes de o conhecer. Porque no o chamamos a nossa 
casa para, em conversa, o observarmos? Ou podemos esperar que ele 
aparea. Eteoneu garante que no tarda a.
- Como  que ele sabe?
- Ele no tem a certeza, entendes. Calcula. Diz que Orestes vem de visita 
regularmente e, portanto, deve estar a aparecer.
- Ento Eteoneu encobriu esta tramia nas minhas costas?
- No te precipites. Se o ouvisses, depressa concluirias que gosta menos 
de Orestes do que tu. Discutiram ambos, trataram-se mal, segundo conta o 
prprio Eteoneu, e suponho que no me contou nem metade. De uma maneira 
geral, neste caso,  da tua opinio.
- Ento  natural que expusesse algumas razes fortes para detestar 
Orestes. Que disse ele?
- J que assim o desejas, a tens. Eteoneu nunca me compreendeu. Ia jurar 
que o rapaz  parecido com Cliternnestra. Os filhos geralmente saem  me 
e as filhas ao pai.
- Que disparate! Como podes tu julgar as crianas to superficialmente? 
Para mais, uma opinio dessas obrigava-os a repartir e a pagar as faltas 
dos pais e isso no  justo. Geralmente, os filhos conduzem-se com muito 
mais prudncia do que os pais.
- No julgues isso grande virtude da parte deles. O facto deve atribuir-
se  sua menor experincia e  educao imprpria que recebem.
- L ests tu - exclamou Menelau. - A est novamente o ataque de 
loucura. Como queres tu que as pessoas sensatas acreditem que uma conduta 
prudente  fruto de m educao?
- Eles no precisam da prudncia to novos - disse Helena.
-  mau sinal. E o comeo de um fim aborrecido. A juventude deve comear 
por amar a vida. A prudncia, bem como a cautela,  um domador de 
impulsos. Mas  preciso ter impulsos antes de os poder domar. Ou, ento, 
 uma espcie de previso. Porm,
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
55
como podemos ns prever antes de juntar algum conhecimento do mundo? E 
como acumularemos algum conhecimento do mundo se fugimos dele? Enquanto 
so novos, nada pode ser melhor para eles do que o amor pela vida, 
exactamente aquilo no tm. A prudncia de que falas , segundo me 
parece, coisa vazia de sentido.
- Pelo que conheo dos pequenos, eles tm todo o amor pela vida que 
podemos consentir-lhes. Eteoneu pensa assim de Hermone e de Orestes, e 
parece-me que pensa razoavelmente.
- Desde quando procuras o teu guardio para apreenderes a tua filosofia, 
Menelau? Sempre considerei Eteoneu um servo fiel, mas de grande 
ignorncia. Sabe da vida tanto quanto se pode ver dela a contemplar o 
capacho da entrada. Motejas, certamente. No querers falar a srio?
- Falo muito a srio. Se queres que seja mais srio, no posso. Antes de 
continuarmos, porm, quero dizer-te que no procurei Eteoneu para coisa 
nenhuma; foi ele que veio ter comigo. Por vezes abandona a contemplao 
do capacho da entrada para vir ter comigo. E se no , evidentemente, o 
meu companheiro das grandes horas, fica sabendo que est muito longe de 
ser tolo. Todavia, prosseguindo seriamente, como desejas, e j que no me 
deixas em paz, o que pretendes tu dizer com aquilo a que chamas a m 
educao de Hermone, do amor pela vida que no tem, e do marido que 
devia ter? Esta manh, as notcias de Agammnon absorveram-me 
completamente e talvez d a outros assuntos menor importncia do que eles 
merecem. O que pretendes tu?
- S um pouco de ateno - disse Helena -, e, se no puder ser agora, 
esperarei. Contudo, Hermone corre um perigo de que a poderemos salvar se 
actuarmos rapidamente. Diz-me a conscincia que sou a culpada de tudo, 
por t-la abandonado, e no quero perder a oportunidade de agora a 
salvar. Hermone casar com Orestes, se no nos intrometermos, e esse 
casamento s lhe poder trazer dissabores. Rapazes da idade dela s 
conhece Orestes e Damastor (sabes, o filho de Crita), que nada tem de 
extraordinrio. Ao p dele Orestes parece mesmo um deus. Mas s quando 
comparado com ele, claro. Um dia Hermone encontra um homem a valer e 
arrepende-se de ter casado to cedo.
- Ora essa... Palavra de honra... Com franqueza  gaguejou Menelau -, 
palavra de honra...  forte.

s
JOHN ERSKINE
- Do que ela precisa  de experincia, experincia - continuou Helena -, 
e o mais depressa possvel.
- Ah, disso  que ela precisa? Bem, talvez eu arranje algum para a 
raptar para a pequena perceber num instante qual o gnero de marido de 
que lhe no apetecer fugir. Combinado! Sugeres algum para a fuga de 
experincia?
- Motejas, sem dvida - disse Helena, calmamente. - Mas sabes bem que no 
seria m ideia, caso se pudesse realizar. Julgo que no  fcil e tu 
adiantaste mais do que eu pretendia. Alm disso, o ensaio no serviria de 
nada a no ser que existisse algum com quem ela quisesse fugir, e 
parece-me que no h.
- E, afinal, essa verificao no te tira um peso de cima? Pelo modo como 
falavas, parecias insinuar que Hermone fugiria esta tarde. Quanto a mim, 
considero Hermone uma rapariga equilibrada, sensata e digna de 
confiana. Representa um grande conforto na minha vida, Porque no deixar 
que viva a sua vida, como tens vivido a tua?
- Menelau, no entendes que  justamente isso que eu quero para ela e que 
ela nunca far? Se tivesse o meu temperamento, j no me preocupava com 
ela: fatalmente viveria a sua vida'        inevitavelmente, e sem perder 
nada com os erros cometidos. O pior  estar cheia de convices e 
preconceitos. Fala do que o mundo espera de si, como se o mundo se 
importasse; do que deve a si prpria, como se a vida cobrasse contas; e 
onde est, o que sabe do mundo, da vida ou de si prpria? Todas as suas 
ideias so tolas e sentimentais, puros formalismos. Adoptou um esquema de 
ideias acanhadas e julga-se senhora da explicao do universo. Pobre 
criana! Quando acordar um dia pode ser terrvel. Em criana, 
Cliternnestra portava-se da mesma forma: positiva, tola e sentimental. 
Casou com Agammnon, em grande parte como tu casaste comigo. A troca das 
alianas parecia-lhe romntica. Quase jurava que ela acha enternecedor 
casar com o primo, para estreitar mais os laos da famlia. No a 
denomino prudente, mas cega, No me importava, se no a achasse to 
parecida com a tia. Qualquer rapariguinha, sem verdadeira fora de 
carcter, tambm pode casar agora, como deseja Hermone, e refugiar-se 
numa vida confortvel, de auto-sufocao, como Crita, por exemplo. O 
mundo est cheio disso. Pelo menos evita complicaes. Porm, se, como 
julgo, conheo a minha filha, ela descobrir o erro quando encontrar
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
57
uma paixo e, ento, no querer saber de coisa nenhuma: ser 
simplesmente violenta com toda a brutalidade da violncia. E mal vai o 
mundo quando o amor pela vida se fixa a este gnero de mulheres, quando 
elas pensam que j  muito tarde.
- No sei bem a que chamas amor pela vida.  uma expresso que empregas 
vezes sem fim e que, como outras, revestes de um significado crtico que 
parece ser uma piada  minha maneira de ser. Calculo que te refiras a 
alguma coisa que me falta, mas creio que amo a vida como devo. Nunca quis 
morrer. Amo o meu povo e a minha terra. Amei-te a ti, Helena,  minha 
humilde maneira, durante algum tempo. Tenho grande afeio por Hermone. 
Falta alguma coisa?
- Julgo que realmente me amaste a teu modo - disse Helena. - Concordo que 
no mereci tanto. Mas no te agradeo, Menelau. O amor  qualquer coisa 
que acontece e nos desarma completamente. Uma verdadeira paixo no  uma 
delicadeza, um presente ou um sinal de generosidade de quem ama. A tua 
bondade e pacincia quando no me compreendes, isso sim, isso  que posso 
agradecer-te. No somos muito diferentes da maior parte dos casais, e 
suponho que quando chegarmos ao fim dos nossos dias recordaremos 
principalmente os momentos em que nos compreendemos. Mas, oh, Menelau, eu 
queria erguer a realidade diante de Hermone! Queria que a paixo a 
dominasse, enquanto  jovem, enquanto corpo e alma tm vivacidade, 
enquanto o xtase est nos sentidos e, segundo parece, na alma, para, 
quando o corpo murchar ou envelhecer, encontrar refgio num xtase, 
realmente do esprito, nas recordaes de duas almas misturadas com fogo. 
Ou, se ela perdesse tamanha alegria, ao menos que andasse to perto que 
soubesse da sua existncia, e sempre a relembrasse com saudades. Que 
medisse a vida por ela. Isto deve acontecer a algumas pessoas, Menelau, e 
eu queria a nossa filha entre as eleitas. Os que gozam de to generoso 
privilgio nunca envelhecem, julgo, nunca perdem o interesse; podem 
sofrer, mas o seu mundo permanece belo. No podem deixar arrefecer o 
corao, e nem gelo nem sufocao nem maldade entraro nele.
- s sincera - disse Menelau. - Alegra-me que fales assim. Creio que 
estou contente por teres falado. julgo que no falaste da gente nova. 
Bem.  ento a isso que chamas amor pela vida?

58
JOHN ERSKINE
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
59
- No - disse Helena. - Isto  amor.
- Ento, j que discutimos o assunto, gostaria de ouvir o resto. Podes 
dar-me um breve resumo do que,         em teu entender, falta aos nossos 
filhos?
- Nada. Eu quis dizer, muito simplesmente, que eles no amam a vida como 
deviam - disse Helena. - A ns ainda nos pareceu natural gozar o mundo  
nossa volta, durante a juventude. Mas eles tomam to natural atitude com 
muita reserva e gravidade. No notas que vem as culpas antes de outra 
coisa e logo criticam com toda a violncia? O amor pela vida no surge 
como o outro amor.  arte que se aprende com a prtica e com o tempo. 
Quando a sabemos bem, geralmente, j deixmos a juventude para trs. 
Estes jovens talvez nem esperem amar a vida da qual sabem to pouco. Tm 
medo dela, medo de no terem sorte, medo de no casar, medo no importa 
de qu. Quando os receios se dissipam, depois de qualquer pequena 
audcia, sentem-se to aliviados que retomam o juizo e no se arriscam de 
novo.  a melhor explicao que encontro para a vida da maior parte das 
pessoas que conheo.
- Mas, porque explicas Hermone dessa maneira? Segundo me parece, amar a 
vida quando chegar a oportunidade. At agora, hs-de concordar, teve 
algumas preocupaes que no apoquentaram as raparigas da sua idade. E 
at na maneira como as encarou, embora no queira ser juiz desses factos, 
penso que se portou muito bem. Se acaso se enganar, Orestes a ensinar, 
pois, segundo dizem,  rapaz empreendedor, de ideias modernas.
- Oh, Menelau! No consegues chegar ao ponto nevrlgico da questo. 
Orestes  incuravelmente srio e perigosamente resoluto, porque no tem 
experincia nem ideia da vida; absolutamente desprovido de sentido de 
humor. Toda a gente o diz, e o facto parece-te informao favorvel, mas 
no . Orestes representa bem o tipo de mocidade que v os defeitos da 
vida antes de ver a vida, daquela mocidade que se considera to 
conscienciosa que  obrigada a castigar imediatamente os erros que algum 
cometer. Cumprir as suas obrigaes por mais que isso custe aos outros. 
Cumprir o que julga ser a vontade dos deuses, nem que seja obrigado a 
matar. Evidentemente cometer o assassnio com os mais elevados 
sentimentos e com muita relutncia. Conheo o gnero. No  homem que 
ensine Hermone, porque ele prprio  incapaz
de ser educvel. No podes imaginar a vida abominvel que vai levar 
Orestes e a mulher com quem casar. Menelau, ajuda-me a salvar Hermone!
- Que pena no encontrarmos nas imediaes ningum que possa servir de 
luminoso exemplo para a sua vida... A no ser que se conseguisse 
convenc-la a seguir a tua brilhante carreira.
- No, no quero que copie a minha vida. Quero que encontre uma bem 
melhor, com mais amor e mais felicidade. Hermone no gosta de mim e eu 
no a censuro. Preferia ver-lhe o terriperamento de Adrasta. A est uma 
rapariga com amor pela vida, a quem tenho educado cuidadosamente. _ Que 
os Deuses a protejam. Na minha opinio,  mais fcil v-la a ela metida 
em sarilhos do que Hermone.
- Eu diria que o perigo  o mesmo, embora por motivos dferentes. O tolo 
do filho de Crita anda atrs dela e de uma forma indecentemente 
dissimulada. Diz a me que est apaixonado por Hermone. Parece-me que 
Adrasta o imagina melhor do que realmente .
- O fio dos teus pensamentos escapa-me tantas vezes por completo... No 
queres que Hermone se apaixone porque no tem amor pela vida. Adrasta 
no deve apaixonar-se... porque tem amor pela vida. Ningum se pode 
apaixonar?
- Para uma mulher apaixonar-se significa apaixonar-se por um homem. Como 
sempre, passas pelo ponto mais importante da questo sem te aperceberes. 
Sem dvida que no quero estas duas raparigas apaixonadas por homens de 
quem nada h a esperar. Orestes e Damastor no so muito parecidos. Mas 
quanto a serem dois amantes impossveis so absolutamente iguais. Orestes 
desconhece inteiramente o que  o amor pela vida. Adrasta reconhec-lo-ia 
num minuto. Damastor presume ter amor pela vida, irias, no fundo,  o 
cobarde que a me educou. Espero que Adrasta o descubra a tempo. Ah, 
tanto que eu gostava que Pirro estivesse aqui!
- Pirro, filho de Aqufles7
- Sim.
- Que pretendias tu de Pirro?
- Gostava que fosse ele o meu genro - disse Helena.
- Ora at que enfim que dizes onde querias chegar. Mas Hermione gostaria 
dele? Suponho que no queres retirar-lhe tam-


60
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
JOHN ERSKINE
bm o direito de escolher? Hermone  uma mulher e nunca viu Pirro na sua 
vida.
- No. Mas h sempre o perigo de o ver um dia.  melhor v-lo j, antes 
que seja tarde. Ele tem... enfim, tem tudo de que falei e, quando 
Hermone o vir, reconhecer isso sem que lho digam. A no ser que esteja 
j incurvel, a partir desse momento perder o corao por ele. ~ Vi-o 
muitas vezes e no perdi o corao. Pirro no faz milagres.
- Ah, no? Realmente pensei que sim. Pensei que tu e Agammnon tinham 
sido obrigados a pedir-lhe auxlio, depois da morte do pai. Talvez 
Aquiles tambm no fizesse milagres. Mas no precisamos de falar em 
pessoas ideais. Pirro pode fazer o tipo de milagre que quero para 
Hermone. Quando penso na excelncia apaixonante de que pode revestir-se 
uma alma humana, penso nesse rapaz. Alis, no faltam boas razes para 
isso; era filho de um grande amor.
- Um filho do pecado, queres tu dizer - afirmou Menelau. -
De Aquiles tambm no se esperava seno coisas obscuras e misteriosas. O 
nascimento do rapaz foi um escndalo.
- No foi!
- Foi, sim senhora!
- No foi, no senhor!
- Ah, pois claro que no. Consideras a cena muito edificante. Aquiles, 
disfarado de rapariga, metido em casa de Licomedes para andar juntamente 
com as filhas do velho, uma das quais veio a ser me de Pirro. Peo-te 
por tudo que vamos j  sua procura para o apresentarmos a Hermone, to 
depressa quanto possvel.
- Ests a faltar  verdade, Menelau. A prpria me de Aquiles tentou 
educ-lo como uma rapariga, por saber que o filho morreria em combate 
procurando assim, desesperadamente, fugir ao destino. No admiro a sua 
atitude, mas ningum pode discuti-la. Aquiles no se disfarou apenas 
quando chegou  idade de poder pregar uma partida. Nunca fez nada s 
escondidas. Deidamia no foi seduzida nem atraioada.
- Ela no, com certeza. Mas foram-no os pais. Os dois jovens famosos 
portaram-se com bastante indecncia.
- S um corao -il diz coisas dessas - exclamou Helena. -
Queres ouvir mais? Eles cresceram juntos, rapaz e rapariga mais
61
chegados na infncia do que irmo e irm; quando alcanaram a idade de 
amar e o mistrio os envolveu, lanaram-se nos braos uni do outro de 
forma to bela como os seus sonhos e coraes tinham sido lanados 
juntos. Aquiles amou-a at  morte. Deixou-a apenas porque tu lhe pediste 
que combatesse por ti e por Agammnon. Deixou-a junto do pai Licomedes, 
que a acarinhou sempre, honradamente. Ela ensinou ao rapaz que amasse 
sempre o pai ausente como a um deus. Aquiles animava-se na luta com as 
notcias do filho. Mas no vejo que isso merea censura. Vejo antes um 
jovem heri que prefere viver pouco, mas gloriosamente do que morrer ao 
fim dos anos habituais, gastos em prudncia, sem glria e sem 
significado. Vejo o amante que, ao reconhecer a sua companheira, a quis 
com verdade, e, extremamente feliz, tentou faz-la partilhar dessa 
felicidade. Se o filho que ambos geraram no for um milagre, s-lo- 
quase, porque o amor deles foi milagrosamente perfeito.
-  agora a minha vez de tambm dizer alguma coisa. Podes afirmar o que 
quiseres sobre o amor pela vida, e defini-lo de maneira a provar que 
ignoro de todo o que quer que seja. Porm, no que diz respeito a Aquiles, 
fica sabendo que o conheo muito melhor do que tu. Pelo menos, tenho uma 
convico. Nunca acreditei nessa histria espalhada entre a soldadesca de 
que tu e ele se encontraram secretamente durante o cerco.
- Nunca o encontrei na minha vida.
- Tenho a certeza disso.
- Mas ter-me-ia encontrado com ele se tivesse sido possvel.
- Tambm tenho a certeza disso. E se o conhecesses no o elogiarias de 
forma to estranha. Aquiles no passou de uma lenda. Auxiliou o exrcito 
e, a, prestou bons servios, mas s por uma questo psicolgica. O 
Aquiles que pensas conhecer foi um mito. Amou Deidamia toda a vida, dizes 
tu? Ora, toda a questo que houve em Tria foi por causa de Brisis, uma 
mulher que lhe pertencia.
- Com toda a certeza? Ou poderias antes dizer que foi por causa de 
Crisis, prisioneira de Agammnon? O que provocou a questo foram os 
despojos, nos quais figuravam as mulheres. Mas nenhum se apaixonara pelas 
prisioneiras. Sabes bem que Aquiles, pelo menos, nada teve com Brisis. 
Foi a honra que ele considerou ofendida e nunca o corao, quando 
Agammnon levou a rapariga. Esta, sim, amava Aquiles, claro, mas isso era 
inevitvel.

62
JOHN ERSKINE
- Ainda no estamos de acordo, mas agora no falemos de histria antiga. 
De qualquer modo, mesmo admitindo todas as virtudes de Aquiles, no 
compreendo tanto entusiasmo por Pirro. No podes casar Hermone com 
Aquiles, e  muito provvel que Pirro resista s tuas boas intenes de 
futura sogra. Ele pode no gostar de ns, tal como eu no gosto da sua 
famlia. Em vez de te agarrares a tantas esperanas, devias pensar que 
Pirro no  o
seu pai.
- Considero-o o melhor sucessor do pai, talvez mesmo mais notvel, quando 
tiver alguma experincia. Mostrou o mesmo espirito elevado quando Ulisses 
veio para o levar para Tria, e a me no o queria deixar partir com medo 
que morresse como o pai. Lembras-te de como o rapaz insistiu no direito 
de viver o destino, considerando que estar em segurana quando os teus 
exrcitos pediam ajuda era viver indignamente. O av orgulhou-se bastante 
do neto e mandou-o embora com as suas melhores bnos. No negas que foi 
ele que acabou a guerra e que voltou  ptria com to boa reputao. Se 
no o merecesse, como a conseguiria? Se tu e Agammnon no admirassem as 
suas faanhas, no lhe teriam dado, entre outros prmios, a prisioneira 
Andrmaca, mulher de Heitor. Sim, quero que Hermone conhea Pirro. Pelo 
menos que converse familiarmente com ele, num encontro domstico, para 
bem -vontade o poder apreciar. Depois disso, ela escolher. Tens razo 
quando dizes que ele pode no lhe dar qualquer importncia. Mas, depois 
de um encontro assim, a rapariga no continuar to ignorante como at 
a. Convida Pirro para nos visitar, Menelau, peo-te que venha o mais 
cedo possvel.
- Seria bonito! Eu a dormir com esse tipo debaixo do mesmo tecto. No o 
quero c em casa, pronto! Admiro-me como me reconciliei contigo... 
contigo... No perdoo a mim mesmo ouvir o teu descaramento ao falares 
dessas peregrinas ideias sobre o amor necessrio e a felicidade do lar. 
At a tua beleza te salvou sem o mereceres, que os deuses se perdoem a si 
mesmos por isso, mas no  por pouca diligncia tua que no fazes mais 
disparates. Ignoras os mais rudimentares instintos de uma mulher honesta. 
Enganaste-me no incio..., quero dizer, enganaste-me no incio da 
conversa, esta manh, com a solicitude pelo futuro da nossa filha. Bem se 
v que queres saber do futuro da nossa filha! Mais tarde ou mais cedo, 
descais-te sempre; planeamos os teus negcios de
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
63
amor e no o futuro de Hermone. Enlouqueces qualquer homem, quer seja 
velho ou novo, nobre ou plebeu, desde que te decidas a
faz-lo. Amaste Aquiles, e ainda o amas apesar de morto, de forma que 
convido c para casa o filho, seu melhor sucessor. E tudo para Hermone o 
ver, claro. Grandes oportunidades encontraria ela para o ver, no h 
dvida! Pris, Heitor, Aquiles... No quero falar de idades, mas ainda 
no achas que j passou o teu dia? E um dia em cheio? Tudo deve ser 
moderado, Helena; ao menos que apenas uma gerao seja maculada pela tua 
desonra.
- Menelau - volveu Helena -, as tuas maneiras incorrectas, quando perdes 
a cabea, j no so novidade para mim, mas nunca
te imaginei to ciumento. O cime  a nica forma de falta de juzo 
desonesta. Comea por uma perverso voluntria dos factos. Se eu j te 
tivesse dado motivos para teres cime, enquanto pensavas bem de mim, 
lamentarias o teu erro, generoso mas incompreensvel; no me 
amaldioarias por ser eu mesma j suficientemente amaldioada. Se me 
supusesses apaixonada por Pirro, no quererias viver comigo, no andarias 
em paz, mesmo com Pirro fora do meu alcance; no suportarias viver a meu 
lado, se fosse como disseste h pouco. Recordaste-me os nossos anos 
passados. Acho que  tarde para modificarmos as nossas maneiras de ser. 
Detesto a mentira em qualquer idade. Experimenta ser honesto contigo 
mesmo, Menelau, experimenta usar em relao a mim a mesma franqueza que 
uso em relao a ti. j no me insultars, e deves saber que, com a minha 
maneira de ver, no considero a verdade como um insulto. Os pormenores da 
minha vida so bem conhecidos... em grande parte graas aos meus esforos 
para esclarecer tudo. Sinto diz-lo, mas mais obscura  a tua existncia. 
Desta vez, porm, vamos compreender-nos completa e equitativamente. 
Desejas que fique, como tua mulher, honrada e respeitada? No h neste 
momento que falar de outros homens. Isso fica entre ns os dois. Queres-
me? Ou desejas matar-me? Se realmente no me queres ter a teu lado, no 
ficarei aqui nem mais um dia. Se achas melhor matar-me, irei de bom grado 
buscar a tua herica espada. Deixaste-a na casa de jantar, parece-me. Uma 
coisa ou
outra, qual preferes?
- Eu s disse que no queria Pirro c em casa...
- Qual queres?
- Qual quero o qu?

64
JOHN ERSKINE
- No disfarces, Menelau, tens de me responder. Deixei esta casa uma vez 
e posso deix-la de novo. Se o fizer por tua ordem no posso voltar. E s 
fico numa condio, no mais me insultars. Desejas que fique?
- O problema  bastante complicado. Ds-me tempo para pensar?
- O problema  complicado, mas ainda se complicar mais se pensares nele. 
O mais fcil  decidir, simplesmente, e acabar com isto.
Se tu te vais embora... - ruminou Menelau. ... Ou se me matares - 
concluiu Helena. Isso seria muito difcil de explicar s outras pessoas e 
denunciaria uma certa indeciso.
- Ora, poderias explicar tudo muito facilmente. Contavas a
verdade. A verdade conquista tudo, tal como o amor. Mas deve ser 
igualmente impressionante. Conta-lhes que eu amava Pris e que fugi com 
ele... que te abandonei... que passei anos nos braos dele... e que me 
perdoaste e me trouxeste para casa. Em seguida diz~lhes que, depois 
disto, soubeste que eu gostava de Aquiles, que ja morreu e a quem eu 
nunca vi, e que, por consequncia, foras obrigado a expulsar-me ou a 
matar-me para lavares as mculas da tua honra. Certamente toda a gente te 
compreender.
- Duvido - disse Menelau. - Pris ou qualquer dos outros que 
experimentaram pessoalmente o teu talento para pr um homem fora de si 
compreenderiam, mas a maior parte das pessoas julgar sempre que  to 
fcil viver contigo quanto parece. Preferia que resolvesses tu a questo. 
Fica ou parte, como quiseres. Se ficares e
no me irritares muito, tentarei no dizer o que penso.
- Isso no me serve, no suponhas.
- Tentarei. No posso fazer mais nada.
- Bom, no quererei mais nada. Aprendi a ser razovel. Agora deixa-me ser 
clara sobre os outros homens. Amei Pris, estamos entendidos. Respeitei 
Heitor, venerei-o mesmo, mas no o pude amar. Encarnava o melhor exemplo 
que encontrei de um temperamento de que no gosto. No era uma pessoa 
alegre, nem mesmo antes da guerra. No tinha nem um pouco desse amor pela 
vida de que falmos h pouco. Tudo o que se apresentava sombrio lhe 
parecia um dever. Afligia-se mesmo com os perigos a que tinha escapado. 
Claro que se deleitou mais do que nos confessou. -A VIDA PRIVADA DE 
HELENA DE TRIA
65
Considerava a guerra uma tragdia da qual nenhum bem resultaria e, sem 
mesmo respirar, era capaz de pedir aos deuses para que o filho se 
tornasse um guerreiro mais ilustre do que ele prprio. Quanto a Aquiles, 
vamos, no te entusiasmes, se o conhecesse, com certeza que o amava, 
apenas a ele, eternamente. Devemos amar o
melhor, Se h pecado no amor,  deixar passar o mais digno sem o amar, e 
no h dvida que Aquiles era o mais digno de todos vocs. Se tivesse 
sido um dos meus pretendentes e eu conhecesse a vida suficientemente, no 
deixaria de o escolher. Tu no tens culpa e eu tambm no. s bastante 
justo para concordares que penso dele o que toda a gente pensa. Espero 
que me prestes tambm a justia de compreender que no  para mim, mas 
para Hermone, que desejo o seu filho.
- Queres tambm prestar-me a justia de te lembrares que posso igualmente 
ter ideias sobre a vida e sobre o amor? Que eu, embora menos notvel do 
que tu e menos digno do que Aquiles, desempenho um papel no mundo, e 
importante, pelo menos para mim? Quando nos casamos com uma mulher 
excepcionalmente brilhante, o que se pede ao marido obscuro  que se 
orgulhe da sua mulher, que a ajude pela vida fora, e que saiba conservar-
se lealmente em segundo plano. Um marido assim merece alguma recompensa, 
no  verdade? - Merece, sem dvida.  mesmo garantido que consegue a
recompensa que merece: perder a mulher. Pobrezinha dela, que pensava 
casar com um homem, algum que fosse companheiro e
nunca escravo. Ela provavelmente exagerou os mritos dele, como ele os 
dela. Porm, a mulher tudo far para acreditar nos mritos do marido, 
pelo menos enquanto puder. Mas quando o homem comea a insistir que no 
se compara com ela, ento est tudo acabado.
- Tudo o qu?
- A sua vida em comum - disse Helena.
- Mas admitamos, falando em abstracto, que o marido abandonado vai buscar 
a mulher fugitiva e a traz para casa, isso melhoraria a situao, no  
assim? A mulher comearia a apreciar mais o.
marido, no  verdade?
- Falando em abstracto, sou da tua opinio, especialmente se ele tratasse 
de tudo sem recorrer a mais ningum.
- Olha que tu, com franqueza...

66
JOHN ERSKINE
- E agora vais pedir a Pirro que venha imediatamente?
- Nem agora nem nunca! - disse Menelau.
- Mas  agora que precisamos dele - insistiu Helena.
- Nunca colocar os ps em minha casa.
- Isso so pormenores que se pode combinar depois. O importante  
traz~lo aqui depressa.
2O
- Hermone, minha filha - comeou Menelau -, vem c. Quero falar contigo. 
Senta-te. Tens amor pela vida?
- O que  isso? - perguntou Hermone.
- No me faas perguntas difceis. Responde ao que te perguntei - 
insistiu o pai. - Amas a vida?
- Certamente que sim!
- Muito bem! Amas bastante a vida?
- Como hei-de saber? O que entendes por bastante?
- Bom! Apliquemos isto aos factos. Desejas casar com Orestes?
- Desejo sim, senhor.
- A est a resposta. Tu no tens amor pela vida.
- No compreendo onde encontras a prova do que dizes -
disse Hermone.
- Nem eu - continuou Menelau. - Mas encontra-a a tua me, mais entendida 
no assunto do que ns. Espero que procures compreender.
- Pai, desejo que no me aborreas sobre o que eu considero, e o que toda 
a gente deve considerar, um assunto importante.
- A que assunto te referes?
- Ao casamento, claro.
- , na verdade, srio, mas ainda l no chegmos. Procurava apenas saber 
se tens ou no amor pela vida, porque, se assim for, podes casar em 
qualquer altura, mesmo com um homem que no te convenha; e, caso 
contrrio, convm adiar o teu casamento, nem que gostes do noivo 
escolhido.
- Desejava saber a que te referes, concretamente.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
67
- Vamos por partes. Quero primeiro fazer mais uma ou duas perguntas. 
Conheces algum com quem gostasses de fugir?
- Eu no quero fugir! Quero casar com Orestes.
- De novo precipitada. Primeiro, devias fugir.  a opinio da tua me e 
receia que no o faas.
- A minha me quer que eu fuja? Porqu?
- A ideia dela, segundo me parece,  que se foge mais tarde ou mais cedo. 
Tendo tentado fugir mais tarde, a tua me pensa que teria sido melhor se 
tivesse fugido mais cedo. Mas vamos a outro assunto: gostavas de ver 
Pirro por alguns dias?
- Quem  Pirro?
- Conheces... O filho de Aquiles.
- Porque havia eu de o ver por alguns dias?
- Seria bom para ti, para te familiarizares com o mundo em geral. 
Representaria a tua soluo para uma vida sossegada. Se merecesses a 
elevada opinio que fazemos de ti, apaixonar-te-ias por ele.
- j me apaixonei por Orestes, meu pai!
- Ento poderias fugir com Pirro, descobririas o teu erro, e casarias 
depois com Orestes.
- No te acho graa nenhuma. Ofendes-me bastante. Posso retirar-me?
- No, minha filha, no podes. Vem c. Senta-te novamente. Ajuda-me a 
organizar o meu raciocnio. Estive a conversar com a tua me sobre ti e 
Orestes, e estou bastante esgotado. A tua me preocupa-me com receio que 
Orestes no seja pessoa para ti. Suponho que precisamos de estudar o 
assunto novamente.  provvel que a tua me te exponha as suas ideias. Eu 
apenas as esbocei. Por mim, gosto de Orestes. Tu e eu compreendemo-nos 
suficientemente para discutirmos a tua opo sem reservas e sem nos 
exaltarmos, espero bem. Diz-me, que gnero de homem  Orestes, 
actualmente?
- Bastante alto, muito simptico e com uma personalidade cativante. No 
sou parcial. Garanto-te que vais gostar dele.
- Certamente. Mas deixemos os encantos para falarmos das virtudes. Que 
tipo de temperamento tem ele, enfim, que carcter  o seu e tudo o mais?
- Muito circunspecto - disse Hermone -, um pouco grave, na medida em que 
consideras isso um defeito providencial. Muito

68
JOHN ERSKINE
mais introspectivo do que se poderia esperar de um rapaz. Com to 
profundo sentido do dever quelme sinto frvola junto dele. Chega mesmo a 
ser bom demais para mim.
- S no acredito na parte final. Ouve, Hermone, o retrato que acabas de 
traar parece-me muito bem, mas no o deves repetir diante da tua me. 
Quando falares com ela, convinha que descrevesses os seus defeitos. Quais 
so os piores defeitos de Orestes?
- Orestes no tem defeitos... Bom, evidentemente, no h seres humanos 
sem defeitos. Contudo, Orestes  to bom e to respeitador para mim, to 
amigo dos pais, to cuidadoso em con-
servar a minha reputao e a dele, que no vejo onde lhe possa encontrar 
grandes defeitos.
- O que se chama um rapaz s direitas. Mas posso dizer-te desde j que a 
tua me nunca gostar dele. Mais tarde ou mais
cedo, ters de escolher entre um e outro.
- Escolho Orestes, desde j.
- Estarei a teu lado, mas no garanto que a tua me desista da sua ideia. 
Achas que Orestes gosta dos pais?
- Adora o pai.
- E a me?
- J sabes do caso, no j? Andava convencida que o escn-
dalo no se tinha espalhado e preferia no ser a primeira a falar nisso. 
Evidentemente, Orestes lamenta a conduta da me, mas, enfim,  sua me e, 
alm disso, parece que Agammnon nem sempre a tratou muito bem. Orestes 
sente-se terrivelmente infeliz. Aconselho-o constantemente, tanto mais 
que no encontra nin-
gum para desabafar.
- E o que  feito da irm... como se chama ela... Electra, no ?
- Infelizmente Orestes nem se pode encontrar com ela. A rapariga vive 
ameaada numa situao perigosa  espera do regresso do pai para o avisar 
e auxiliar. Afastou Orestes l de casa assim que Egisto se instalou, 
porque, segundo diz, se no for assim, este no o deixar ter idade para 
se vingar. Motivo por que Orestes leva uma vida to preocupada, 
escondido, mas sempre  espera que o pai um dia precise do seu auxilio.
- H quanto tempo dura isto?
- Oh, h vrios anos. Quando Clitemenestra comeou a encontrar-se com 
Egisto, evidentemente, no se sabe. Mas aceita-se o caso consumado desde 
h muito e passaram mais de trs anos,
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
69
com certeza, desde o dia em que Clitemenestra apresentou Egisto como seu 
esposo legtimo. Foi a partir da que ele tomou posse abertamente das 
propriedades de Agammnon e Electra ps Orestes a salvo, obrigando-o a 
fugir. Ele veio perguntar-me o que devia fazer. O nosso velho guardio, 
Eteoneu, nem mesmo o queria deixar entrar.
- Apesar disso, creio que se realizou essa visita e se realizaram, mesmo, 
outras mais. Eteoneu lamenta o incidente. Mas devo informar-te, se  que 
j o no sabes, que Orestes no impressionou bem Eteoneu. O teu primo no 
goza aqui de grande popularidade. Como explicas isto? No queres casar 
com um homem socivel? Quando a tua me o criticava, coloquei-me do lado 
dele, evidentemente; ela nada entende a respeito dos homens. Entretanto 
tinha sempre presentes as opinies de Eteoneu, porque o velhote  muito 
esperto. Creio que me compreendes, Hermone. No sou contra Orestes, mas 
recomendo-te que estudes o caso de todos os ngulos.
- O pior de Eteoneu, meu pai,  a idade. Pensa endireitar o mundo e, 
desde que entrou pelo porto da nossa casa, nunca viu mais nada. Homem de 
ditos e mexericos, j falava de Clitemenestra bem antes de Orestes me 
contar o que se tinha passado.  ele que anda sempre a envenenar os 
criados. Nunca poder compreender os sentimentos da gente nova, das 
pessoas educadas como eu e Orestes temos sido.
- Ora a est. Talvez me pudesses dizer como foste educada para poder 
tranquilizar a tua me.
- Ora, educamo-nos com os nossos prprios recursos, e sabemos portanto 
aquilo com que poderemos contar. Agora j  muito tarde para nos 
conduzirem pela mo. Os nossos pais misturaram tudo. Ns, sim, somos 
verdadeiramente conservadores. Como  que _Eteoneu, com a cabea cheia 
das regras da etiqueta, poderia compreender e aconselhar Orestes?
- H realmente um fundo de verdade nessas palavras. Mas no respondeste 
completamente ao que te perguntei. Mesmo admitindo que Orestes no tem 
culpa alguma do que se passa, e que mostra um esprito decidido, no 
significa que seja realmente um marido que te convenha. No sabemos as 
voltas que as coisas do. Como  que vamos contractar o casamento? Eu no 
quero conhecer esse tal Egisto, nem sequer quero estar na cidade onde se

70
JOHN ERSKINE
encontre Clitemenestra. Precisamos portanto de esperar que volte 
Agarnmnon e que ponha tudo bem claro. Depois se ver como ficamos. 
Entretanto, no conviria adiares os teus projectos em rela-
o ao teu primo? Sim, sim, no me esqueo da tua paixo por ele. Mas no 
precisas de te precipitar. No, no me julgues influenciado pelas 
observaes de Helena. No entanto, quanto mais penso em Orestes mais 
desejava que ele pertencesse a outra famlia. Eu e a tua me queremos 
velar pela tua felicidade tanto quanto pudermos. Por mim, confesso, 
apetece-me reconsiderar tudo muito
bem, antes de me ver envolvido numa nova tragdia domstica.
- Meu pai, desde quando tu e a minha me andam obcecados com a ideia de 
me casarem para se livrarem de mim? Pensei mais em casamento nestes cinco 
dias, depois da vossa chegada, do que durante os ltimos cinco anos que 
estiveram ausentes.
O meu esprito andava apenas preocupado contigo, com a me, com os vossos 
aborrecimentos e com a reputao da famlia; alm disso, estudava os 
problemas de Orestes e os conselhos que lhe devia dar. Acredita que pouco 
me preocupei comigo. Sabia, de uma maneira abstracta, que, mais tarde ou 
mais cedo, casaria com Orestes, quando todas estas coisas se resolvessem 
e, entretanto, via nele o meu melhor amigo e a nica companhia. Creio que 
fomos feitos um para o outro. Quando a me pretendeu saber se
gostava dele, ouviu a seguinte resposta, gosto e casarei com ele.
Envergonhei-me por ser obrigada a responder-lhe to claramente, mas ela 
insistiu tanto... Pressenti que ela no gostaria de Orestes, sabia, por 
outro lado, que Orestes no gosta nada dela. Porm, fui
apanhada desprevenida quando ela me ralhou por no expor de forma mais 
franca os meus projectos. J a ouviste alguma vez dissertar sobre a 
virtude de nos mostrarmos absolutamente sinceros? Pois devo dizer-te, meu 
pai, que neste momento s quase to
difcil de compreender como ela. Perguntas-me, entre outras coisas 
engraadas, se eu tenho amor pela vida e, de repente, assumes um ar muito 
srio, e comeas a aconselhar-me que pense muito bem, e que no me case 
com Orestes, precipitadamente. Porque pensaste que ia casar 
precipitadamente? Para empregar as palavras habituais da minha me: 
dizes-me, com absoluta franqueza, o que pretendes de mim? Desejas que no 
me case? Se me queres junto de ti, pronto, no caso, e Orestes deixa 
durante algum tempo de se preocupar com o casamento. Ou ser que s to 
rigoroso
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
71
com Orestes apenas porque os pais no foram felizes? Se assim , o 
raciocnio no me parece equitativo.
-  verdade,  verdade, no pensara no teu casamento com a
ateno que ele merece, antes de falar com Helena. Calculvamos que, mais 
tarde ou mais cedo, casarias com Orestes. Porm, andava contente por te 
ter aqui. Com a tua presena sinto-me bem em casa. Por outro lado, 
calculo que tenhas idade suficiente para mandares na tua casa e 
governares a tua vida. Eu e a tua me esquecemo-nos com facilidade que j 
no s uma criana. Quero que te cases, evidentemente. Nada tenho contra 
Orestes, absolutamente nada, e com toda a conscincia te digo que no o 
considero responsvel pelo que os pais fizeram. Em todo o caso, 
Clitemenestra  uma sombra negra. Desejava que encontrasses um rapaz cuja 
me no fosse to bonita.
- No insistas, pai. Nunca casarei com Damastor.
- Mas quem te diz que cases com ele?
- A me sugeriu-mo. E pelas tuas palavras parece-me que partilhas as suas 
ideias.
- A tua me quer que te cases com Damastor?
- Depois desta conversa parece-me que sim... Mas mal se referiu a ele 
disse-me que podia escolher pior, apesar de me parecer que no gosta 
dele, pelo seu tom galhofeito. No conheo a minha me suficientemente 
para poder compreender todas as suas intenes.
- Eu tambm no. Mas h uma inteno de que tenho a certeza absoluta; no 
 com Damastor que ela te quer casar.
- Ento?
- Ela to dir  sua maneira. No te esqueas de te mostrar muito 
surpreendida quando tocar no assunto. Para te evitar um grande choque, 
apenas te digo que escolheu Pirro para teu marido.
- Mas eu no conheo esse homem; no o quero. Provavelmente, ele tambm 
no me quer.
-  curioso. As mesmas objeces me ocorreram quando a ouvi falar no 
assunto.
- Ento por que razo ela insiste em projectos to disparatados?
- Sobre os projectos o melhor  perguntares-lhe a ela. O que me
Parece  que a tua me envelhece. Est bem conservada, de acordo, mas vai 
j nos quarenta anos, e tem vivido muito. Toda a sua conversa sobre o 
amor pela vida  um mau sintoma. O mesmo digo

72
JOHN ERSKINE
desta mania casamenteira que a atacou. Pensa que o casamento  uma
aventura demasiado banal para ela e trata de arranjar, de forma superior, 
casamentos aos outros. A est. Quando no podemos representar os papis 
principais, tornamo-nos deuses, tentamos conduzir os novos actores e 
mantemo-nos na obscuridade.  um
gesto de despedida.
- Pirro  simptico? - perguntou Hermone.
- Muito! - respondeu Menelau.
- Eu no garantiria tanto os gestos de despedida. Se acaso a
me gostar dele, com certeza que reencontrar toda a juventude.
- Tambm tu, tambm pensaste nisso?
- Em qu pap.
- Quero dizer... tambm pensaste que ela poderia apaixonar-se por Pirro?
- Enfim, eu s sei o que me disseste, mas no concordo que a me esteja a 
envelhecer. Muito pelo contrrio, acho-a to..., como hei-de dizer? To 
cheia de vitalidade que, quando acabo de con-
versar com ela, parece-me que acabei de ser levada por algum que tivesse 
asas.
- No quero Pirro nesta casa, pronto! - exclamou Menelau. -
Mais tarde talvez no haja perigo, como tu dizes...
- No foi isso exactamente o que eu quis dizer.  muito difcil 
conseguir-se defini-Ia com rigor. Sobre o meu casamento penso que fala 
seriamente. No duvido da sua sinceridade. Porm, tenho a
certeza de que no calcula o efeito que produz em determinadas pessoas. 
Parece-me que lhe conheo bem os pontos fracos para no conseguir 
seduzir-me, mas, por outro lado, alegra-me bastante reconhecer a sua 
actividade. O seu pior defeito  a sua excessiva
falta de graa. Tens tu essa qualidade e ainda bem que a herdei de
ti. Ela ignora por completo o sentido de humor.
- Bela piada, Hermone. Pena  no me ter lembrado quando discutamos 
sobre a nova gerao. Hermione, o que disseste  absolutamente verdade; 
ela  de uma gravidade terrvel e, como lhe falta o sentido de humor e 
leva tudo a srio, entra pelo mau caminho, sempre a srio, tambm com 
grande facilidade.
- E  to enrgica! Se me encontrasse casada no sei em que empregaria a 
actividade, logo de seguida. No percebo como uma
pessoa de aparncia to calma, to plcida, pode desenvolver s
vezes to milagrosa energia. Aquela franqueza de que sempre nos
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
73
fala , nem mais nem menos, o pretexto para empreender qualquer coisa 
nova. Comeo agora a compreender o que querem dizer as velhas histrias 
quando falam de uma beleza devastadora.
- Sim, querem referir-se  tua me. Suponho que  um dom. Acho at que 
perco o meu tempo quando a censuro por isso.
- No entanto,   j vai tendo tempo de se conhecer melhor. Deve proceder 
de forma que as pessoas susceptveis a possam compreender e imitar. 
Quando tu consentiste tudo o que  possvel consentir-se, j no podes 
permitir que desencaminhe os inocentes e as pessoas no precavidas.
- Oh, espera, no exageres! No te desencaminhar a ti que, suponho, s 
inocente, e muito menos a outras pessoas que conhece, porque no h 
nenhuma que no esteja precavida. Toda a gente, desde a famlia do 
guardio at s bisbilhoteiras da vizinhana, todos a conhecem bem e 
todos esperam dela o pior. Alm disso, os seus principais xitos obteve-
os sobre pessoas que no se pode chamar ingnuas, pelo menos, as casadas. 
Pris no era inocente, nem rapaz sem conhecimento do mundo.
- Eu referia-me a Adrasta, essa rapariga de quem ela tanto gosta. No me 
interessam raparigas daquele gnero, mas noto que lhe  muito dedicada e 
que tenta imitar-lhe todos os defeitos.
- Qual  o gnero de Adrasta? Falas muitas vezes como a tua me, 
empregando noes privadas, que s tu entendes, como se fosse um axioma 
evidente para qualquer racional. No sei que gneros de raparigas h nem 
a qual pertence Adrasta.
- Oh, segundo me parece, tem aquilo a que a me chama amor pela vida. Eu 
explico, parece-me..., no  conversa decente para uma rapariga, mas aqui 
vai, acho-a muito ardente. Sabes o que quero dizer.. ardente no mau 
sentido. Se lhe aparecesse um homem que a apaixonasse, calculo que lhe 
diria que sim, mesmo sem ele lhe pedir.
- Qualquer homem - perguntou Menclau -, ou algum em especial?
- Qualquer um, creio. Peo-te que compreendas que no estou a dizer nada 
contra a rapariga. De facto, no a censuro, porque quem tem a culpa de 
tudo  a minha me. Se a ensinasse a dominar os nervos, a esperar 
pacientemente que o amor lhe surgisse na vida, a no ser arrebatada, a 
no ter tanto descaramento... Mas, Por algumas ideias que revelou na 
minha presena, creio que

74
JOHN ERSKINE
imagina que a paixo tudo justifica e eu no posso educ-la, para mais 
apoiada, como est, no exemplo da minha me. _ As tuas relaes com 
Orestes tm sido um pouco irregulares, no te parece? _   diferente. As 
nossas relaes tm sido irregulares, mas de absoluta decncia. Quase nem 
dei por que me fizesse a corte. Comemos to cedo a trocar conselhos 
sobre os problemas de famlia... Nem calculas como Orestes  admirvel. 
Hei-de sempre felicitar-me por o ter conhecido numa situao crtica, 
porque  soberbo a enfrentar as dificuldades. No nego que nos 
encontrmos s escondidas, sem Eteoneu saber. Mas vocs estavam ausentes 
e ns sempre nos considermos como destinados um ao outro.
- No te esqueas de considerar o caso da tua me quando falares do 
Destino. Mas, voltando a Adrasta, alegra-me no haver por a homem nenhum 
que a desinquiete, exceptuando Damastor. Parece que o rapaz a corteja, 
segundo diz a tua me.
- Que disparate! A me de Damastor garantiu-me que de quem ele gosta  de 
mim. Pode mesmo dizer-se que est louco por mim. Isso indica, pelo menos, 
o gnero de raparigas que lhe interessa. No s foi cuidadosamente 
educado como, ainda por cima,  muito novo. Duvido que case fora da sua 
classe, e, mesmo que pensasse nisso, faltar-lhe-ia a fora de carcter 
para enfrentar a oposio da me. O gnero de homem a que eu aludia, 
capaz de arrastar Adrasta,  provavelmente Pirro; afinal, podias mand-lo 
vir para o casar com Adrasta. A me teria Pirro no crculo da famlia, 
como tanto deseja, e eu poderia casar em paz com Orestes.
- Mas eu no quero Pirro c em casa. Direi isto  tua me, assim que a 
vir.
- Ento podes dizer-lho j. A vem ela.
3.
- flelena - disse Menelau -, participo-te novamente que no quero Pirro 
c em casa.
- Ainda bem que mencionaste o nome de Pirro - disse Helena -, porque 
quero falar dele a Hermone e s se poupa tempo abordando os assuntos 
directamente.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
75
- Ento, minha me, deixa-me dizer-te desde j que no quero casar nem 
com Pirro nem com Damastor.
- Com Damastor? Que os deuses permitam que no.
- No lhe pediste que casasse com ele? - perguntou Menelau.
- A pequena entendeu isso.
- Nunca, em dias da minha vida - disse Helena. - Eu contei-lhe que Crita 
dissera que Damastor gostava dela, e observeilhe que lhe podiam acontecer 
coisas piores. Mas prefiro que proceda pelo melhor e no pelo pior. E 
ento procurei descobrir at que ponto era verdade o que Crita me 
garantira, mas logo descobri o que suspeitava: o rapaz anda a enganar a 
me. No conheo bem Damastor. Quanto a Pirro, no pedi a Hermone que 
casasse com ele, nem nunca lho pedirei. Seja como for, casar e com quem 
ela escolher. Nunca lho indicara, mas vinha dizer-lhe que devia conhec-
lo primeiro, antes de tomar uma deciso. J lhe contaste a nossa 
conversa, no  verdade, Menelau?
- Sim, disse-lhe que tu querias que Pirro fosse teu genro e que sugerias 
convid-lo para nos visitar.
- No h dvida que o relato foi bastante influenciado pelas opinies 
pessoais.  uma forma conhecida de colaborao. Mas, adiante. Que pensas 
tu da minha ideia, Hermone?
- Hermone pensa como eu - afirmou Menelau. -  perigoso convidar Pirro.
- Perigoso? Mas quem lhe vai fazer mal? Os hspedes esto sempre ao 
abrigo da nossa proteco. ~ Hoje em dia j o mesmo se no pode dizer do 
dono da casa
- respondeu Menelau. - Eu e Hermone resolvemos empregar um pouco da 
franqueza que tanto usas. Pensamos ambos que nem eu nem ela ganharamos 
nada com a vinda de Pirro. Contigo c, ela no O veria muitas vezes. 
Claro que o rapaz ficaria encantado. Mas to encantado que talvez nem se 
apercebesse que tens uma filha... e um marido. No podemos continuar 
assim, Helena. At hoje tens-te sado bem de tudo; mas agora  
conveniente ficarmos por aqui.
- Me, no foi bem isto que eu disse. Eu...
- Tenho a certeza de que no foram estas as tuas palavras disse Helena. - 
Continua, Menelau.
- J disse tudo.
- Talvez no. Nenhum homem se atreveria a falar assim  sua mulher, e 
diante da filha, se no tivesse razes mais fortes

76
JOHN ERSKINE
do que as que ouvi. Insultas-me com as mesmas ofensas, tal como da ltima 
vez que tocmos no assunto. Nessa altura declarei-te que no continuaria 
nesta casa se insistisses. Muito bem. Vou-me embora. Desculpa, Hermone, 
assistires a to infelizes discusses entre os teus pais, mas, j que o 
teu pai resolveu continu-las neste tom, no ser pior conheceres tudo o 
que se passa, na sua primeira verso. Pedi a teu pai que convidasse Pirro 
a vir c a casa para teres uma experiencia mais completa da sociedade e 
dos homens antes de escolheres definitivamente o teu marido e o teu pai 
acusou-me de ter amado Aquiles, que est agora no tmulo, e, 
sinceramente, disse-lhe que o teria amado se o encontrasse no meu 
caminho, no s por ser o homem mais importante do seu
tempo, mas por ser tambm o mais sedutor. Amamos sempre o mais elevado, 
quando o vemos, e, se no desejamos am-lo,  melhor no o vermos. Na 
minha opinio, Pirro assemelha-se a Aquiles, seu pai. No se deve 
encontrar igual entre os homens de todo o mundo. Talvez fosse melhor para 
ti nunca o trazermos
c, se pudesses contar com a certeza de nunca o encontrares, por acaso, 
em qualquer parte, visto que tu e Orestes esto, aparentemente, contentes 
um com o outro. Mas, se um dia, que  quase certo, vs Pirro como 
proceders ento j ligada pelo matrimnio a outro homem? Eis os motivos 
por que desejava de todo o corao convencer-te a receber a visita de 
Pirro. Quero ainda dizer-te que, apesar de o julgar superior a Orestes, 
como no conheo este, admito que possa estar enganada. Quando te 
encontrares com
Pirro, podes ach-lo menos interessante do que eu. Acontea o que 
acontecer, se o teu gosto no for igual ao meu, est terminado; coloca-se 
um ponto final no assunto. Depois, podes escolher  vontade quem 
quiseres. Primeiro, Hermone, no te recuses
a ver Pirro e, depois, casa com Orestes. Se no procederes como te
digo vers, desde o primeiro momento, morrer a confiana no teu
marido. Lembra-te de que te faltou a coragem para o comparares com outro 
homem. Imaginas o que aconteceria se conhecesses Pirro. Depois, pedes 
secretamente aos deuses que nunca o encontres. Em seguida, imaginas que 
talvez ainda seja tempo de o
encontrares e, finalmente, encontra-lo, com certeza! Era apenas isto que 
tencionava dizer-te. Mas agora  a ti e ao teu pai que compete resolver a 
questo, segundo o que melhor lhes parecer, porque eu
vou-me embora. Entre mim e o teu pai ficou claramente entendido
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
77
que, se me injuriasse de novo naqueles termos me iria embora.  o que 
acontece.
- Fica, Helena - disse Menelau. - Estava fora de mim.
- No estavas, no. E se estivesses, no era desculpa. No faria melhor 
ideia do insulto s por saber da sua espontaneidade; pelo contrrio. Mal 
tnhamos acabado de discutir, quando ao'acabares de me prometer que no 
repetirias semelhante linguagem, vieste para junto da minha prpria filha 
dizer justamente as mesmas coisas, e afirmas-me agora que tu e ela 
estavam de acordo, a ponto de obrigares a rapariga a defender-se, dizendo 
que nem
tudo era como as tuas palavras davam a entender.. No, Menelau, acabou-se 
tudo. Seguirei o meu caminho e tu o teu. Hermone, peo-te, pelo que mais 
desejares, que no deixes o teu pai inventar nenhuma falsidade acerca de 
uns amores com Aquiles ou qualquer outra mentira para se justificar da 
minha sada de casa. Saio por causa do feitio insuportvel do teu pai.
- Suponho que a desgraa que sobre ns cair te  ndiferente - queixou-
se Menelau. - Mas, ao menos, pondera na vergonha da nossa filha, 
absolutamente inocente.
- Nada envergonhar Hermone. Ser somente mais um episdio da infeliz 
histria dos seus pais. A vergonha que aqui possa haver, a nica, cair 
toda sobre mim.
- Era a que deveria cair - disse Menelau -, mas isso no acontecer, 
pelo menos, inteiramente. Eu tambm terei a minha parte.
- No, no tens absolutamente nada.  simples, a tua mulher deixa-te pela 
segunda vez. Para ela  a vergonha, para ti o ridculo.
- No vejo isso.
- Mas vers. Quando a mulher ou o marido foge, o... atraioado ganha 
simpatia, mas nunca admirao, pelo menos da primeira vez que isto 
acontece. Os que sabem dominar o amor no se deixam ficar para trs. E 
quando as deseres se tomam habituais, no conseguem sequer a simpatia. 
Habitualmente o abandonado  escarnecido.
- No deves ir - disse Menelau. - Na verdade no deves ir.
- Vou. E peo-te que, pelo menos, me deixes partir com alguma dignidade 
da tua parte. Com dignidade de modos e sem palavras. Eu e Adrasta 
poderemos arranjar tudo at amanh. Penso em vrios lugares onde com 
certeza serei bem recebida. Em casa de Idomeneu, por exemplo.

78
JOHN ERSKINE
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
79
- Helena - disse Menelau -, no quero empregar a fora para no te deixar 
partir. Talvez no desse rgultado, se resolveste proceder como dizes. Mas 
suplico-te que tenhas senso. Fao tudo o
que quiseres. Aceito, com Hermone por testemunha, que falava sem razo 
alguma. Tenho procedido indecentemente. Tenho...
- Adeus - disse Helena. - Tens, na verdade... mas vou-me embora. - Me - 
suplicou Hermone -, se ficares fao tudo o que puder em relao a Pirro. 
Vou receb-lo o melhor possvel nesta casa, antes de casar com Orestes.
- Sers obrigada a faz-lo por tua conta, quer fique quer no, tanto mais 
que, depois de eu sair, o teu pai j no achar perigosa essa visita.
- Mas Prro no vir - reflectiu Hermone -, se souber de outra zanga 
familiar. Pensar de imediato que o pai precisa de auxilio para qualquer 
uma outra guerra.
- Vai pensar isso nesmo - declarou Helena. -  como se j o
estivesses a ouvir com o riso franco e cordial do pai.
- Suponho - disse Menelau -, que isto provar as minhas intenes. Vou 
convidar Pirro, imediatamente.
- Cono queiras. Sabes que tens de o chamar, quer eu fique quer no. No 
volto a fazer contratos contigo. Chana-o ou no. Agora as decises 
pertencem-te, inteiramente. Ainda h uma hora
era a tua mulher, tentando, com a tua ajuda, planear o futuro da
nossa filha. Agora s um homem completamente livre com todas as decises 
e todas as responsabilidades.
- Coloco o problema de outra maneira - disse Menelau. -
Se o mandar chamar, no te vais embora?
- Oh, Menelau. Com certeza no ouviste o que eu disse h pouco. No quero 
mais contratos contigo!
- Muito bem. Venceste - insistiu Menelau. - Vou enviar o recado a Pirro 
imediatamente. Fiz-me entender? Imediatamente.  a deciso que tomo, 
completamente livre e com todas as responsabilidades. Fui eu que pensei 
em tudo e decidi. Ningum me pode convencer do contrrio. Vou mandar j o 
mensageiro... Ficas?
- Decidiste com acerto, Menelau, e o melhor  dares j as tuas ordens...
- E tu ficas? Isso  que  o essencial.
- Ah! sim? - disse Helena. - No fim de contas trata-se de um contrato. 
Pois, nesse caso, vou-me embora.
- Francamente! Que mulher! - exclamou Menelau. - Palavra! olha, vs? Vou 
eu mesmo dar as ordens ao mensageiro.
- Me - disse Hermone -, no me vais deixar at vir Pirro, no  
verdade? No podia falar no caso enquanto o pai aqui estava. Receio ser 
observada como uma futura esposa e no posso estar com ele, como 
direi?..., com naturalidade depois da conversa que tivemos. Alm disso, 
sentir-me-ia hipcrita, dada a minha inteno prvia de casar com 
Orestes.
- Prometo ficar, pelo menos, at  chegada de Pirro ou de Orestes. O meu 
princpio deve aplicar-se nos dois sentidos. Se quisesses ver Pirro 
primeiro teria tambm de dar uma oportunidade a Orestes para teres a 
certeza de que escolhias bem. O teu pai foi mandar recado a Pirro, mas 
ele est ainda bastante longe e no pode chegar em breve. Entretanto, 
gostava de ver o teu primo c em casa. Achas que vir?
- Farei o possvel, minha me, embora no saiba onde est, porque anda 
sempre fugido a esconder-se de Egisto. Temos de esperar
- Ele no te confia o segredo dos seus esconderijos? No gosto desse 
silncio. Suspeito que perde a melhor oportunidade da sua vida, se no 
chegar no devido momento. No consegues arranjar forma de o avisar? - De 
modo nenhum. Quanto ao resto no o avisei, porque me no quis dizer onde 
era o esconderijo. Porm, fui eu que no o consenti. Sabia j muitos 
segredos da sua vida, e a sua vida dependia deste. Alm disso, perdia o 
subtil prazer das suas vindas misteriosas. Assim deve ser o amor, creio, 
sem ser regulado por informaes habituais, antes inspirado pelo acaso, 
pela providncia ou pelo instinto.
- Sim, conheo o teu temperamento - disse Helena. - Pessoalmente, no 
entanto, saber onde se encontrava o meu amor no me roubaria nada da 
frescura do romance. Enfim, temos de esperar at que venha. Fao votos 
para que seja breve. E quero que sabas, Hermone, admiro a tua boa 
vontade em fazeres o que desejo ao receberes Pirro.
- J agora, antes de me retirar, gostaria de saber (sou terrivelmente 
curiosa) quem  esse Idomeneu de que falaste. O teu pai Pareceu-me 
excitadssimo quando ouviu o seu nome.
- Foi um dos meus admiradores - respondeu Helena.

80
JOHN ERSKINE

- Oh, Adrasta! pensei em ti todo o dia - disse Damastor. -
A tua recordao canta constantemente dentro de mim uma deliciosa melodia 
que no deixo de ouvir, mesmo que  minha volta se passem as coisas mais 
desagradveis.
- Como eu gosto de te ouvir falar, Damastor - respondeu Adrasta. - s 
maravilhoso, sempre com belas palavras para me
dizer quando nos encontramos e sem nunca te repetires. Para mim s uma 
pintura, uma esttua, e no uma cano. Sonho contigo sonhos to reais 
que quase chego a temer que, em casa, vejam aquilo que eu vejo, e saibam, 
assim, os meus segredos.
- E que vs tu, Adrasta?
- Que pergunta, meu amor.. Tens os lbios frios, Damastor.
- Vem mais para a sombra que podem ver-nos com este luar. Nunca vi lua 
mais branca e redonda. Podemos sentar-nos num dos bancos do jardim... 
aqui... para conversarmos em paz.
- Nunca houve lua assim, Damastor, mas o brilho  teu, meu
querido. l me sentei aqui, em noites como esta, para respirar a magia do 
jardim e sonhar.. sonhar no que estarnos a sonhar, mas
mas
sozinha, no vejo tanto brilho no luar. Queria, se pudesse, tornar a lua 
ainda mais bela e clara e trazer aqui toda a gente para nos ver ao luar. 
A nossa felicidade  to bela para se esconder! Orgulho-me de ti, 
Damastor. Amas-me como disseste?
- Amo-te mais, Adrasta. Muito mais. Pois no sentes como  verdade? 
Precisas de palavras?
- Gosto que mo digas, meu querido, porque ningum saberia diz-lo como 
tu. Nunca me esquecerei do momento em que mo disseste pela primeira vez.
- Eu no me lembro nem de uma s palavra, Adrasta. O que recordo  do 
silncio que se seguiu. Temia tanto que j houvesse algum por quem 
estivesses apaixonada, e tu foraste-me a compreender que sim, que j 
havia, e quando me sentia quase desesperado, afinal, descobri que esse 
algum era eu...
- Sim, meu pateta, descobriste... Fui eu que tive de to dizer.
- Tu  que mo disseste? Ora essa! Apenas olhvamos um
para o outro, sem trocar palavra. Nunca gozei nem gozarei tanta 
felicidade.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
81
- Pois eu hei-de gozar, Damastor. E no me agradou nada esse silncio. 
Reconheci que te atrapalharas, minha criana inocente, e fui obrigada a 
esperar que te habituasses  ideia de me
teres feito apaixonar, coisa que para mim j no era novidade. 
Sinceramente aborrecia-me ver-te ali paralizado com a tua grande 
descoberta, sem a menor ideia do que ias fazer a seguir.
- A minha perplexidade, Adrasta, advinha da alegria que me inundava o 
peito... E depois pedi-te um beijo, no te recordas?
- Recordo. Foi apenas o que pediste.
- Mas tu deixaste-me beijar-te mais vezes, Adrasta. Eu nem sabia o que 
era um beijo.
- Os beijos assustaram-te um pouco, no foi, meu pobre Damastor? Parecia 
que julgavas haver um nmero certo de beijos no mundo e receavas acab-
los todos nesse dia. Era melhor guardar alguns - disseste. - Prometemos, 
depois, esperar muito um pelo outro.
- Que infntilidade. ramos to crianas, Adrasta!
- Sim, j passaram muitos meses. Agora estamos talvez na meia-idade no  
meu querido? Pelo menos to velhos que me sinto sentimental e cheia de 
recordaes do passado, e peo-te que me digas de novo que me amas como 
quando era nova.
- Precisava de ser poeta para o dizer..
- Mas tu s poeta, meu querido.
- Ah, no. Se eu fosse poeta seria capaz de cantar as mgoas do amor. Que 
causa misteriosa determinar esta ligao do amor com o sofrimento?  ou 
no um sofrimento, o amor? No posso matar a sede do meu amor, mal 
consigo tocar-te. Aperto a tua mo nas minhas mos, acaricio a tua face 
doce, macia e fresca, aperto toda a tua suavidade nos meus braos, mas tu 
foges-me, tu, que eu amo com toda a minha alma. s agora mais real, aqui 
na sombra, do que quando te encontro em pleno dia. Aqui, a teu lado, Oio 
a tua voz e posso acreditar na alegria que me envolve. Mas, de dia... s 
vezes tudo me parece apenas um sonho. Olho para ti a tentar recordar tudo 
o que aconteceu e no acredito. Posso, evidentemente, lembrar, na memria 
ou em sonho, o passado do nosso amor. Mas a realidade, o momento actual, 
parece uma iluso.  tambm o que se passa contigo, Adrasta?
- Bem digo eu que s um poeta, Damastor. Revolves a tua fecunda 
imaginao e os teus vastos conhecimentos e tentas encontra

82
JOHN ERSKINE
palavras que expliquem tudo. Eu sou muito ignorante, estou apenas muito 
apaixonada por ti, e nada mais. Toda eu estou apaixonada. Ver-te  j um 
sonho, aqui na sombra ou ao luar ou  luz do sol. Ver-te apenas, estar ao 
teu lado, sentir-te perto.
- Adrasta, lembras-te da primeira vez que nos encontrmos? Isto , a 
primeira vez em que se passou qualquer coisa? Quando a minha me me pediu 
que enchesse um jarro de gua, te pediu para me ajudares, e tu vieste com 
um ar muito sonso...
- Se fosse hoje, a tua me j no me pedia que te ajudasse, no era? 
Lembras-te da outra vez que Helena me levou a tua casa e me mandaram para 
a outra extremidade do jardim, proporcionando, assim, sem querer que nos 
encontrssemos e viesses conversar para o p de mim?
Claro que me lembro! A minha me no mais voltou a ser o que era. Sofreu 
tamanho abalo que pensa que eu nunca te tinha visto antes, e ainda hoje 
garante que nunca te pediu para me ajudares a ir buscar o jarro de gua.
- Bom, mesmo que nunca nos tivssemos vi@to, tu podias bem aparecer e 
falarmos.
- A minha me pensa que no, que me enfeitiaste, que me
atraste por artes mgicas e, at certo ponto, tem razo. Quando diz que 
no te pediu para me ajudares  que no tem razo.
- Talvez no reparasse em mim, Damastor. Naquela altura, a tua me s 
pensava no jarro da gua.
- No se apercebeu do quanto s bonita, no  assim? No outro dia no 
jardim, viu-te e assustou-se.
- Meto assim tanto medo, Damastor?
- s fatal, Adrasta.
- Fatal  o amor. Ouve, Damastor, ainda no pensaste em nenhum plano para 
ns? O que vai ser a nossa vida?
- No penso noutra coisa. Creio que o melhor ainda  esperar mais uns 
tempos, e guardar o segredo da nossa felicidade. No poder ser maior do 
que tem sido, no  verdade? Assumo todas as responsabilidades, e acho 
mais fcil convencer os meus pais, se no der a novidade de repente. 
Reagem sempre contra as novidades de que no gostam. Por enquanto no 
descobri mais nada.
- Damastor, meu querido,  realmente um feliz segredo o
nosso, mas no me sinto capaz de o guardar por mais tempo.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
83
- Queres dizer.. queres dizer que ests...
- Exactamente. Ento? No se trata de caso para tamanha aflio. j to 
dissera e s agora compreendes, tal como com o nosso amor. Ainda do nosso 
amor se trata, no , meu querido? Dentro em pouco, toda a gente saber. 
E porque no? Sinto-me feliz e ufana, Damastor. Acho-o infinitamente 
belo. S no gosto do segredo. Porque no dizer a quem queira ouvir que 
Damastor e Adrasta se deram um ao outro pelo amor e para sempre? No vejo 
o que poderiam fazer, alm de nos invejarem. A tua me no gostaria de 
mim, em princpio, porque te quer muito e no ver com bons olhos quem 
lhe roubar o filho. O teu pai seria condescendente.
- O meu pai seria condescendente se vivesse sozinho - disse Damastor -, e 
a minha me ser muito mais difcil de convencer do que julgas. No 
incio, argumentar que s demasiado bela por estar convencida de que 
toda a mulher muito bela , infalivelmente, perversa. Se soubesse o 
que... o que me disseste... considerava a sua teoria como demonstrada sem 
refutao possvel. Custa-me muito, Adrasta, mas  um facto, a minha me 
no compreenderia. Se aguardarmos com pacincia conservo a esperana que 
surja qualquer soluo. Se falar agora, deito tudo a perder.
- Escuta, Damastor, pareo-te tambm uma mulher perversa? Tens a certeza 
de que tudo quanto acabas de dizer so apenas as opinies da tua me? 
Arrependeste do nosso amor?
- Oh, Adrasta, como podes perguntar-me tal coisa?!
- Como posso, meu querido? Porque tu mesmo sugeriste a pergunta. No 
falaste como o fazias antigamente, como falavas quando me desejavas, 
quando me dizias que enfrentaramos a vida juntos, quando entendias 
firmemente que a nica coisa importante era pertencermos um ao outro. 
Mostravas menos prudncia, nessa altura, pelo menos comigo, no  
verdade? No digo que no quisesse ser tua, mas apenas que falavas com 
maior nobreza. Tomando-me a mim, tomavas o teu prprio destino nas tuas 
mos; dispunhas-te a enfrentar todos os riscos, uma vida de pobreza, a 
prpria ira da tua me para seres tu com a tua personalidade. Diz-me, 
Damastor, se pudssemos voltar ao princpio, recomeavas?
- Adrasta, arno-te tanto que me ofende o que dizes. Vale por uma acusao 
de infidelidade. No sei de melhores palavras para te explicar melhor o 
quanto te amo, o quanto te desejo toda para

8,4
JOHN ERSKINE
mim, dois coraes num s. No entendo as razes do teu desapontamento.
At certo ponto h, de facto, um desapontamento ou, pelo menos, convenci-
me disso, Damastor. O meu nico, o meu maior desejo  que me convenas do 
contrrio. julguei-te decidido a tudo quando me pediste que fosse tua. 
Pensei que te entregavas tambm. Com um homem meu, poderia enfrentar 
tudo. No calculas o
orgulho que tinha em ti, Damastor. Contei com a antipatia da tua me mas 
opus-lhe a resoluo por ns tomada firmemente de escolhermos por ns 
prprios e de vivermos a vida que nos pertencia. Imaginei que irias falar 
com ela, e, com muita afeio, respeito e
simplicidade, lhe dirias que nos amvamos e que tudo estava decidido; 
imaginei as tuas palavras to maravilhosamente escolhdas que a tua me, 
mesmo contrariada, se calaria convencida. Caso contrrio, encontrarias 
ainda o conforto da tua prpria sinceridade. Reduzir a tua aco  
espera, desaponta-me. Pergunto: Julguei-te mal? Ou amaste-me primeiro e 
esfriaste depois?
- Sou capaz de dar a minha vida para demonstrar que te amo. A minha 
demora no significa cobardia. O que preciso  de arranjar coragem para 
enfrentar a minha me. Quando me surgir a oportunidade, falo-lhe. j 
contaste a Helena?
- Nem uma palavra.
- Mas ela suspeita?
- Meu querido Damastor, Helena parece adivinhar todas as
coisas deste gnero que se passam  sua volta. Suponho que sus-
peita h muito, mas ainda-no me tocou no assunto e eu, claro, tambm me 
calei.
- Ora a est. Se sentes isso junto de Helena, deves compreender as 
razes que me calam, que me obrigam a guardar segredo por mais algum 
tempo.
- Mas eu no quero guardar segredo para ningum, Damastor. Quero que a 
revelao saia da tua boca; quero que te envaideas, que te orgulhes, 
para me orgulhar de ti.
- Mas no tens orgulho em mim?
- Desconfio que nunca houve homem nenhum que compreendesse por que razo 
uma mulher o ama, Damastor. Pelo que se
depreende das tuas palavras no fazes a menor ideia das qualida_ des que 
me atraram em ti e porque me apaixonaram. Amo a coragem de apreenderes 
de imediato o que pertence  tua vida e ao teu
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
85
destino. A maior parte das pessoas parece que passa a sua vida a imitar o 
que os outros fazem, sem procurar saber se o que os outros fazem  o que 
lhes convm. Tens aquele dom, to falado por Helena, o amor pela vida. 
Instintivamente procuras ver os factos tal como so. Odeias subterfgios 
e hipocrisias. Procuras ser franco contigo e com os outros. Aqui est 
porque te amo e porque nunca poderia amar um homem que assim no fosse. 
No podes perder dotes to raros e valiosos. Se mudasses, no me 
orgulharia de ti, nunca mais. Amar-te-ia sempre e muito, mas sofreria 
terrivelmente. Agora no se trata apenas do nosso amor; est em jogo toda 
a tua vida. Se comeas to cedo a esconder o que pensas e o que sentes, e 
a submeteres a tua vontade s op1noes@ dos outros, perdes-te para 
sempre. Tenho a certeza, Damastor. E uma verdade de to terrvel 
evidncia que julguei que a perceberias claramente, antes de qualquer 
outro. A tua conscincia diz-te que te meteste por um mau caminho? Pra 
imediatamente de caminhar; procura j o caminho que te parece ser o 
melhor. Por isso te perguntei se estavas arrependido do nosso amor. No 
caso de no estares, se o nosso procedimento continua a ser o melhor, 
como acreditvamos, no vejo razo alguma para o escondermos de toda a 
gente. Claro que lamentaremos muito se as outras pessoas no gostarem de 
ns e das atitudes que tomarmos, mas, mais tarde ou mais cedo, teremos de 
decidir quem mandar nas nossas vidas, ns ou os outros. Enquanto vivi na 
iluso de que ambos tnhamos decididamente escolhido, orgulhava-me de ti, 
Damastor.
- No te censuro por me julgares mal, Adrasta, mas , na verdade, o que 
est a acontecer. j te disse e repito que nunca consentiria que ningum, 
nem os meus pais, regessem a minha vida. Se pudesse ir ter com eles 
imediatamente e, quer gostassem quer no, participar-lhes-ia que te 
escolhi para minha futura mulher. Se houvesse qualquer possibilidade de 
eles se submeterem como tu imaginas, ento convencer-te-ias do vigor do 
meu carcter. Se explodisse tamanha bomba l em casa, diante da rigidez 
com que a minha me defende os preconceitos, o meu pai expulsar-me-ia de 
casa, sem misericrdia. E depois? Para onde amos? No veio herosmo no 
feito. Amor  vida, est muito bem. Mas primeiro  preciso viver. 
Temporariamente, pelo menos, vale mais calarmo-nos, porque bem pior seria 
se os meus pais me expulsassem e eu ficasse sem abrigo e sem ter com que 
me alimentar.

86
JOHN ERSKINE
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
87
- Achas que o mais importante  viver, Damastor? Pois para mim, o mais 
importante ainda  como se vive. O amor pela vida contm em si prprio 
uma fora; a vontade de no pagar muito caro o simples direito de viver, 
de no o pagar com a prpria alma. O meu ideal seria partir j, de mo 
dada contigo, e con-
tar-lhes tudo. Procuraramos primeiro Helena e depois o teu pai. -Se nos 
repudiassem, caminharamos atrevidamente pela rua
abaixo, os dois juntos, at que acontecesse alguma coisa, boa ou m. O 
melhor e o mais sincero de tudo, seria proceder assim. No sentirias o 
corao cheio de felicidade se vivesses a meu lado essas horas? Damastor, 
queres fazer isto agora, j, neste preciso instante?
- Oh, Adrasta! Mas que ideia terrvel! Irmo-nos assim embora, arrastando-
te, a ti... como vagabundos. Morrerias antes de darmos um passo.
- Morrerei sem ser a teu lado. Mas, acredita, preferia morrer
junto do homem a quem imaginava que me entregara. Damastor, compreendi 
esta noite que te perdi para sempre.
- Nunca, nunca te deixarei, Adrasta. Esta noite no tens seno ideias 
tenebrosas e ests cheia de medos sem razo, talvez por te excederes um 
pouco. Amanh acordars mais tranquila, lembrar-te-s do que dissemos, de 
todas as tremendas acusaes que me fizeste, e hs-de rir-te de todos 
esses cuidados. Sempre te amarei, Adrasta. Amo-te o mais que se pode. 
Ainda te verei cheia de orgulho pelo teu marido, quando for altura de 
falar e de te provar que, afinal, no tinhas razo alguma... Espera, no 
te vs embora... Perdemos hoje o tempo todo a falar destes patticos 
assuntos. Julguei que nos encontrvamos para vivermos as nos-
sas horas de maior felicidade e, afinal, temos estado a discutir.
- Queres acompanhar-me a casa ou preferes que eu v sozinha, Damastor? Se 
vens, podemos bem encontrar Helena, Menelau ou Hermone.
se
-Agora que j chammos Pirro, no quero deixar de te confessar uma coisa. 
 certo que eu no tinha razo e tudo o mais.

No entanto, tambm no tens o direito de colocar assim a questo diante 
da nossa filha.  impossvel a disciplina numa casa onde ocorrem 
conflitos deste gnero. Detesto todas as questes de famlia, mas, acima 
de tudo as discusses dos pais quando os filhos esto a ouvir. _ Tambm o 
lamento profundamente, mas pareceu-me melhor. do que aceitar sem protesto 
o insulto que me dirigiste na presena da minha filha. Vs as coisas 
muito ao teu jeito, Menelau. Desconfio que me trouxeste para casa para 
teres o prazer de me ofender e de me dizer, continuamente, coisas que se 
no dizem. E julgas tu que, por qualquer misteriosa razo, sou obrigada a 
aturar-te. Talvez imagines ser vantajoso para a educao da tua filha e o 
comportamento do pessoal da casa ouvir as desumanas apstrofes que 
constantemente te saem da boca. Se no me engano, pensas mesmo que 
revelas, assim, a vigorosa tmpera do teu carcter. Sempre que me 
insultas, parece-me que te sentes moralmente muito elevado.
- Helena, eu nunca proferi uma palavra diante do pessoal. Nenhum homem 
honrado faria tal coisa. Quando Eteoneu abordou o assunto, recusei-me a 
deix-lo continuar.
- Que assunto abordou Eteoneu?
-  uma velha histria sem importncia. Fui mesmo tolo em tocar no 
assunto.
- Assim foi, mas, j que o fizeste espero que me digas de que pretendia 
falar Eteoneu.
- Desculpa, Helena, mas no posso. Alm disso, no tem importncia 
nenhuma...
- Menelau, pelas tuas palavras desconfio que  muito importante. De 
qualquer maneira, diz-me respeito e, alm disso, deve ser importante para 
tu mo encobrires.
- Est tudo muito certo, mas no te digo nada, pronto! Em primeiro lugar, 
porque no quero; em segundo lugar, porque se te repetisse as observaes 
do guardio, acusavas-me de imediato de te insultar, obrigavas-me a 
exceder-me e, para solucionar o caso, ainda seria obrigado a mandar vir 
c para casa mais algum hspede. Ora, as provises no chegam para 
receber mais ningum. As colheitas foram fracas, no deves esquecer-te 
disso.
- Mas eu no devo ignorar o que se passou. Se no mo dizes, vou pergunt-
lo directamente a Eteoneu.


88
JOHN ERSKINE
- Desde quando te diriges ao guardio para conheceres opinies sobre o 
teu carcter, Helena? Com franqueza, no podias achar nada mais infeliz 
do que falar'com os criados sobre a nossa vida particular. - No tenciono 
falar da nossa vida particular. Quero unicamente perguntar-lhe que coisa 
misteriosa foi essa que ele disse a meu respeito.
- E ele responde-te logo, com certeza!
- No sei se me responde, se no. Mas posso perguntar, Preferia mil vezes 
que mo dissesses. Porm, como os criados falam de mim nas minhas costas e 
tu no me revelas o que eles dizem, recuso-me a permanecer inactiva e 
ignorante.
- Helena, vejo que exagerei. Vou dizer-t o pouco que se passou. Quando 
regressei, Eteoneu perguntou-me que atitude deviam tomar em relao a ti 
os meus criados. Afirmou que tinham ficado surpreendidos com o teu 
regresso, e, ainda mais, por tu voltares e entrares aqui como... bem... 
como se nunca de c tivesses sado. Disse-me que se preparavam para me 
consolarem, para animarem a minha vida solitria no regresso, e, 
acrescentou que no sabiam como se deviam comportar, ante uma situao em 
que, pelo menos
aparentemente, no havia nem solido nem necessidade de con~ forto, e 
tinham a impresso, dizia ele, de que...
- Quando foi que o interrompeste ou, como disseste, quando foi que te 
recusaste a deix-lo continuar? - perguntou Helena. -
Isso  quase um discurso,
- Eteoneu f-lo contra minha vontade... e aos poucos. Eu tentava falar 
noutro assunto e ele desviava-se sempre...
- E qual era o assunto para o qual tu o puxavas?
- Ora, o guardio viera falar-me de Hermone - disse Menelau.
- O qu?!
- Sobre Hermone e Orestes - esclareceu Menelau. - Andava apreensivo com 
as suas intimidades.
- No posso acreditar no que oio! - exclamou Helena. - Tu que te ufanas 
para afirmares que nunca discutes com os criados acerca da tua mulher, s 
discutes com eles acerca da tua filha, da tua filha e dos seus amores? 
Deve haver uma distino qualquer, suponho, mas no consigo descobri-la, 
Menelau. No imaginava que tivesses perdido a nobreza de sentimentos que 
te caracterizava outrora. Que lhe fizeste? Que te aconteceu? Que vai ser 
de ns? Se na
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
89
tua idade comeas a deixar-te invadir pela baixeza, em breve te tornars 
abjecto, nada te poder valer, e a tua influncia sobre Hermone ser 
demasiado funesta.  uma doena sem cura, a vulgaridade.
- Se estivesses presente quando Eteoneu falou comigo - disse Menelau -, 
j sabias que no andei a fazer intrigas sobre a minha famlia; nem sobre 
a minha mulher nem sobre a minha filha nem sobre o meu irmo nem sobre a 
mulher dele nem sobre o seu filho. Sustentei, desse modo, a conversa em 
especial para que no me acusassem de cobardia. Eteoneu no gosta de 
Orestes e vinha envenenar-me contra o rapaz. Orestes conquistou Hermone, 
claro, e o guardio veio contar-me que o parzinho se encontrava 
constantemente durante a nossa ausncia. Eu disse-lhe que estavam 
prometidos um ao outro h muito, que, alm disso, depositava a maior 
confiana em Hermone e que ele, Eteoneu, no tinha que se intrometer 
onde no devia. Mandei-o voltar para o posto que lhe competia, mas, como 
 muito teimoso, passou algum tempo at que me visse livre dele. Manteve-
se sempre a falar e a ver se conseguia de mim alguma opinio a teu 
respeito. Recusei-me a ouvi-lo, mas, antes que conseguisse correr com 
ele, j evidenciara bem      as suas opinies. O que te contei foi um 
resumo das observaes que fez. Ele sente que o mundo em que foi criado e 
educado se afasta. No fundo, o que o pobre Eteoneu pretendia era 
consolar-se a desabafar, por se sentir a envelhecer.
- E possvel que Eteoneu tenha razo - manifestou-se Helena -, no que diz 
respeito a Orestes. E mais,  certo que o mundo est a mudar. Sinto-o de 
forma evidente. Esprito conservador e modos tradicionais ainda so o 
melhor, no fim de contas. Pode ser necessrio afastarmo-nos deles, mas 
aqueles que se afastam tm de o pagar por preo alto, segundo penso. Por 
isso lamento ver-te renunciar  antiga cortesia, Menelau. Constitua uma 
das tuas mais encantadoras virtudes e, apesar de estar em moda conduta 
mais grosseira e mais ch, nunca tal moda, na minha opinio, poder 
assentar bem na tua personalidade. Notei logo a inodificao naquela 
noite de Tria quando nos tornmos a encontrar. Admirei Agamnuion, 
naquela insistncia de ficar para oferecer sacrifcios. Havia alguma 
coisa no seu procedimento, alguma coisa de bom tom... um no sei qu... 
uma nota bem, podemos chamar-lhe assim. Tudo indicava o poder que sobre 
ele exercia a educao. Lamentei bastante que no ficasses e imitasses a 
sua


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JOHN ERSKINE
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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atitude. O nosso regresso no teve a felicidade que seria de esperar de 
um regresso ao lar. Comeaste mal.
- No  isso que eu vejo - disse Menelau. - A infelicidade est no nosso 
carcter, parece-me a mim. Sacrificar est certo e  piedoso. Tambm 
sacrifiquei com Agammnon um dia inteiro. Porm, quando se exagera, 
deixa-se de ser religioso ou tradicionalista para se passar ao fanatismo 
ou mesmo  loucura. Terminara a guerra. A campanha que se seguia era 
reconquistarmos as nossas vidas interrompidas e arruinadas. No 
compreendo o que se passou com Agammnon, porque costumava ser discreto e 
sbrio em matria de sacrifcios. julgo que o arreliei um pouco por causa 
de Clitemenestra quando sugeri que ele tinha medo de voltar a 
enfrent~la. Atendendo ao que realmente se passou l em casa, melhor fora 
que no tivesse dito nada. H-de lembrar-se das minhas palavras quando c 
chegar e imaginar, talvez, que estou do lado da mulher neste tristssimo 
caso. No entanto, Helena, repara que ele nem sequer est de volta. Ns 
viemos com uma velocidade muito regular, se descontarmos a falta de 
vento. Se a nossa atitude perante os sacrifcios contou a favor ou contra 
ns, a est a resposta para ele no ter chegado antes de ns, no achas?
- No vejo qualquer relao entre os sacrifcios e a velocidade do barco. 
Tratava-se principalmente de saber se jamais poderamos entrar em nossa 
casa. Alis, Agammnon deve estar a chegar e ento teremos a explicao 
cabal do seu atraso.
- Quando conseguir organizar definitivamente a sua vida -
disse Menelau -, convid-lo-emos a vir c a casa para falarmos de Orestes 
e de Hermone. ~ Repara que ser mais um hspede, Menelau. Tens a certeza 
de que mandaste vir Pirro, como me disseste?
- A certeza absoluta. Partiu um mensageiro veloz no prprio dia, nessa 
mesma hora. Pirro vir em visita de amigo, foi o que combinmos, no te 
lembras? E Orestes tambm vir, no ao mesmo tempo, claro.  melhor 
antes, no achas?
- Gostava de ver Orestes, se pudesse c vir. Todavia, Hermone no sabe 
onde ele est. Sinto, como tu, que devemos conhec-lo antes de tomar 
qualquer deciso. E tambm no levanto objeces a Agammnon. J que nos 
habitumos todos a falar uns com os outros no casamento dos nossos 
filhos, suponho que deve ser melhor entrarem as duas partes na discusso.
1 ? a sos.
- A vem o guardio a subir a ladeira. Queres que vos deixe
- No, Helena, fica - respondeu Menelau. - No sei o que ele pretende. 
Podes apreciar agora, por ti prpria, se lhe dou alguma confiana.
- Menelau, posso falar-lhe acerca... do que ele disse de mim?
- No podes - disse Menelau.
- No posso, porqu? No me contaste como tudo se passou?
- Como se passou? Ah! pensas que inventei, que compus  minha maneira? 
Pois pensa o que quiseres' Mas fica sabendo que disse a verdade.
- Menelau! - exclamou Eteoneu. - Desculpai, mas contava encontrar-vos 
sozinho. _  Talvez eu incomode, Menelau - disse Helena. - Volto quando 
estiveres livre de novo.
- Ouve, Eteoneu - perguntou Menelau -, que queres tu dizer com isso de 
contares encontrar-me sozinho? O que  que te passou pela cabea? Achas 
estranho que na minha prpria casa esteja a falar com a minha prpria 
mulher?
- No me atrevo a achar nada estranho em vs, Menelau - respondeu 
Eteoneu. - No importam as minhas ideias mais reservadas.
- No vamos bem, Eteoneu, no vamos bem - ralhou Menelau. - Recomendei-te 
no outro dia que tivesses tento na lngua quando falasses de algum membro 
da minha famlia. Compreendes-me claramente, creio eu?
- No, Menelau - disse o guardo. - Ouvi perfeitamente o que dissestes, 
porm no entendi... Mas seria melhor no continuarmos com a senhora 
presente.
- Eteoneu - atalhou Helena -, ficarei muito contente por te ouvir dizer 
de que te queixas. Fala como se eu no estivesse presente, a no ser que 
se trate de algum negcio privado de meu inarido que eu no deva 
conhecer. s um velho amigo e poucas vezes nos encontrmos desde o meu 
regresso. Como tens passado?
- De sade, excelente. Mas trago o esprito preocupado.
- Sinto muito - disse Helena. - Mas servio de tanta responsabilidade e 
to fielmente desempenhado devia deixar-te passar a velhice de 
conscincia tranquila.
- Oh, a minha conscincia nada importa, porque no  pelos meus que ando 
preocupado.

92
JOHN ERSKINE
- O que te trouxe aqui, Eteoneu? - interrompeu Menelau. -
Que desejas de mim?
- Um momento, Menelau - pediu Helena. - Parece-me que Eteoneu anda em 
cuidados com o mal que outros cometeram.
- Exactamente - disse Eteoneu.
- Quero eu dizer - continuou Helena -, trata-se do mal que outros te 
fizeram pessoalmente.  claro, espero que no vejas no
meu interesse inteno de intrometer-me nos teus segredos.
- No me ofendi. Nem se trata de mal que me tenham feito pessoalmente.
- Bom - disse Helena -, quando se pensa no mal, de uma
forma genrica, h um nmero assustador de males no mundo feitos por 
segundos e terceiros e que no nos dizem respeito. Muito deves gostar do 
sofrimento, Eteoneu, para te martirizares a compartilhar de tantas 
preocupaes.
- Eteoneu - disse Menelau -, insisto em perguntar-te o que  que...
- Peo desculpa, Menelau - tornou Helena -, mas nunca imaginei que a 
minha conversa com Eteoneu te aborrecesse tanto.
- No me aborrece em absoluto. Conversa com ele sobre o
que te apetecer, mas noutra ocasio. Agora desejo saber o que o trouxe 
aqui.
- Apenas uma pequena notcia - disse Eteoneu -, que, pelo menos outrora, 
gostarieis de receber..
- Dar-se- o caso de Pirro ter recusado o meu convite?
- Ainda no o recebeu. No, as notcias que trago dizem respeito ao vosso 
irmo.
- Voltou? - perguntou Menelau.
- Voltou - respondeu Eteoneu. - As ltimas notcias dizem que chegou so 
e salvo, de sade, e que voltou para casa. O homem que me contou, e que 
passoupor aqui h cerca de uma hora,
viu-o chegar nas carruagens com todo o esplio na bagagem e
com a escrava Cassandra, que, segundo diz o homem,  muito bonita.
- Assim   replicou Menelau. - O que se passou depois?
- Nada. Entraram todos em casa. Depois das portas se
fecharem, a multido esperou um pouco, claro, mas depois voltou aos seus 
afazeres. O homem disse-me que tambm seguiu o
seu caminho.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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Gostava de saber o que aconteceu por trs daquela porta -
disse Menelau.
- Tambm eu - afirmou Eteoneu -, mas o homem parece-me que no apreendeu 
o verdadeiro significado do caso.  um negociante de fora e nunca ouviu 
falar da conduta de Clitemenestra. Ficou surpreendidssimo quando lha 
contei e lamentou-se de ter abandonado o lugar no momento exacto em que 
eram de prever os acontecimentos mais sensacionais.
- Ele no viu, ao menos, Clitemenestra? - insistiu Menelau.
- Ah, sim, Clitemenestra apareceu a saudar Agammnon e a receb-lo, e 
cumprimentou tambm Cassandra muito afectuosamente.
-  verdade? - admirou-se Menelau. - E Egisto tambm estava a fazer as 
honras?
- O homem no se apercebeu dele. Alis, nem ouviu falar no seu nome, 
porque atravessou o pas muito rapidamente.
- Eteoneu - disse Menelau -, quando me falaste pela primeira vez no caso 
de Clitemenestra e Egisto, no te disse que todos os rumores podiam ser 
pura fico? Pergunto agora se a minha suposio no foi acertada. Se 
Egisto se considerasse dono da casa, Clitemenestra no receberia 
Agammnon com tanta cortesia. Se o escndalo fosse uma realidade, o teu 
negociante ouviria alguns rumores, mesmo que se detivesse por pouco 
tempo.
- Que disparate, Menelau - disse Helena. - Tentas enganar-te a ti 
prprio. Orestes contou tudo a Hermone, que mo contou a Mim como, 
certamente, te contou tambm a ti. Eteoneu soube de tudo muito antes de 
ns. No h dvida que a minha irm tem vivido com Egisto e que o marido 
veio para casa. O negociante, evidentemente, partiu muito depressa. Neste 
instante j eles devem ter chegado a qualquer espcie de entendimento. O 
que eu gostava era de saber qual foi.
- H apenas uma espcie de entendimento - afirmou Menelau. - O meu irmo 
mata Egisto e Clitemenestra procura matar Cassandra. Eteoneu, diz aos 
homens que se aprontem j para uma viagem imediata. Vou ter com o meu 
irmo.
- Se achas que deves ir - disse Helena -, no sou eu que vou tentar 
impedir-te, mas pressinto que seria melhor ficares. O que quer que tenha 
acontecido, j aconteceu; o teu auxlio chegaria tarde. Mensageiros 
melhor informados contaro os acontecimentos com mais pormenores. No teu 
lugar no saia daqui.

94
JOHN ERSKINE
- H muito de razovel no que dizes, Helena, mas sou obrigado a partir. 
Quero ver com os meus prprios olhos como as coisas se passaram.
- Se eu estivesse, como tu, em cuidados por causa de Agamrnnon, mandaria 
imediatamente saber notcias, mas no iria eu
prpria. De nada servirs a teu irmo, no caso de estar metido emm
apuros, se no levares uma escolta numerosa. E parecerias ridculo a 
marchar  frente das tuas tropas, no caso de Agammnon e Clitemenestra 
terem feito as pazes.
- No podem ter feito as pazes - afirmou Menelau.
- Oh, no garantiria tal afirmao. Todas as reconciliaes so possveis 
neste mundo. Envia cumprimentos a Agammnon, como se nada soubesses sobre 
o caso de Egisto, e pede-lhe que venha visitar-te na primeira 
oportunidade. Pela resposta sabers algumas notcias e poders, assim, 
orientar as tuas aces.
- Mas supes que se reconciliaram e que Agammnon traz Clitemenestra 
consigO - Ento? Se eles se recondliaram, pode traz-la - disse Helena. -
Sempre  minha irm, apesar de tudo o que dizem que faz, e sempre  a me 
do rapaz que destinaste para teu genro. No a podes ignorar. Se tivesses 
pensado como eu, e me ajudasses a defender a causa de Pirro, no te vias 
agora nestes embaraos.
- Nunca gostei de Clitemenestra - disse Menclau. - Com
reconciliao ou sem ela, hei-de considerar sempre a sua conduta como 
particularmente ofensiva. Parece-me boa a ideia do mensageiro com os 
cumprimentos. Eteoneu, diz a um dos homens que
se apronte de imediato.
- Ento, que pensas de tudo isto, Helena?
- No penso nada, Menelau, trata-se da minha irm e do te
irmo. Ignoro as consequncias que teremos de suportar.
- No pensava em ns. Nada disto nos surpreende, sup nho. No queria 
revelar os meus sentimentos diante de Eteon mas parece-me que se vai 
desenrolar um drama horrvel naquel casa, no te parece, Helena?
- Parece-me que neste momento j se desenrolou, e lamento-o por causa de 
Electra e de Orestes. Lastimo-o igualmente por Hermone. A pequena vai 
tomar isto muito a peito e no so das
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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melhores coisas para ocupar o esprito de uma rapariga... Menclau, que 
pensaste tu daquele comerciante de cujas aventuras Eteoneu nos esteve a 
contar?
Sei l. Que querias tu que eu pensasse, s pelo que Eteoneu nos contou?
- Ento, acreditaste naquela histria, no  verdade? Pensei isso mesmo. 
Pois eu no acredito. Eteoneu sabe mais do que nos contou ou o negociante 
sabia mais do que contou a Eteoneu. Como tu mesmo observaste qualquer 
homem que percorresse o pas, mesmo a correr, ouviria falar do escndalo. 
E se o ouvisse no partiria to despreocupadamente.
- Achas que Eteoneu sabe mais do que nos contou?
- Ou Eteoneu, ou o negociante...
- Vou cham-lo para esclarecer o assunto.
- Pergunta-lhe se eu no tive razo ao aconselhar-te que ficasses em casa 
- disse Helena. - Pergunta-lhe a sua opinio. Eu vou contar as novidades 
a Hermone, porque, em grande parte, isto diz-lhe respeito.
- Menclau, estive a espreitar pela porta a ver quando a vossa esposa se 
retirava. Agora posso falar-vos  vontade. Eu no disse tudo.
- Ento conta-me o resto! O que se passou?
- O negociante sabia bem do escndalo. A outra verso inventei-a eu. O 
homem quis demorar-se para ver o que se passava, mas aconselharam-no por 
toda a cidade a fugir sem demora, se tinha amor  pele.
- Amor  pele?
- Amor  vida, se precsais que vo-lo diga claramente, O negociante disse 
ainda que Clitemenestra e Egisto tinham tudo preparado para liquidar 
Agammnon e que preferiam faz-lo sem testemunhas.
- Rene todos os homens, Eteoneu! Partimos imediatamente!
- Eu no o faria, se estivesse no vosso lugar. Espero que no seja 
necessrio. Tentei encontrar Orestes e parece-me que consegui fazer-lhe 
chegar um recado. Posso mesmo afirmar que tenho a certeza de lhe ter 
chegado o recado. Orestes vai tratar do assunto. No me considera amigo, 
mas. nil--

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JOHN ERSKINE
sou bastante seu amigo. Agora vai ter oportunidade de mostrar
que tipo de filho . Compete-lhe mais a ele, por direito, do que a
vs prprio ir para junto de Agammnon. Parece-me que vai j a caminho, 
h alguns instantes. Fareis melhor se ficsseis aqui, envisseis o 
mensageiro, e espersseis at ter alguma informao.
- Onde estava Orestes, afinal? Pensei que no o conseguiam encontrar.
- No o encontraram h mais tempo porque eu no quis. Para mais, o 
esconderijo  o seu segredo e eu no o revelarei.
Vamos ver agora a tmpera do rapaz. Espero que no me leveis a mal por 
lhe ter emprestado algumas das vossas melhores armas. Afinal, como eu lhe 
disse, sempre fica tudo em famlia.
Minha querida Hermone, vim assim que ouvi as novidades. Espero que 
Helena esteja em casa.
- No est, Crita. Sinto muito dzer-to, mas saiu esta tarde. Entra e 
permite-me que, humildemente, a substitua.
- Uma substituio nada humilde, querida filha. Mas esta  j a segunda 
vez que no a encontro em casa. Se no conhecesse to intimamente a tua 
me, pensaria que me anda a evitar. No deixes de lhe comunicar o meu 
desapontamento. Assim que soube do regresso de Agammnon, pensei logo em 
vir aqui de imediato, para Helena saber como fiquei contente. Valha-me 
Deus... Suponho que j tinhas ouvido falar da tua tia, no?
- No, ainda no ouvimos falar concretamente de nada. Foi um
homem que trouxe a notcia do regresso de Agammnon. A minha me contou-
me. E o pai mandou-lhe um convite para passar alguns dias connosco, logo 
que pudesse faz-lo.
- Hermone, o teu tio  um homem muito distinto. Deves orgulhar-te dele. 
No quero dizer que o teu pai no mostre tambm grande distino, mas 
Agammnon sempre teve... enfim, havia nele qualquer coisa.  difcil 
definir a sua personalidade. Admiro-me que a tua tia nunca o tenha 
apreciado devidamente quando a maior parte das mulheres se sentiria com 
muita sorte por encontrar um marido assim.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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- Talvez ela no queira ter sorte. A minha me tambm parece aborrecer-se 
quando se fala respeitosamente de uma vida confortvel e calma. Parece 
que tem uma noo muito especial do sucesso. Mas no devo falar assim da 
minha tia. Para mais, suponho que ela gosta do marido. Nada sei em 
contrrio.
- Minha querida filha, com certeza que no pretendes convencer-me que no 
ouviste falar do que se tem passado com Clitemenestra. Claro que ouviste! 
 o assunto do dia, o assunto de todas as conversas das pessoas amigas da 
famlia. No sei onde podem arranjar coragem para tais coisas, mulheres 
educadas como ns. No  que eu admire esse gnero de coragem. Mas tu no 
podes afirmar que a tua tia goste de Agammnon, visto que vivia com 
Egisto.
- No me considero muito sabedora do assunto, Crita, mas julgo 
compreender, pelo menos em parte, as razes da minha tia. Sem querer 
defender as irregularidades do seu procedimento, acho que ela tem boas 
qualidades. Orestes, o meu primo, como sabes, -lhe dedicado e penso que 
certamente no o faria, pessoa to ajuizada como ele, se lhe no 
reconhecesse qualidades.
- Talvez se trate apenas de uma questo de respeito. De qualquer maneira, 
no entanto, alegra-me conhecer essa atitude de Orestes. julgava-o, como 
direi, com ideias um pouco avanadas. Como sabes, recusou-se a ir para 
Tria, apesar de ser temvel no campo de batalha, segundo dizem. Ora, 
disseram-me, no me recordo agora quem, que Orestes ficara em casa porque 
desaprova a guerra. Receei que tal atitude partisse de um temperamento 
desleal. Quanto a Clitemenestra, tens a certeza de que o teu tio no 
tornou a receb-la? Disseste que nada ouviras...
- De facto, no!
- Mas, ento, ela no voltou?
- Voltou? Clitemenestra nem to pouco chegou a ir-se embora. Suponho que 
discutiram, mas, repito, mais no sei. A minha tia conta com algumas 
coisas a seu favor e eu reservo-me at saber mais pormenores para poder 
julg-la.
- Ah, ela tem coisas a favor? No sabia! Quer dizer que Aga1nmnon foi 
... ? No fundo no me admira. Os homens procedem sempre assim. Conta-me, 
Hermone. No sei como, mas nada sei Sobre o assunto.
-  simples e claro como gua para quem os conhece - disse Hermone. - 
Agammnon  desptico, a minha tia audaciosa. Que

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A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
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mais  preciso para estalar uma discusso? Orestes diz que Clitemenestra 
censurou bastante toda a agitao provocada pela minha me. Suspeito que 
censurava por inveja, mas Orestes garante que no. Afirma que a me 
achava a expedio a Tria despropositada. Apesar de tudo isto h ainda o 
caso de Ifignia. J ouviste falar, talvez. H muitos anos, quando 
tentavam desembarcar o meu tio, acampado em ulis, mandou ir Ifignia 
para a casar com Aquiles. A minha tia, encantada com a viagem, preparava-
se tambm para partir, a acompanhar a filha, quando o meu tio lhe mandou 
dizer que ficasse e mandasse apenas a filha. Atitude intolervel, no te 
parece? Clitemenestra queria que a filha casasse bem, mas con~ tava que a 
convidassem para o casamento. No podes imaginar a
brutalidade do procedimento de Agammnon- Chegou mesmo a mandar dizer que 
se Clitemenestra aparecesse no haveria casamento. Proibiu-a de fazer 
perguntas com a promessa de que tudo explicaria quando voltasse a casa. 
Para no prejudicar a vida da filha, Clitemenestra mandou Ifignia 
sozinha para ulis - e, afinal, no houve casamento. A partir desta 
traio, a minha tia considerou-se livre de todas as obrigaes 
contradas com Agammnon. Faltam-me elementos para avaliar at que ponto 
o procedimento dele foi justificado.
- No compreendo muito bem por que razo, apenas por o casamento no se 
ter realizado, se havia de desmanchar a casa -
disse Crita. - Se eu fugisse com outro homem cada vez que o meu marido 
falta s suas promessas, j h muito devia ser uma..., bom, devia no ser 
o que sou. Ifignia podia encontrar outro marido. - No podia - respondeu 
Hermione -, porque foi vtima de uma crueldade medonha: ofereceram-na em 
sacrifcio aos deuses para conseguirem vento favorvel.
- Oh, Hermone! Que horror! Suponho que no conseguiram vento nenhum. - 
Conseguiram, sim. Exactamente o vento que os levou a Tria. Mas talvez 
no a tivessem morto, de verdade. Eu acreditava que sim. Mas pouca gente 
o admite, e agora corre outra verso, mais recente, afirmando que est 
viva e escondida em qualquer lugar misterioso. No compreendo porque l 
est e no em casa. Qualquer que tivesse sido o seu destino, espero que a 
esta hora o meu tio j o tenha esclarecido satisfatoriamente e espero 
tambm que, com a sua falta de tacto em no se justificar mais cedo, 
saiba ver
a razo do procedimento de Clitemenestra, abandonando os laos que os 
ligavam. Orestes diz...
- Minha querida Hermone, duvido que seja benfica a influncia que 
Orestes exerce sobre ti. Ao ouvir-te falar e raciocinar julgo ouvir falar 
e raciocinar uma filha de Clitemenestra. Nunca proferirias doutrinas to 
revolucionrias se ningum tas impusesse. No as acho prprias do teu 
doce temperamento. Desconfio de Orestes. Espero que no te deixars 
prender numa excessiva admirao pelo teu primo.
- Temo que j no o admire excessivamente - disse Hermone.
- Tenho a certeza que no - afirmou Crita. - Na verdade, Hermone, 
deixa-me dizer-te que  para mim um mistrio, a maneira como conservas as 
tuas ideias sobre a vida to firmes e to elevadas, no incio de todas as 
comdias que se representam  tua volta. Sabes da minha dedicao pela 
tua me, mas (desculpa-me dizer-te aquilo que pensam todos os que mais a 
amam) ela no  a me ideal. Preocupa-se demais com o amor, como se fosse 
tudo quanto h na vida. Digo-te que o senso comum vai mais longe.  
necessria tambm alguma habilidade para planear a vida. As pessoas que 
perseguem os sentidos tomam-se insuportveis para todas as outras, que 
no sentem a idolatria que dedicam aos instintos e aos impulsos. Espero 
que no sigas caminho to emocionante. Procurei sempre suprimir os 
impulsos de Damastor ou, pelo menos, afst-los do pensamento. Snto-me 
mesmo vaidosa pelo que vou conseguindo. No achas Damastor um rico rapaz, 
Hermone?
- No o conheo bem, Crita, para poder pronunciar-me.  muito correcto 
comigo, sempre que nos encontramos.
- Correcto? Ora, Hermone, dedica-te uma grande afeio, est 
perdidamente apaixonado por ti! No h razo para te envergonhares disso 
diante da me dele, diante da tua velha amiga. Sei bem o que se sente 
nestes casos. Aquele rapaz contou-me tudo. Muitas vezes entra no meu 
quarto para me falar sobre as visitas que te faz.
- Que te conta ele, Crita!? Damastor nunca me vem visitar. H semanas 
que no troco uma palavra com ele.
- Hermone, sinto-me desfalecer! Damastor?... No me digas isso... o 
rapaz no me enganava.
- Crita, lamento dizer-te, mas j por mais de uma vez me deste a 
entender que Damastor gostava de mim. Nada podia

100
JOHN ERSKINE
dizer quando ouvia a insinuao, mas o facto aborrecia-me porque Damastor 
nunca, em tempo algum @, mostrou qualquer interesse por mim. Contrariava-
me que andasses com uma falsa impresso.
- Ele disse... diz sempre, simplesmente, que vem c para te ver. Julguei 
que isso significasse...
- Talvez significasse apenas que vinha c e no duvido que viesse, como 
tambm nada me custa a crer que ande apaixonado por uma rapariga. Mas 
nesta casa vive mais do que uma mulher, Crita...
- No me digas que ... a tua me!?
- No, pelos deuses, no . A minha suspeita, embora nada possa garantir, 
claro, recai sobre Adrasta.
- Quem  Adrasta?
- Tu conhece-la. j a viste.  aquela rapariga que foi aia da minha me.
- Aquela que Helena levou ao meu jardim? Oh, Hermone,  muito bonita!
- No h dvida. Lindssima... se gostares daquele gnero.
- Que horror! Suponho que a rapariga no tem sombra de carcter. No  
ningum neste mundo e, depois, constantemente com Helena!... Hermone, 
porque supes que Damastor est loucamente apaixonado por ela?
- Andam juntos muitas vezes, vejo-os passear e conversar em stios onde 
talvez se julguem sozinhos. Se penso com justeza ele mais no  do que um 
rapaz, e ela no passa de uma rapariga matreira. Adrasta conhece os 
prprios encantos e preferiria morrer a deixar de us-los. Ainda por cima 
duvido que tenha alguma moralidade. Talvez me engane, mas parece-me que 
Damastor lhe caiu nas garras.
- Meu pobre filho! Meu pobre filho! Eu devia saber.  o que a tua me 
arranja, Hermone. Eu poupava-te isto se pudesse, mas tenho que 
desabafar, tenho que te dizer que essa mulher me paga infamemente a 
lealdade que lhe devotei, mesmo quando sabia que no a merecia. Com que 
direito vem ela agora para junto das mulheres honestas, que suportam 
maridos talvez piores do que o seu, a dar-se ares de deusa, e fora das 
regras humanas de bem viver, e, ainda por cima, com uma serpentezinha 
para encantar os homens que nos pertencem, e encher de peonha a nossa 
vida? Ah, se a tua me tivesse sofrido o justo castigo, Hermone! Bem,
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
101
posso ainda salvar Damastor. Vou mand-lo embora para qualquer parte onde 
essa rapariga no consiga deitar-lhe a mo. Talvez ele a esquea se vir 
mais gente e mundo. Vou mand-lo de visita ao meu irmo. Se ela lhe falar 
de novo  porque morri.
- Afinal, parece-me que s esperta. Damastor  um rapaz muito simptico e 
 pena v-lo com a vida estragada por uma tonta qualquer. Teria pena que 
todo o homem de bem e educado escolhesse Adrasta. E alegra-me bastante 
que Orestes, que a conhece, no goste nada dela.

TERCEIRA PARTE
OS MAIS VELHOS

104
J que insistes em saber as minhas razes - comeou Hermone -, aqui as 
tens: so trs as principais, depois de -i[ um rpido inventrio. Em 
primeiro lugar, no gosto dele. Em segundo lugar, gosto de Orestes. Em 
terceiro lugar, Pirro  um tanto bruto, segundo o que me dizem, e no me 
agrada de todo um marido de mo leve. Admira-me que insistas nesta 
discusso. Deixa vir Pirro. Olharei para ele como queres e depois pode 
ir-se embora para casa. Todas estas conversas cada vez o afastam mais dos 
meus pensamentos.
- Se a minha inteno fosse apenas arranjar um simples casamento entre ti 
e Pirro - disse Helena -, com certeza que no falava tanto nisto. Admito 
que o resultado possa ser o que tu dizes. Poders odiar o seu nome; 
poders alimentar no teu peito uma averso cada vez maior contra mim. 
Seja como for, quero que aprendas algumas verdades sobre o casamento que 
a maior parte das raparigas s aprende demasiado tarde.  a tua educao 
a tarefa que mais me apaixona e nteressa-me mesmo mais do que o teu 
casamento. Se houvesse outra maneira de te fazer compreender as ideias, 
no as poria em palavras. Perdoa-me se insisto e se te aborreo. Talvez 
compreendesses a minha insistncia se te esforasses um pouco. Como 
sabes, ns, da velha gerao, temos uma maneira especial de encarar as 
coisas, que nos vem do facto de j termos Oferecido filhos ao mundo. O 
que pretendemos  proporcionar-lhes uma vida melhor do que a que tivemos. 
E a nica forma 

106
JOHN ERSKINE
colocar a nossa experincia  disposio deles. No entanto, nada aborrece 
tanto a gente nova. No pretendo saber tudo sobre o amor, mas sei algo 
mais do que tu, e as trs razes que apresentas para no pensares na 
hiptese de Pirro parecem-me absurdas. No te zangues. Um dia tambm te 
parecero absurdas, mesmo que continues a amar Orestes.
- O que importa  agora no me parecerem absurdas, e ser
eu, neste momento, quem decide - afirmou Hermone. _  No h dvida - 
continuou Helena -, e quero que decidas bem consciente, sem te enganares 
a ti prpria. Garantes que no amas Pirro. Por que motivo havias de am-
lo, se nunca o viste? Mas Pirro chega dentro de algumas semanas. No te 
peo que percas o corao. S te previno que, apesar de no o conheceres, 
e apesar de gostares, como pensas, apaixonadamente de outro homem, podes 
vir a desejar Pirro, de corpo e alma, vinte e quatro horas depois de te 
teres encontrado com ele. E no julgues que s a nica mulher na histria 
sujeita a essa situao.
- Se isso significa que Orestes  menos interessante do que Pirro, no te 
contrario. Aceito, Mas no importa que penses assim.' Podes ter toda a 
razo do teu lado. Creio que h homens e mulhe-.;. res feitos uns para os 
outros. Creio que o destino marca o com-. panheiro que pertence a cada um 
de ns, e que o encontrarnos se a sorte nos ajudar. Orestes e eu formamos 
um par ideal, e aqui acaba tudo. Pirro pode ser to encantador como 
dizes, mas iio mo indicou o destino. H alguma coisa que mo diz e, por 
isso, no vale a pena discutir.
- Sentes que Orestes e tu foram criados e guardados um para; o outro, 
como conjuno absoluta de duas estrelas eleitas. Conheo bem esse 
sentimento. Senti-o vrias vezes, e por diferentes homens.  uma maneira 
delicada de a natureza nos mostrar os nossos dese-jos mais ardentes. 
Nunca reparaste numa criana quando v umi boneca pela primeira vez? 
Abraa-a muito, aperta-a contra o pei e exclama esta boneca  para mim. 
O que desejamos muito, pare..; ce-nos sempre destinado.
- No acreditas, ento, que haja companheiros espirituais?
- Podem chegar a essa perfeio com o tempo e demora bastante tempo a 
ajustar. Tanto que, em vez de desconfiar desses casais feitos pelos 
modelos celestiais, prefiro supor que no h nem pares predestinados, nem 
homens e mulheres que, quando
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                    1O7 se juntem, 
formem a imagem da harmonia. No podes crer nesse disparate das almas 
gmeas, minha filha. Bastar-te- a experincia de verificares que h dois 
ou mais homens sinceramente apaixonados por ti. Todos pensaro que s o 
seu destino e, no dia em que escolheres um, o outro pensar sempre que 
no desperdiaste a oportunidade de encontrar o companheiro ideal. E, 
provavelmente, assim aconteceu. Menos poders ainda acreditar na teoria 
quando te apaixonares pela segunda vez e sentires a mesma paixo, a mesma 
angstia, o mesmo sentimento de fatalidade, mas por outro homem. Quando 
somos novos, tendemos a acreditar numa nica pessoa destinada a ns. Mais 
tarde, quando aprendemos que os apaixonados e dedicados coraes podem 
quebrar-se segunda ou mesmo terceira vez perdemos o respeito por ns 
prprios. Aceitamos, ento, gradualmente a lio da natureza: o amor pode 
acender-se repetidas vezes  medida que a nossa personalidade se 
desenvolve e modifica. S ento sabemos que os factos do nosso destino 
nunca so to decisivos como supnhamos.
- Me, falas como se nada fosse estvel neste mundo. No posso concordar. 
Parece-me impiedade e prefiro ser fiel.
- Nada  estvel neste mundo, Hermone, a no ser que ns prprias o 
sejamos. Lealdade e Fidelidade so complementos do nosso carcter, no as 
encontras a crescer  tua volta como uma planta, ou a cair-te do cu como 
um relmpago. Entre lealdade e amor h uma certa diferena. Os amantes 
comportam-se frequentemente com lealdade, desde a juventude at  
velhice, e a sua constncia merece grande admirao principalmente por 
ser artificial. Quando um dia casares, o amor pode abandonar-te. O 
problema da lealdade nunca mais te deixa. Quero que escolhas o homem para 
quem cumprirs com maior facilidade, durante toda a vida, o compromisso 
de seres leal, e insisto em que  mais uma questo de escolha do que 
supes. Declaras-te apaixonada por Orestes e sem foras para resistir a 
essa fatal paixo. Embora no queiras acreditar em mim, aviso-te que, 
mais tarde, podes apaixonar-te to intensamente como agora por qualquer 
outro. Vais responder-me que se pode e se deve resistir a um segundo 
amor. Realmente,  verdade. Mas tambm tanto se pode resistir ao primeiro 
como ao segundo.
- Se te serves da tua experincia para me aconselhar - disse Hermone -, 
gostaria que me esclarecesses sobre algumas coisas

108
JOHN ERSKINE
da tua vida que no me parecem muito prprias. S no sei, uma rapariga 
como eu, se deva fazer certas perguntas  sua prpria me.
- Ensinar-te-ei tudo o que souber. Ds-me um grande prazer se perguntares 
tudo o que te interessar.
- Bem, se sentes o amor como acabas de me dizer, podias muito bem no ter 
abandonado o meu pai; podias resistir ao amor por Pris, dando assim um 
exemplo de lealdade. Confesso que no vejo semelhana entre o que 
aconselhas e a maneira como procedeste.
- Querida filha, no h semelhana possvel.
- Exactamente o que eu pensei - notou Hermone.
- No h, na verdade. Mas nunca, nesta vida, te aconselharia a seguir os 
meus passos e a fazer o que fiz. No valeria a pena; no estarias  
altura dos factos e, mesmo que assim fosse, no encontrarias no teu 
passado as razes que eu tive.
- Concordo que no poderia imitar a tua vida, mas no acho que devas 
diz-lo como se falasses de um dom admirvel que no herdei. Nunca 
concordaremos quanto ao modo de vida que desejamos. E receio bem que 
surjam grandes dificuldades para encontrar a justificao da tua fuga com 
Pris. ~ Nunca tencionei justificar a minha vida, Hermone, nem a ti nem 
a ningum. Simplesmente a tua pergunta levou-me a pensar nas razes dos 
meus actos, justificveis ou no. A tens um bom conselho: no 
justifiques a tua vida depois de a viveres, No palco da vida, ser a tua 
que falar por si prpria. Tambm escusas de julgar as aces passadas 
dos outros,  muito tarde para se alterarem. Pareces-me demasiado severa 
quando te referes ao meu passado. No levanto objeces por se tratar do 
meu passado, mas apenas porque todas as sentenas assertivas, proferidas 
a respeito das pessoas por crianas ainda em formao, parecem presumidas 
e ridculas. Se discuto tanto a tua vida  porque est ainda quase toda 
no futuro. Do que j fizeste no passado nada te direi.
- No te quis ofender - disse Hermone- - Compreendo quo diferente s 
dos outros e, assim sendo, as regras tradicionais no te poderiam servir.
- No serviram, mas deviam ter servido, e era isso o que IU
mais desejava. Eis o pior de tudo. Nunca pretendi ser diferente dos meus 
semelhantes, contudo, nunca me senti a viver no mesmo mundo que eles. No 
vs como surgiria fatalmente uma situao
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRia                       
 109
 complicada? Ningum nos pode impedir de participar em todos os momentos 
da vida, nem mesmo nos maus com dores e sofrimentos. Sempre me disseram 
que era bonita, mas o nico efeito deste facto foi tratarem-me cono se eu 
no fosse um ser humano, Toda a minha vida decorreu em tentativas para 
conseguir um lugar ao lado dos outros para poder ter a certeza de que no 
deixava de participar na vida em todos os seus aspectos. O meu 
ressentimento resultou por me ver excluda das regras comuns da vida, das 
regras habituais. Em pequena, se fazia maldades, no me castigavam. Se 
perguntava porque no me castigavam, consideravam que era normalmente boa 
ou muito conscienciosa. Ora, a verdade  que eu s queria as 
consequncias que a minha conduta atrasse e merecesse. Nos tempos de 
rapariga ingnua e inexperiente nunca os erros que cometi me trouxeram 
dissabores. Esperava encontrar a realidade, pelo menos, no casamento. 
Viver com um homem, pensava, mostrar-me-ia a tragdia da vida, a luta 
pela existncia na qual sempre supomos representar um papel importante. 
Talvez tivesse sentido isso se o casamento me tornasse numa infeliz. Mas, 
da em diante, estava mais protegida do que nunca, e praticamente livre 
para toda a vida. Continuava a aborrecer-me com os galanteios dirigidos  
minha beleza, porque constituam sempre a razo pela qual me roubavam 
tudo o que mais desejava. Compreendi ento a verdade profunda de se dizer 
que abeleza  uma maldio. Sem espinhos, a vida  hbito sensaborao e 
vazio. Dei-me a Pris porque o amava, mas tambm estava secretamente 
esperanada que o nosso amor traria, na devida altura, a grande tragdia 
com que, finalmente, havia de viver e de sofrer. Mas os dias que passei 
em Tria pareciam feitos de segundos de um sonho. Ningum me tomou a 
srio. Pramo nem to pouco me censurou por ser a causa da runa da 
cidade. E Heitor que,  luz dos princpios gerais, desaprovara o meu caso 
com Pris, tambm nada me disse. Quando o fim se aproximava, pensei 
ento: os deuses querem, afinal, que viva para morrer s mos de Menelau. 
O teu pai nunca compreender o que se passou no meu esprito quando vi a 
ira que trazia estampada no rosto comear a transformar-se naquela 
expresso acolhedora que costuma ter. No porque me perdoasse, mas porque 
neste mundo me considerara como uma espcie de fantasma, diferente das 
outras pessoas. Quando Menelau pensa em mim e em Pris, e eu no estou na 
su


JOHN ERSKINE
110
presena, deve sentir-se um assassino. Mas se estou presente na altura em 
que se lembra fica, como poderei dizer, fica simplesmente amuado, 
aborrecido. Hermone, amo tanto a vida e quero que a comeces a viver 
cedo, porque nunca me foi permitido viver. Na minha nsia de encontrar a 
verdade, aprendi a estribar-me na mais rgida honestidade e a usar de 
completa franqueza para os outros, mesmo a respeito de mim prpria.  a 
minha nica esperana. Quando pretendeste limpar a minha reputao, 
dizendo que estava no Egipto e nunca tinha ido a Tria, no vs o que me 
roubavas? Para toda a gente a dissimulao  sempre um biombo entre a 
vida e os nossos pensamentos mais ntimos. Para mim pode ser 
perigosssima. Quero estar o mais longe possvel dessa gente pseudo-
respeitvel, cuja nica respeitabilidade  o medo que tm de viver.
- Em todo o caso, eu no sou assim to bonita - disse Her~ mone -, que 
tenha de seguir os teus mtodos para travar conhecimento com a dor e a 
luta pela vida. julgo que  o que pretendes. Alis, esta conversa tem 
alguma coisa a ver com a escolha do meu marido? _ Observaste muito bem - 
disse Helena -, que os meus conselhos diferiam da minha conduta. Agora 
voltemos aos conselhos ou, melhor, s razes que apresentas para no 
poderes gostar de Pirro. Quanto a Orestes ser o teu destino, j sabes a 
minha opinio. Quanto a afirmares que Pirro  um bruto, no te compreendi 
bem. Que querias dizer com isso? Preferes Orestes apenas porque no andou 
na guerra? ~ Oh, no - respondeu Hermone. - Queria apenas lembrar que 
Pirro matou Polixena depois da guerra. Sim, bem sei que h uma histria 
que diz que Pirro foi obrigado a oferec-la em sacrifcio sobre o tmulo 
do pai por uma qualquer boa razo. Sim, eu sei disso, mas  um tipo de 
costumes que pertence a
outra poca, que nem eu nem Orestes admiramos. Qualquer explicao que 
arranjes no prova que no passou de um puro assassinato, tal como o 
sacrifcio de Ifignia quando pretendiam ventos propcios para chegarem a 
Tria. Quando imagino o teu heri, homem valente e vigoroso, que tanto 
elogias, a agarrar na frgil rapariga, a dobr-la sobre o tmulo do seu 
respeitvel pai e a cortar-lhe o pescoo de um s golpe, como se faz aos 
animais, odeio-o, e odeio tudo quanto lhe diz respeito. Achas que poderia
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                       111
am-lo e entregar-me nos seus braos? Pensaria sempre na outra rapariga e 
viveria num sobressalto constante, aguardando que lhe apetecesse fazer 
tambm de mim uma piedosa oferenda. Alm disso, Pirro tambm matou 
Pramo, nos ltimos instantes, quando o pobre velho desesperado tentava 
ainda combater. Um pobre velho, j tonto e dbil, incapaz de fazer mal a 
uma mosca! Sim, continuo convencida, Pirro  um bruto. Gostava de queimar 
as pessoas e cort-las aos bocados. No foi ele quem certa vez matou uma 
rapariga, a Amazona? Enterrou a espada, direitinha, no peito da infeliz.
- Pensei muitas vezes nessas mortes e com o mesmo horror que mostras 
agora. Embora haja um pouco de crueldade em tudo isso, custa a distinguir 
com clareza quando so ou no justos. Dizes que no consegues suportar 
sequer a ideia de se matar uma rapariga como se mata um animal sobre os 
altares?
- Evidentemente que no!
- Mas no te opes ao sacrifcio de animais!
- E porqu opor-me?  uma cerimnia tradicional.  para o ritual que os 
animais servem.
- Mas suponho que certas pessoas estremecem de pavor quando imaginam a 
faca a cortar as goelas do pobre carneiro. De qualquer forma, a nossa 
religio  bastante sangrenta, no achas? ~ Adivinho o percurso da 
argumentao - atalhou Hermone.
- Queres que diga que os sacrifcios no so sangrentos e, depois, como 
Pirro praticou uma cerimnia religiosa, provars que no  nem 
sanguinrio nem brutal. Pois, muito bem, acho realmente a nossa religio 
muito brbara. J a devamos ter suplantado, como passmos a fase dos 
sacrifcios humanos.
- Muitas pessoas sentem o mesmo, mas quando matamos um carneiro para o 
jantar, comes e no dizes nada. Se consideras a carne para a mesa como um 
costume canibalstico, trata de encobrir a tua opinio.
- Que coisa tola, me! Claro que comemos carne. E porque no?
- O carneiro  que devia ter argumento contra isso. Eu no tenho nenhum 
argumento. S tentava saber at que ponto estavas  vontade para julgares 
aquilo a que chamas assassnios. Julgo compreender. O animal aberto para 
fins religiosos merece a tua  -

112
JOHN ERSKINE
piedade; o que  servido  mesa, para tu comeres, mais no faz do que 
cumprir o destino, como qualquer outra coisa.
- Desisto de te acompanhar quando comeas com gracejos. Que queres que 
conclua? Aprovar os sacrifcios humanos? Achas justa a morte daquelas 
duas raparigas?
- Por mim no as matava - disse Helena. - No entanto, em tempo de guerra 
sacrifica-se homens e mulheres, num sentido absolutamente religioso, para 
cumprimento dos fins divinos que a prpria guerra serve, segundo julgam 
os povos. Se serem sacrificados  bom ou mau para eles, no sei. Ningum 
sabe. Mas pouca gente se ope. Se consideramos justo o sacrifcio de 
gente na guerra, no sei com que armas combateremos o sacrifcio dos 
altares. Chorar a morte dessas raparigas e lamentar apenas que no 
vivessem mais alguns anos. Quem sabe como seriam esses anos? Se passassem 
desprovidos de acontecimentos na vida interior, se no fossem mais do que 
um certo nmero de respiraes, de refeies comidas e de noites 
dormidas, sem nenhum sentido de viver, ento talvez tivesse sido melhor 
para elas concentrar muitas emoes profundas e fortes vividas em poucas 
horas. No penses que sou contra as tuas tendncias humanas, Hermone. 
Estou a pensar nas duas raparigas de que me falaste, sacrificadas 
barbaramente, e a compar-las comigo, que perdi todas as alegrias e 
entusiasmos da vida, como acabei de te explicar.
- No me queres convencer - disse Hermone -, que preferias que Menelau 
te matasse?
- Na altura fiquei desapontada - volveu Helena. - No, no queria morrer, 
mas esperava, pelo menos, conhecer os horrores da vida quando o teu pai, 
ento, se encheu de humanidade, como calculas, e eu fiquei com a certeza 
que da para a frente no haveria nada mais seno anos, mais vazios do 
que nunca de acontecimentos, e uma velhice a pesar nos nossos coraes 
entristecidos. A no ser que encontrasse a felicidade de te guiar para 
uma ver dadeira vida. j te disse isto e considero intil repeti-lo: se 
tivesses
o meu amor pela vida, ou ainda maior por ter sido contrariado, havias de 
ter recebido Pirro, temerrio e brutal, como parece, em vez desse teu 
prudente, inofensivo e recatado primo.
-  Tu, tu  que devias. Eu no, no quero - disse Hermone- -
No s pelos assassnios, mas por outras coisas. Pirro levou para casa 
mulheres conquistadas ou compradas como escravas e tem a
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                        113
ideia antiga dos direitos de heri sobre a presa capturada. Dizem que 
Agammnon levou Cassandra para casa e tu prpria disseste que temias os 
cimes de Clitemenestra. Claro que teria cimes, apesar de estar certa de 
que Cassandra nada significa para o meu tio. Orestes tem a certeza. Mas 
Pirro vive com Andrmaca, viva de Heitor e, provavelmente, com as outras 
mulheres que ganhou em Tria. A est o tipo de heri que ele : um bruto 
e fora de moda. Orestes pensa nestas coisas como eu e julgo que a maior 
parte das pessoas do nosso tempo pensa do mesmo modo. No imaginava, 
enquanto no comeaste a falar-me de Pirro, que vivesses com algumas 
noes to antiquadas e to convencionais. Estou a ver-me como 
complemento do seu vasto rebanho de mulheres, e a imaginar os meus filhos 
a brincarem alegremente com os de Andrmaca no quintal.
- Tens outra vez razo - disse Helena -, mas apenas em parte. A outra 
parte, porm, que tu no vs  a essencial. Hesito em responder-te agora 
Hermione, porque, apesar de ser bastante franca em qualquer assunto, h 
aspectos de que preferiria no falar, a no ser que servisse para alguma 
coisa a minha conversa. Discutimos este caso provavelmente pela ltima 
vez. j te aconselhei como podia e j te contei tudo o que sabia. Ou 
quase, pelo menos. Vou contar-te o resto. Havias de gostar de possuir um 
homem s teu.  a ambio de todas as mulheres apaixonadas, e os homens 
sentem exactamente o mesmo em relao s mulheres. O amor sempre foi 
desptico. Tu, porm, vais mais longe, tal como notei noutros rapazes e 
raparigas da tua gerao, e pretendes que o teu homem nunca tivesse 
pensado noutra mulher. Calculo que Orestes nunca confiaria em mulher j 
marcada por outros amores. Muito bem, essas manias no passam de um 
disparate. Se o mundo se guiasse por tal filosofia, quantas misrias e 
infortnios no cairiam sobre quem se atrevesse a amar? Hipocrisias de 
todos os calibres, taras e obscuros segredos guardados tenebrosamente. 
Criaste a noo de companheiros feitos um para o outro, da maneira mais 
tola.  claro que, quando dois seres se amam, isto , enquanto se amam,
O resto do mundo no existe para eles. Nesse sentido, sim, deves ter o 
teu homem s para ti. Detestaria ver-te casar com Pirro, se no o amasses 
apaixonadamente, e ele a ti. Mas deixa-me dizer-te isto, Hermone, o 
homem que maior felicidade nos pode dar, o que Pode tornar uma mulher 
mais feliz,  aquele que amou outras

114
JOHN ERSKINE
mulheres, que viveu mesmo com algumas delas - como , segundo parece, o 
caso de Pirro - e que, finalmente, resolve dedicar todo o
seu amor a uma nica mulher. Defendes a teoria de que o melhor
esposo ser o homem que nunca tenha amado antes. A teoria 
errada. Esse gnero de homens, como compreenders mais tarde,  incapaz 
de amar muito seja quem for. Se calhar achas esta filo-
sofia imoral?
- Acho  - respondeu Hermone.
2*
-Eeu tambm - apoiou Menelau. - Ouvi a ltima parte do teu discurso 
quando vinha a entrar na sala. Parei atrs da porta, porque no queria 
interromper. Que espcie de puerilidades andas a
ensinar  criana, Helena?
- So verdades, no so inutilidades ~ respondeu Helena. -
No fui eu que fiz o mundo.
- Grande parte da tua conversa sobre o amor pela vida de h
pouco quase me escapou, mas parece-me que comeo a compreen-
der, agora. Ento tu achas a minha lealdade para contigo eferni~ nada, 
uma evidncia de fraqueza? Admiras homens como Aquiles e o seu precioso 
filho! Deixa-me que te diga, querida esposa, se eu
te tivesse amado como so amadas as mulheres deles, j no andarias aqui 
por estas horas. Naquela noite, em Tria, ter-te-ia cortado o pescoo!
- Ora aqui tens, Hermone - disse Helena. - No te dizia? Comeas a 
compreender-me, Menelau, e com o tempo tambm eu
te compreendo melhor. Tu no prendeste a mulher que amavas com paixo; 
tomaste conta de mim e cuidaste-me como um objecto
de arte!
- No sei porque te prendi em vez de te matar, mas, qualquer que seja a 
razo, tu no merecias a generosidade, visto no a
apreciares. Assim que volto costas, planeias e intrigas para levar sempre 
a tua vontade avante. No se pode confiar em ti. Combinmos convidar 
Pirro e deixar Hermone escolher  vontade, no foi? No momento exacto em 
que sabes que ando absorvido com
outras preocupaes, afastas a tua filha e procuras adiantar e resolver
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
115
a questo sem nada me comunicares. Felizmente que a pequena no  fcil 
de convencer. Pelo que ouvi, deve ser muito tentadora essa perspectiva 
que andas a oferecer de um marido que se dedicasse  poligamia durante 
toda a vida. Hermone, minha filha, acredita nisto que te digo, a tua me 
conhece a receita da aventura, mas no conhece a da segurana.
- Como sempre, faltaste ao principal - disse Helena. - O que ouvistq no 
visava directamente Pirro, nem procurava defender o
rapaz nas tuas costas. Tudo o que disse pode interpretar-se a favor dele, 
 certo, mas se chegasses mais cedo verificarias que Hermione interpreta 
tudo de forma diferente. Tentava ensinar  nossa filha algumas verdades 
que ela deve saber sobre a vida; coisas que naturalmente no lhe irs tu 
ensinar. Enquanto puder, continuarei a compartilhar com ela a minha pouca 
sabedoria, quer estejas presente quer no. Sers sempre bem-vindo, mas 
duvido que te interesses pela conversa. Quando toco nos mesmos assuntos, 
nunca me prestas ateno. Quanto a Hermone, tambm no jurava que 
aproveitasse alguma coisa do que lhe tenho dito.
- Na minha opinio - respondeu Menelau -, pelo pouco que ouvi, nada de 
aproveitvel lhe disseste. Conclui-se da tua argumentao, com certeza e 
como sempre, que desejavas que ela fosse mais feliz do que tem sido. E 
como as tuas indicaes para a escolha do marido perfeito nada encerram 
que me possa corresponder, suponho que a esclareceste bem que no 
alcanaste a felicidade com o casamento como aconteceria se tivesses 
casado com Aquiles ou com Pirro. Achas que a melhor maneira de 
conversares com a tua filha  sobre o teu marido? Diz-me, Helena, ainda 
conservas alguma noo do que  prprio, do que  decente e justo?
- Meu querido Menelau, Hermone sabe muitssimo bem que no temos sido 
felizes. S falta explicar-lhe porqu. Parecia-te de bom gosto da minha 
parte mostrar uma pretensa felicidade, depois de te deixar por tantos 
anos e de ter que voltar  fora para casa? No  mais razovel supor que 
Hermone, que herdou a tua subtileza de esprito, compreende 
perfeitamente que h uma barreira entre ns? H momentos, Menelau, em que 
me parece que tu prprio te decidiste a encarar a vida como ela .
- H momentos, Helena... - aproveitou Menelau. - Sabes? E este  um 
deles[ Manifestaste a tua admirao por maridos violentos, de mo leve 
vrias vezes. Parece-me que gostaria d


116
JOHN ERSKINE
representar esse papel. Sustentarei a combinao sobre Pirro. Vir. 
Receb-lo-ei. No se falar em casamento. Quando se for embora, Hermone 
casa com Orestes. E nunca mais quero ouvir falar no assunto.
- ptimo - disse Helena. - Essa  praticamente a minha vontade. Pensava 
dar a Hermone a liberdade da escolha de um marido depois de ter visto 
Pirro. Calculo que, de qualquer modo, querer casar com Orestes, e assim 
a tua fria paternal no a molestar. Se por milagre mudar de ideias e 
gostar mais de Pirro, compreendo perfeitamente que queiras obrig-la, por 
todos os meios, a ir com Orestes. Muito bem. Mas, claro, trata-se de um 
pai violento e no de um marido violento.
- Presumo que Hermone deseja casar com Orestes - respondeu Menelau. - 
Sabe perfeitamente que no tenho o direito de a instigar a um casamento 
que no quer fazer.
- Oh, l ests tu, Menelau - disse Helena. - Sabia que no te conterias, 
mas sempre pensei que poderias ser feroz por mais de trs segundos. 
Porque no fincas o p e dizes firmemente com quem  que Hermone casa? 
Diz-lhe que te obedea e nem mais uma palavra sobre o assunto. Manda-me 
calar, v! Porque no o fazes?
- As tuas ironias no me perturbam. J finquei os ps no cho, como 
vers. Hermone vai casar com Orestes. Com Pirro serei cor~ ts, e mais 
nada. No gosto dele, tal como no gostava do pai. E como ambicionavas 
casar com um ou com ambos, ainda os tolero menos. Enquanto Pirro c 
estiver, ters de te conservar recolhida, excepto s refeies e nos 
outros momentos que eu especificar. Se desobedeceres fechar-te-ei no teu 
quarto com um guarda  porta. Pirro pouco se admirar, conhece a tua 
histria.
- Menelau - disse Helena -, quando comeas a actuar, segundo o que julgas 
ser um homem forte, fico cheia de pena de ti. Tenho realmente pena. Tu e 
o teu irmo discutiram sempre com Aqules. Como sabias que era maior do 
que tu, procuravas sempre processos para o aborrecer. Agora, depois de 
convidares Pirro para nossa
casa a meu pedido e para fins que ns os trs compreendemos e incluo 
Hermone nisto, preparas-te para lhe expores a nossa vida infeliz. Creio 
que vais repetir algumas das delicadas maneiras que costumas usar em 
famlia. Vejo perfeitamente que a visita do rapaz vai ser cheia de 
surpresas, mas, de um modo geral, calculo que ele
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                        117 v deleitar-
se COM isso, percebendo que pes em evidncia a superioridade que lhe 
atribuis e a baixeza que para ti reservas. Tens toda a razo. Se tiver 
que vos comparar, no que toca  inteligncia, maneiras, aparncia, porte, 
etc., melhor ser encarcerares-me. Deixa que Hermone o veja, que era o 
que eu pretendia em pri~ meiro lugar. Alm disso, na tua presena, 
prefiro no falar com ele. Causar-me-ias muita vergonha, Menelau. No 
poderia explicar-lhe porque casei contigo e porque voltei para casa. Ou 
seja, eu podia explicar-lho, certamente, se alguma vez tocssemos no 
assunto, mas faria m figura, estando a apreciar-te diante de um hspede.
- Porque casaste ento comigo? Porque voltaste para casa?
- Enganei-me - respondeu Helena.
- Quando penso - interveio Hermone -, que tudo isto ocorreu por causa da 
minha felicidade, sinto-me seriamente envergonhada. Como podem supor que 
aproveite alguma coisa com a visita de Pirro, quando sei o que pensam 
dele e de cada um de vs? Se isso  a preparao da escolha do meu bom 
casamento, parece-me que era prefervel menos confuso, eu escolher mal, 
e no se falar mais nisto.
- Tens toda a razo, Hermone - disse Helena. -  intil a vinda de 
Pirro. Lamento que a sugesto partisse de mim. A intenao era boa, mas o 
teu pai interpreta mal tudo o que parte de mim, e, alm disso, a sua 
atitude mental  muito perigosa para que possamos receber decentemente 
qualquer hspede. Tinha as melhores intenes. Dou o meu consentimento 
para o teu casamento com Orestes. No levantarei mais objeces, nem 
diante de ti, nem quando estiveres ausente. S te peo um ltimo favor: 
que anules o convite. Manda dizer a Pirro que Agammnon voltou e que a 
necessidade de regular certos negcios com ele te obriga a adiar o prazer 
de o recebermos.
- No julgues que te esquivas com tanta facilidade - atalhou Menelau. - 
Vejo perfeitamente onde queres chegar. Como era eu que falava com Pirro, 
preferes, em vez de ele partir pelo mundo cheio de entusiasmo a contar a 
verdade sobre as nossas relaes, afast-lo e evitar que venha c a casa. 
Mas no. Pirro vir, se  que eu ainda mando alguma coisa. Por pouca 
importncia que ds  liberdade de que ainda gozas, intimo-te a no 
intervires de nOvo a favor de Orestes. E, na primeira oportunidade, 
Hermone casar com o primo.

118                    JOHN ERSKINIE Pai - exclamou Hermone. - Gostava 
que fizesses o que a
me diz, no tragas Pirro c a casa. Agora ningum deseja a sua
visita e, com certeza, cometes uma injustia em relao  me. Falou 
melhor para que haja paz na nossa famlia. Por ela creio
que no se importaria que a encarcerasses e tudo o mais: era uma
maneira de alcanar o tal tipo de excitao pelo qual suspira. Neste
momento, porm, pensa em mim, em todos ns, e o seu conselho
 o mais ajuizado. No quero aqui esse homem. -me a convid-lo,
- Lamento, mas j  muito tarde. Obrigaram         . 1 embora o desejasse 
menos do que tu, Hermone. Agora vira.
- Menelau! - tornou Helena. - No sei se ters o direito de convidar 
Pirro neste momento, depois destas violentas discusses
e das emoes que a famlia vive actualmente. Pode surgir alguma 
indelicadeza que o ofenda e julgar que pretendes continuar a inimizade 
que tinhas pelo seu pai.  uma opinio natural, e o teu
prestgio sofreria bastante.
- No te preocupes com o meu prestgio. Eu tratarei dele
- disse Menelau. - Sabes demais para te ocupares da maneira corno devo 
defender o meu bom nome. Donde te vem essa preocupao?
- s indelicado e perdeste a calma. Vejo com mgoa que a
tua sensatez te abandonou. Lembro-te apenas que um mal-entendido com 
Pirro levantaria, entre os nossos amigos, o problema de saber se haveria 
ou no circunstncias atenuantes para outros hs-
pedes que em tempo tivessem vindo a tua casa, e no pudessem entender-se 
contigo. Mesmo o caso de Pris seria falado e muitos perguntariam o que 
lhe terias feito para causar to grande tragdia. Precisavas de trazer um 
convidado que chegasse como hspede e te deixasse como amigo. l que no 
podemos contar com
tal fim nesta visita, peo-te encarecidamente que no mandes vir
Pirro numa altura destas.
- A minha nica negligncia no caso de Pris foi no desconfiar de ti 
quando no te vigiava. No a cometerei de novo. Pouco me importa que 
Pirro me deixe como amigo. O que te garanto  que sair desta casa 
sozinho. No levar Hermone, nem te levar a ti. Se te portares 
convenientemente tambm no surgiro comtendas com ele.
- Ento manda-o vir mais tarde. Se vier nos dias ou, mesmo, nas semanas 
mais prximas, pode chegar exactamente na altura
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
119
em que deves partir para junto do teu irmo. Supe que Agamnon te manda 
chamar  pressa. Vais responder-lhe que gostarias muito de o auxiliar, 
mas que no podes ir para vigiar um hspede em que no ousas confiar? Se 
Agammnon te chamar, sers obrigado a partir. Nunca te perdoarias a ti 
prprio se no o fizesses. Na verdade, eu no gostaria nada de aqui ficar 
sozinha com um hspede, conhecendo previamente as tuas suspeitas cu~ 
mentas interminveis. Convm que te conserves livre para qual~ quer 
emergncia.
- O meu irmo no deve precisar de mim. Quanto mais penso no assunto, 
mais se me radica no esprito esta certeza. Ele chega para ajustar contas 
com Egisto e, mesmo que no chegasse, Orestes, que vai a caminho, 
auxili-lo-.
- Orestes vai por que caminho? - perguntou Hermone. -
Como soubeste isso?
- Ora, Eteoneu comunicou com ele e emprestou-lhe algumas das minhas 
armas. Partiu h pouco para auxiliar o pai, se for necessrio.
- Oh, porque no partiste tu em auxlio de Agammnon? -
gritou Hermone. - Podias auxiliar melhor, porque s forte e tens 
experincia, enquanto Orestes apenas...
- Se Orestes te agrada para casares com ele - disse Helena no  
apenas,  um homem a valer. Devia ir para junto do pai. L estar no 
lugar que lhe compete.
- Devo dizer que  assim mesmo - afirmou Menelau -, posto que sempre 
pensasse em tambm ir. Todavia, mandei um mensageiro a ver se Agamnon 
precisa de mim. Se precisar, partirei. Entretanto, creio que chegou a 
altura de avaliarmos a tmpera de que Orestes  feito. A forma como 
proceder agora elucidar mais a seu respeito do que todas as conversas 
com a tua me e comigo... No entanto, o meu primeiro impulso foi partir, 
e a tua pergunta leva-me a considerar se no teria razo. No me agrada 
utilizar o perigo que corre o meu irmo para experimentar a coragem do 
filho. Se seguisse os meus impulsos l estaria agora, mas a tua me 
aconselhou-me a ficar.
- Eu aconselhei - disse Helena -, mas ningum te obriga a seguires os 
meus conselhos, se no os aprecias. Seguindo-os, fiquei a avaliar~te com 
um pouco menos de considerao. Aquiles no Inanifestaria tanta prudncia 
e tenho a certeza de que Pirro tam-

120
JOHN ERSKINE
bm no. Aconselhei-te para tua segurana, mostrando-te o perigo
e o possvel ridculo, mas o que conta tudo isso para um homem
que ama o irmo e que zela pela su@ vida? Garanti-te que parecerias tolo 
a marchar  frente das tuas tropas se encontrasses
e Clitemenestra reconciliados. Para outro homem Agammnon. que no tu, os 
meus argumentos no apagariam a imagem da maneira entusistica como 
receberiam as tuas tropas se a contenda ainda durasse. No, Menelau, tens 
pontos fortes, mas no podes representar o papel do homem forte. 
Encaraste duas crises na tua
vida; uma, quando fugi com Pris; a outra, quando soubeste que um grande 
perigo esperava o teu irmo quando voltasse para casa.  >1
No foste imparcial em nenhuma delas. Todos os amigos e vizi-
nhos se apressaram a sacrificar-se e a ajudar-te em Tria e, agora, 
declinas a tua responsabilidade em Orestes. No primeiro episdio podes 
alegar algumas desculpas, mas agora no vejo como possas perdoar-te a ti 
prprio. O teu irmo pode correr perigo de vida exactamente no momento em 
que tu, comodamente, andas em casa,
escondido atrs das portas, a ouvir o que a tua mulher diz  tua filha. 
Acontece que a tua mulher procura convencer a tua filha a
casar, se puder, com um homem forte, um homem a valer, e tu
encolerizas-te com evidente traio, ameaando sequestrar a tua
mulher se alguma vez entrar nesta casa um homem desse tipo.  essa a 
figura que acabas de fazer diante de Hermone. Conseguiste o que eu nunca 
conseguira: explicar-lhe porque razo no alcancei nunca uma vida como 
ela deseja. Lamento-te de todo o
meu corao, Menelau. Olho para ti e penso no homem que uma
vez amei, e no carcter a que nunca te quiseste moldar. Nenhuma mulher te 
atraioaria mais do que tu prprio tens atraioado as tuas 
possibilidades. Em vez de procederes com grandiosidade, passas os dias a 
dizer que eras grandioso e a exigir o respeito que devias ter merecido. 
Sofres da mania da perseguio. O que eu dizia a Hermone devia afastar-
te para bem longe da porta, envergonhado. Se fosses homem bastante para 
me matar em Tria, tambm nunca teria fugido com Pris.  esta a 
verdadeira histria da tua e da minha vida. Se no procuravas aquele 
momento para te vingares, tambm no te assistia o direito de envolveres 
tanta gente num conflito para arruinar Tria. Perdoavas-me com mais 
facilidade. Quando falo de homens fortes no penso apenas na
fora fsica. Podias mostrar-te muito forte com a minha fuga sem,
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
121
contudo, levantares um dedo; isto , se te dispusesses a servir-te da 
inteligncia, e se tivesses uma inteligncia  altura. No me custa nada 
imaginar um certo tipo de homem que, na tua situao, imediatamente diria 
que subornara Pris para me raptar, e para se ver livre de uma mulher 
intolervel; que se obrigara a pagar-lhe bem; que se fora embora de 
propsito para facilitar, e que a moblia no fora roubada, era a que 
havia a mais e servira apenas de pretexto. Uma declarao destas abalaria 
Pris e suponho que acabaria comigo. Serias simplesmente obrigado a 
deixar-me para sempre. E no o podes fazer, pois no, Menelau? Desejavas 
marcar-me a ferro e fogo, como a um escravo e, ao mesmo tempo, 
recuperares-me como tua mulher. Tenho d de ti. j  muito tarde para 
comeares a representar o papel do heri violento. Lembra-te simplesmente 
das fraquezas passadas e tentars expiar por ti prprio o remorso de me 
importunares, e de escutares atrs das portas, e de te opores a tudo o 
que sugiro para o bem estar de Hermone. Quer tivesse gostado de Aquiles, 
quer no, no podes proceder honestamente com a sua memria e reconhecer 
uma grande diferena entre vocs os dois? No podes reconhecer que o seu 
procedimento em Tria foi desinteressado at ao dia em que tu e Agammnon 
arranjaram um conflito com ele? Claro, Aquiles era assim porque tinha 
nervo. No surpreende nada que eu o admire. O trgico, o terrvel  tu 
no o admirares tambm.
- Ento achas que devo ir ter com Agammnon? - perguntou Menelau.
- Aconselhei-te a que no fosses.
- Mas porqu?
- Lembras-te muito bem:  perigoso ir e h a possibilidade de te cobrires 
de ridculo.
- Achas que Aquiles ou outro tipo semelhante iria, mesmo que o 
aconselhassem a fazer o contrrio?
- H certas coisas, Menelau, em que no nos podemos guiar seno por ns 
prprios. Nenhuma mulher poderia aconselhar Aquiles sobre os perigos, 
porque ele nunca o admitiria. E, tambm, nunca ocorreria a Aquiles, nem a 
mais ningum, que pudesse ser ridculo.
- Vou ter com o meu irmo. Nunca  tarde para se mostrar nervo, como tu 
dizes.


122
JOHN ERSKINE
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
123
Est ali algum  porta - disse Hermone.  porta? Quem ? Entre - 
ordenou Menelau. - Ah, s tu, Eteoneu? Porque no bateste? isto  uma 
conversa privada e eu
detesto gente que ande a escutar s portas.

- Hesitei em entrar - disse Eteoneu -, porque nem tinha vontade de vir.
- De que se trata? - perguntou Menelau.
- Chegaram notcias e custa-me diz-las.
- Diz, Eteoneu - pediu Helena. - No nos faas esperar. Podemos ouvir 
notcias boas e ms.
- Mataram Agammnon!
- Menelau! - gritou Helena, indo para junto do marido.
Meu irmo morto! - repetiu Menelau. No queria dizer-vos - afirmou 
Eteoneu. Quem... Como  que ele morreu? - perguntou Menelau. Assassinado. 
Assassinado por Egisto! Nunca!  falso! Egsto no resistiria nem um 
minuto a utar com o meu irmo num combate leal.
- De facto no. Mas no houve luta leal. Agammnon entrou
em casa, como nos disse o negociante e, julgando-se seguro, despiu a 
armadura e pendurou a espada. Eles aproveitaram a oportunidade e mataram-
no.
- Eles? Eles quem? - gritou Helena.
- j disse o quanto me custava vir contar isto. Se me pudesse fazer 
substituir no teria sado l de fora do porto.
- Mas conta-nos tudo - ordenou Menelau. - Quem matou o
meu irmo?
- Creio que a maior responsabilidade pertence a Egisto, por quem Orestes 
procura neste momento.  possvel at que j lhe esteja a fazer pagar 
cara a proeza. O mensageiro afirma que Clitemenestra est implicada no 
caso.
- Minha irm, a minha irm! Eu sabia! - gritou Helena.
- Sabias o qu? - perguntou Menelau.
- Sabia; o meu corao dizia-me que ela o assassinaria, mais tarde ou 
mais cedo. Ela  que o matou e no Egisto. Eteoneu procura poupar-me, mas 
no me engana, tenho a certeza.
- Helena - disse Menelau -, atravessamos os dois momentos difceis e 
tenho-te dito algumas coisas duras, mas no creio uma irm tua capaz de 
tal monstruosidade. No o posso crer de uma pessoa to chegada a ns, e 
do teu sangue. Um crime como este  exactamente o tipo de baixeza de que 
s um cobarde como Egisto seria capaz. Se Clitemenestra representasse o 
papel principal, o assassinato seria ousado, dramtico. Vejo-a a mat-lo 
frente a frente e a vangloriar-se da faanha, mas nunca a armar esta 
cobarde armadilha. Meu irmo! Bem dizia ele que nunca mais nos tomaramos 
a ver!
- Acho razo no que diz o meu pai - afirmou Hermone. -
A minha tia tem um temperamento sempre terrvel, mas, diz Orestes, 
zangada como estava com Agammnon, era uma verdadeira fria. O 
assassinato  traio no se ajustaria ao seu feitio. Nunca encobriria a 
justia da causa que a moveu. Se pensasse matar Agammnon arranjaria uma 
execuo em pblico. Considerava-o assassino da filha (e foi, no  
verdade?). Apunhal-lo pelas costas s a desgraaria.
- Sempre notei qualquer coisa no carcter de Clitemenestra que nunca 
compreendi e que nunca me agradou - disse Helena. -
Mostrava-se bastante sentimental, aparentemente branda at, mas
sempre pensei, com desagradvel convico, que era desumana. Dava tudo 
para saber se assassinou ou no Agammnon, mas
penso que sim. - Se se atrevesse - opinou Menelau -, o povo mat-la-ia 
tambm para se vingar. O meu irmo nunca gozou do que se chama 
popularidade, mas contava com grande dedicao dos soldados, que, numa 
altura dessas, deviam estar a seu lado. Parece-me mais do que claro: 
Egisto cometeu a traio e agora corre o boato da cumplicidade de 
Clitemenestra, por causa da vida impropria que levava com o amante. O 
povo naturalmente pensa que ela planeou tudo.
- H tambm outra coisa - disse Hermone. - Clitemenestra no ignora que 
este crime ser vingado. Orestes infligir um
castigo terrvel a Egisto, mas, se ela estiver implicada no caso, puni-
la- tambm. Enfim, punir todos os criminosos. Clitemenestra sabe at 
onde ir esta vingana.


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JOHN ERSKINE
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
125
- Orestes no mataria a me - disse Menelau. - Alis, concordo com os 
teus argumentos. Helerr deprecia injustamente a
irm... Eteoneu, o mensageiro deu mais pormenores?
- No disse ainda nenhuns pormenores. Apresentei apenas
um resumo.
- Ento h mais? - perguntou Helena.
- H pormenores - respondeu Eteoneu. - O mensageiro diz que Agammnon 
entrou em casa tal como o mercador relatou. Um momento depois o povo 
debandava, porque no se passava nada. Porm, Cliternenestra saiu de 
casa, chamou o povo, e fez-
-lhe um discurso. Disse que prezava tanto as boas relaes com os 
vizinhos que gostava de os tornar confidentes de tudo: acabara de matar o 
marido. Eles naturalmente sabiam que vivera com Egisto e que se 
consideravam como marido e mulher aos
olhos dos deuses, se por acaso os deuses disso se aperceberam. Agammnon 
no regressava melhor, com certeza. Esperava que no voltasse, porque lhe 
matara a filha e ela estava solenemente ligada  piedosa obrigao de 
matar o assassino da sua filha. Desejava que se compreendesse que matara 
Agammnon para vingar Ifignia, e no para continuar a viver com Egisto. 
Alis, este amor
nascera naturalmente, sim, mas tambm como consequncia indirecta do 
procedimento de Agammnon. Reconheceu que o dever de vingar a filha se 
complicara por ser o assassino o esposo legtimo que, em tempos, amara. 
Confessou que se lhe dissiparam os ltimos escrpulos diante da forma 
descarada como ele voltara para casa, trazendo Cassandra como sua 
concubina. Contou,
depois, que o atrara a um quarto retirado da casa, que o convidara a 
descansar e que o matara quando ele se despojara das armas.
Num rasgo de cime, que lamentava, matara tambm Cassandra.  claro, 
disse ela ainda, que achava este segundo assassnio desnecessrio, mas 
no se pode pensar em tudo ao mesmo tempo. Desejava que todos soubessem, 
em primeiro lugar, que s ela matara Agammnon, sem o auxlio de ningum 
e, em segundo lugar, que muito se orgulhava da forma como procedera e a 
ningum pedia desculpas. Receberia agora Egisto como seu segundo marido 
legtimo. No aceitara nenhum auxilio seu na morte          de Agamnon 
porque, afinal, o assunto dizia respeito  filha e no
 sua vida amorosa. Egisto estava, pois, absolutamente inocentee se  
houvesse algum culpado, seria ela. Todavia, parecia-lhe q
este episdio liquidava culpas antigas em vez de criar culpas novas.
O mensageiro considerou este um discurso feito a srio e o povo recebeu-o 
bem, no incio. Porm, comeou a reconsiderar, e com a suspeita de que 
ela tentava encobrir Egisto e deitar sobre si as culpas para no haver 
vinganas. O mensageiro diz que Orestes ter o povo a seu lado se 
conseguir matar Egisto. Se falhar o golpe, passaro possivelmente para o 
lado de Clitemenestra.
- Pois claro - disse Helena. - No h dvida nenhuma de que foi ela quem 
planeou tudo, mesmo o discurso, e h muito tempo, certamente. No costuma 
deixar nada ao acaso. Assassinou-o. Alegra-me que, ao menos, no 
mentisse.
- Ainda no posso acreditar - tomou Menelau. - Porque  ainda pior do que 
eu pensava!
- Concordo - disse Helena. - Mas estava preparada para tudo. Lamento a 
situao por ti e por mim, Menelau. Sofro como se tivesse que cair sobre 
mim o castigo das ms aces da famlia. Se ela apenas desejasse Egisto, 
podia fugir com ele e abandonar Agammnon. Mas instalar-se em casa, comer 
as suas provises, gastar o que lhe pertencia, com o intil Egisto a 
partilhar tudo, e depois, quando Agammnon voltou, fingir uma afectuosa 
recepo, apanh-lo desprevenido e apunhal-lo, hem,  bem de 
Clitemenestra.
- Surpreende-me que julgues a tua irm com tamanha crueldade. Penso 
exactamente como tu, claro, mas preferia ver-te defend-la.
- Cada um sabe com o que conta - disse Helena.
- Eteoneu - perguntou Hermone -, achas que Orestes sozinho conseguir 
castigar Egsto?
- Tambm coloquei essa questo ao mensageiro, mas ele nada disse. Sabe-se 
pouco sobre Egisto. Tanto pode ser, como parece, um pateta encoberto pela 
sombra protectora de Clitemenestra como a cabea e a causa de tudo 
manejando na sombra. Nada se sabe.
- No achavas melhor ires ajud-lo, pai?
- Vou, dentro de uma hora. Decidi-me durante a nossa conversa.
- Onde vais tu? - perguntou Helena.
- Ajudar Orestes a vingar-se de Egisto!
- E de Clitemenestra?

126
JOHN ERSKINE
- O Olimpo me valha! No. Deix-la-emos entregue aos
remorsos da sua conscincia culpada. Mas Egisto  o vilo, parece-me, 
quanto mais no seja pela defesa to enrgica que ela lhe fez. Vo ver 
como pagaro cara a gracinha. Voltarei, pois, imediatamente, ainda a 
tempo de receber Pirro.
- Traz Orestes contigo ~ pediu Helena - para o casamento se
realizar sem mais demora e, assim, tentarmos reabilitar esse ramo
da famlia, socialmente, claro. A aliana com a tua filha afastar o 
pobrezinho de grandes preocupaes.
- O casamento pode esperar - retorquiu Menelau.
- Claro que pode. Entretanto, se encontrares Clitemenestra, o que fazes? 
No te vai custar a passar o tempo enquanto no lhe matares o amante? E o 
que se seguir no apresentar ainda maiores dificuldades? Neste momento 
no pretendo aconselhar-te a evitares o perigo ou o ridculo. Recordo-te 
apenas que, como Agammnon j no existe, deves procurar aproximar-te de 
Clitemenestra, como tutor sobrevivente, quando tratares dos pormenores do 
enlace de Hermone. E talvez fosse prefervel livrares-te do assunto, j 
que Orestes est resolvido a enfrentar a ira da me. _ No vejo os 
acontecimentos por esse prisma - interveio Hermone. - O meu pai no pode 
livrar-se do assunto. No pode falar com Clitemenestra, nem acerca de mim 
nem acerca de mais ningum, sem se lembrar que foi ela quem matou 
Agammnon. Devia era ir ajudar Orestes de imediato e pensar que posso 
muito bem casar com ele sem o consentimento de Clitemenestra. Dispensam-
se combinaes com ela. No quero os seus consentimentos. No tenciono 
ter com ela qualquer espcie de relaes.
- No podes desprezar assim a tua sogra - ops Menelau. -
Alegra-me que a odeies tanto mas no podes manter por completo essa 
atitude depois de casares com o filho. Sabes, Hermone, talvez fosse 
prudente reconsiderar. Rever a situao. Gosto mais de Orestes do que 
nunca, mas, para um casamento, deves olhar para a situao da famlia. O 
casamento  uma situao social aterradora e no tendo de modo nenhum 
para Clitemenestra.
- Pai, vamos voltar ao princpio? Eu e Orestes... - comeou Hermone.
- Claro que no - atalhou Menelau. - Mas podes ver com os
teus prprios olhos como . Trataria o casamento com Agammnon e livrava-
me de problemas com a mulher. Porm, agora, Cliternemestra

A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                         127
 a chefe da casa. O caso muda muito de figura. No posso aceitar o 
casamento da minha filha com o filho da assassina do meu irmo.
- Com o filho do teu irmo - gritou Hermone.
- Est bem - continuou Menelau. - Mas vejo neste momento o outro aspecto 
do rapaz. Supe que deixamos o assunto correr ao sabor dos 
acontecimentos. Ao menos por uns tempos, Orestes andar preocupado e, de 
qualquer modo, no h pressa.
- No posso deixar Orestes seguir ao sabor dos acontecimentos, se  isso 
o que pretendes dizer. Estou ligada a ele, sou sua noiva; comprometida 
com ele. Em nada modifiquei a minha opinio. Quando estiver pronto para 
casar, serei sua. Pensei que soubesses isto, meu pai. Gostava de casar 
com a tua bno, contudo, mesmo sem ela, casarei com Orestes. Desejava 
que o ajudasses contra Egisto, mas talvez no seja preciso: ele 
desembaraar-se- sem auxlios.
- No me parece a atitude mais recomendvel para uma rapariga obediente. 
Deves ouvir os conselhos do teu pai.  costume respeitarmos os mais 
velhos.
- Tambm respeito os mais velhos, mas abalas toda a minha calma e 
confiana, apenas porque Clitemenestra matou Agammnon. A me venceu-te 
sem te aperceberes. Ela e a sua famlia destruriam toda a minha 
felicidade, se eu deixasse.
- Hermone - atalhou Helena -, isso no so modos de falares com o teu 
pai. Ele tem toda a razo, deves-nos respeito. No se trata de saber se 
eles merecem essa considerao, porque ningum te nomeou juiz dessa 
causa. Trata-se de saber se a tua ndole  suficientemente boa para 
acatar essa considerao delicada... E, alm disso, gostava que te 
lembrasses que j te dei a minha autorizao absoluta e definitiva para 
casares com Orestes. Tentei intervir pedindo-te apenas para veres Pirro, 
e mesmo nesse ponto no empreguei grande veemncia. No que me diz 
respeito, casa com Orestes quando quiseres. Mas  a ti e ao teu pai que 
compete agir.
- A nica maneira de eu agir - disse Menelau -,  adiar o casamento. Vou 
agora tentar tudo o que estiver ao meu alcance para auxiliar Orestes. 
Depois disso veremos.
- Podes esperar, como dizes, mas s representa franqueza da minha parte 
repetir-te que no se ganha nada em esperar. Tomei uma resoluo e sinto 
que ainda perteno mais a Orestes, desde o tormento em que ultimamente se 
viu metido.

128
JOHN ERSKINE
- Oh, Hermone, no podes ter um pouco de senso?       .- exclamou 
Helena. - O teu pai vai auxiliar Orestes e, depois, precisamente
por isso, o casamento seguir-se- com a maior das naturalidades. Se 
souberes esperar, vers.               - disse Menelau. -
- Ela no quer ver isso, de modo nenhum.
No,  necessrio... Que no se confunda as coisas. As relaes so
absolutamente distintas. Caso contrrio deixaria Orestes sozinho,
entregue s suas complicaes familiares. No quero que pense que estou 
ligado a ele para toda a vida, cono Hermone diz que est,
apenas porque o ajudei a vingar-se do assassino do meu irmo-

- Achas que no ir? - perguntou Hermone.
- Tenho a certeza que no - declarou Eteoneu.
- No gosto de imaginar o meu pai um cobarde - disse Her-
mone -, mas dificilmente se explica que continue c em casa. No
necessita dele. Trata-se da prpria decn apenas o sobrinho que          
do assassinado, do seu irmo, cia a exigir que vingue a morte
- o vosso pai no  cobarde no sentido usual da palavr      .a -
afirmou Eteoneu. - Foi a vossa me que o dissuadiu. Ouvisteis a
conversa. Quando ela comeou a instig-lo para marchar em auxi-
lio de Orestes, para arranjar mais depressa o vosso casamento, e a
lembrar-lhe que teria de combinar com Clitemenestra os pormenores do 
enlace, calculei de imediato que se acabavam os auxlios e os casamentos 
para Orestes. No me conto entre os devotos adniradores da vossa me, por 
todos os motivos e ainda porque fao parte dos homens de vosso pai, mas 
sou forado a reconhecer que
ela  bem esperta.-  Isso no chega para justificar a inaco de meu pai. 
Ele sabe que posso casar-me sem a sua ajuda. Podia at esquecer-se de que 
Clitemenestra existe, se quisesse.
- No sei se  possvel esquecermo-nos assim de que ela existe nesta 
vingana. No achais que a vossa me e o vosso pai procuravam fugir a 
este aspecto? Falou-se nele apenas at meio da conversa, mas no se 
continuou. Com justia, Cliternenestra, devia ser
punida por matar o marido. A vossa me no deseja defender a
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
129
irm, ou no deseja parecer que a defende. Mas naturalmente no lhe 
agrada de todo que seja o prprio marido a mat-la.  uma situao 
terrvel. Orestes no vai, com certeza, matar a me, por isso, se algum 
o devia castigar era Menelau. Que trapalhadas no se sucederiam se ele 
voltasse para casa a dizer que a alma de Agammnon descansava com o 
sacrifcio de sangue dos seus assassinos, Egisto e Clitemenestra? Achais 
possvel que ele e Helena se sentassem confortavelmente a jantar, depois 
disso, e conversassem sobre o que se passara em casa desde o dia em que 
Menelau partira? Helena trata a irm muito severamente, mas Menelau sabe 
bem que seria melhor no levantar a mo contra Clitemenestra. ~ Eteoneu, 
achas Orestes bastante forte para se medir com Egisto?
- Em luta igual, sim. Mas se Clitemenestra ajudar o amante, ento Orestes 
deve acautelar-se. Os dois juntos chegaram para vencer Agamnon. Essa  
outra razo por que Menelau ficar em casa, creio. Mesmo se, na 
liquidao das contas, procurarem deixar Cltemenestra em paz, ela no 
fica de braos cruzados. Teria muito gosto, com certeza, em enterrar um 
punhal no vosso pai, se soubesse que ele tentava matar Egisto. Tem 
primeiro que lhe cortar o pescoo a ela, se quiser depois cortar o de 
Egisto.
- Que sangrento que s, Eteoneu. Podias ser outro Pirro, se te tivesses 
empenhado a tempo nisso.
- Parece-me que no me estis a dirigir nenhum cumprimento.
O que se passou com Prro?
-  um bruto. No se importa em absoluto de matar uma mulher. De facto, 
se ele estivesse metido no caso de Orestes, julgo que no se importaria 
nada de matar Clitemenestra e deixar Egisto seguir o seu caminho.
- No era grande asneira.  ela a verdadeira culpada e, alm disso, uma 
mulher. - Precisamente, uma razo para a poupar. ~ Bem sei que essa  a 
ltima palavra em boas maneiras, mas no creio nela. As mulheres se deve 
a maior parte dos desagravos do mundo. Fraqueza  poup-las ao castigo. 
De outro modo procederiam sempre de forma mais conveniente.
- Disparatas, Eteoneu. E sabes que mais? A vida da mulher  uma sucesso 
de complicaes e de tristezas. J basta a condio de mulher. Mas os 
homens enegrecem tudo ainda mais.

130
JOHN ERSKINE
- No vejo as coisas assim. Pelo que observei e observo, as mulheres 
gostam dos homens e de todos os tipos. Gostam que sejam violentos. 
Contribuem para os tornar brutos. Quando uma
mulher se queixa de passar um mau bocado, digo-lhe realmente, no h 
direito, ou qualquer outra coisa semelhante, e ficamos os dois muito 
satisfeitos. Mas  um engano.
- No queiras dizer que foi um engano Pirro tratar mal Polixena quando a 
sacrificou sobre o tmulo do seu pai.
- Mas no foi pior do que a maneira como matou os adversrios durante o 
saque de Tria.
-Eles podiam defender-se.
- Tambm ela.
-As mulheres no se podem defender dos homens.
- Ah, no? Olhemos para Clitemenestra!
-Isso  um caso especial e no do que estou a falar.
- o caso mais recente, Hermone. E no lhe faltam precedentes. Todas as 
mulheres arranjam sarilhos.
- Gostava de saber se Andrmaca  da mesma opinio. Pirro levou-a para 
casa como escrava, e a mulher que fora esposa de Heitor  agora obrigada 
a livrar-se das carcias brutais desse criminoso. Parece que vai ter um 
filho.
- Andrmaca diz que as carcias dele so brutais?
- Se a questo vos interessa muito deveis perguntar-lhe a
ele, Hermone. No vos pronuncieis acerca dele antes de investigar. Como 
sabeis que Andrmaca no gosta dele? Parece que no conheceis muito 
acerca das mulheres e que sois igualmente ignorante a respeito dos 
homens. A verdadeira razo para no vos casardes com Pirro  que 
Andrmaca, com cimes vossos, tratar-vos-ia possivelmente como 
Clitemenestra tratou Cassandra.
- No sabes mais sobre Andrmaca do que eu, mas, supondo que falas com 
razo, repito o que disse: as mulheres em geral sofrem muito, e os homens 
tratam-nas to mal que acabam por obrig-las a perder-lhes o respeito.
- No pode ser. Nunca se pode tratar to mal uma mulher a ponto de ela se 
permitir perder-nos o respeito, pelo menos, enquanto se tiver ainda algum 
interesse nela.
- Ento suponho que achas uma mulher muito feliz, talvez at 
profundamente lisonjeada, se algum exemplar do teu precioso
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                        131
sexo a seduzir, a atraioar e a abandonar. Esses e outros casos  que 
compem a trgica histria de muitas mulheres. E no interessam as razes 
que vocs, homens, arranjam para no dar qualquer importncia ao assunto.
- Parece-me que as mulheres em geral no gostam que as abandonem, isto , 
no gostam que o homem as deixe enquanto.o querem, mas, quando se cansam 
dele, nunca  cedo para as abandonar. Em todo o caso, como eu disse, 
vocs mulheres, apreciam que se lhes preste ateno. Quanto aos outros 
episdios da tragdia no passam de uma tolice, Hermone. As mulheres no 
se seduzem. Conheo o assunto de que falo. Desejam os homens e eles 
desejam~nas; a elas. Ambos conseguem quanto desejam, e quer-me parecer 
que o pior fica para os homens.
- No te calculava to grande inimigo das mulheres, to violento nas tuas 
emoes. Pensei que a experincia da vida ensinasse maior ternura.
- No sou inimigo das mulheres. Acontece simplesmente que tenho alguma 
experincia da vida, como dizeis. No me podereis ensinar muitas coisas 
novas acerca delas.
- Nunca casaste, creio...
- Falais nisso julgando que nada sei acerca das mulheres? Essa  a prova 
da minha sabedoria. - No est mal a graa, Eteoneu, mas falamos a srio 
neste momento. O facto de evitares o meu sexo no prova que compreendas 
os sentimentos e os sofrimentos das mulheres com o tratamento que os 
homens lhes infligem.
- Vejo que me obrigais a falar claro para concluir alguma coisa acertada 
nesta discusso. No me parece que fiqueis a gostar mais de mim depois de 
vos dizer duas ou trs coisas que me fervem c dentro, mas a verdade  
que eu perteno, Hermone,  mais velha e obstinada gerao,  que 
desdenhais. Os meus modos, no meu tempo, pela sua absoluta compostura, 
levaram-me a este lugar de guardio. Agora parecem-vos, qual foi a vossa 
expresso..., brutais. Nunca evitei as mulheres. No me compreendestes 
bem.
O que evitei foi o casamento.
- Oh... - fez Hermone. - Sinto bastante dizer-te que continua a haver 
muitos homens que levam esse tipo de vida.
- Sim, um certo nmero de homens e algumas mulheres da vossa famlia.

132
JOHN ERSKINE
- E no achas injusto? Sempre imaginei que reprovavas a conduta da minha 
me.
- Certamente que reprovo. Todas as irregularidades deviam castigar-se 
para salvaguardar a sociedade. Mas afinal so naturais. Digo-vos, 
Hermone, a fuga da vossa me no me surpreendeu muito. As mulheres 
precisam de fazer qualquer coisa. O que me surpreendeu, o que me deixou 
boquiaberto, foi o perdo do vosso pai.
- Tambm pensavas assim, selvaticamente, na juventude quando ensinavas o 
mau caminho s raparigas?
- Disparatais. No se pode ensinar nada a uma mulher.  verdade; sempre 
pensei assim.  certo que no devemos praticar o mal, mas h males to 
naturais... Suponho que mereci castigos. No me castigaram. Foi pena.
- No devo continuar a ouvir-te falar assim. Sabia da exstncia de 
homens que pensavam como tu, mas ainda no encontrara nenhum. Fazes-me 
sentir completamente inferior. Aqui te conheci desde que me entendo, e 
sempre nos rodeaste, a todos' de grandes cuidados. Contudo, acreditas em 
teorias to imorais. Nunca o suspeitaria.
- A observao desta famlia, nos ltimos anos que passaram, levou-me a 
pensar bastante sobre a moralidade. Antes disso conhecia o mundo e 
procedia como os outros homens, como aqueles que admirava. Devo confessar 
que no noto diferenas nos costumes modernos, nem que se chegasse a 
qualquer concluso mais satisfatria. Vou pelo princpio de que as 
mulheres so ainda o que eram no meu tempo, tal como os homens. Lamento 
amargamente que as pessoas procurem. compreender-se por novas teorias. 
Agora dizeis que sou imoral e senti-vos inferior quando me ouvis falar. 
Talvez. Mas agrada-me pensar que vos interessveis, j que ningum vos 
obriga a ouvir-me. Assim mesmo costumavam ser as mulheres. Sabeis como 
procedamos depois de um combate quando capturvamos uma cidade? A vossa 
gerao no acha isso civilizado. Todavia, era correcto no tempo da minha 
mocidade, e ningum se queixava. Matvamos os homens e, depois, 
apodervamo-nos das mulheres. A maior parte das mulheres que conheci 
encontrei-as nessas ocasies. Parece-vos um gnero de aventura muito 
cruel para as mulheres, no  verdade? Pois bem, nunca vi nenhuma 
rapariga nessas, circunstncias que parecesse importar-se muito com isso. 
Os protestos no passavam de meras formalidades. Elas fugiam e ns
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                          133 
alcanvamo-las. E... bom, acontecia o que podia acontecer. No vejo o 
casamento de modo diferente, excepto na durao do namoro.
O que fazamos na guerra era absolutamente natural. As mulheres j sabiam 
o que aconteceria se a faco delas perdesse a contenda: casariam com um 
estrangeiro, mas escolheriam o melhor. Contaram-me que nesta guerra 
Aquiles e alguns jovens se comportarar de maneira diferente. Criseia era 
sua prisioneira, mas ele nada teve com ela. Podia proceder de outra 
maneira, se quisesse, e com direito, claro. Mas no vejo vantagem alguma 
em no o ter feito. Parece que Pirro e Agamrnnort usaram as opinies 
antigas. Agammnon era, alis, um grande homem. S cometeu um erro na 
vida.
- Segundo os teus princpios, Eteoneu, Pris procedeu bem?!
- No direi que no, desde que quis correr to grande risco. Mataram-no, 
recordai-vos? Nada do episdio correria de maneira diferente nos meus 
tempos, excepto no que respeita  vossa me, que no voltaria.
- Porque no dizes antes que preferias que o meu pai a matasse?
- Bom, era exactamente o que queria dizer. Claro que  difcil discutir o 
assunto com a vossa me presente. Longe de mim planear mat-la agora,  
como viver com uma pessoa morta.
- Escuta, Eteoneu, no acharias bem que Orestes ou o meu pai matassem 
Clitemenestra?
- Orestes, com certeza que no. Seria profano matar a prpria me. 
Tratando-se da sua mulher, isso sim, o caso seria outro. Agammnon, por 
exemplo, devia t-la morto. Eis o seu erro. Ela no tinha f.
- E os homens sem f? Confessas ter levado aquilo a que tu mesmo chamas 
uma vida m e cruel sem nunca te teres emendado. Apenas envelheceste a 
procederes mal. Ento no seria prprio e decente que uma das mulheres 
que abandonaste te matasse? A f no deve estar toda de um s lado.
- Tal qual a ideia de Clitemenestra. Essa mulher  extraordinariamente 
moderna, atendendo  sua idade.
- Idade? Encaminhas-te para o tmulo com um conjunto de ideias brutais 
como nunca ouvi. Se s como Pirro, confirmam-se os meus piores receios. 
Alegra-me bastante pertencer a outra gerao.

134
JOHN ERSKINE

- Vim para ver Helena - disse Crita.
- No est em casa - respondeu Eteoneu. - Se desejais deixar algum 
recado...
- No est em casa!? Mas h alguma vez em que ela esteja em
casa? Queria falar-lhe pessoalmente. Tens a certeza de que saiu? Nunca a 
encontro quando a procuro. Devo dizer que me parece propositado.
- Agora no est, com toda a certeza. E deve ter pena de no
vos ver.
- E eu tenho pena de no ter a certeza disso. A tua patroa no trata como 
devia as velhas amizades.
- Ela vai lamentar certamente quando souber que pensais assim. Dar-lhe-ei 
o recado logo que chegar.
- No, no faas nada disso. Nutro por ela a mais alta considerao, quer 
esteja aqui, quer no. Mas aborrece-me sentir que perdi o meu tempo vindo 
c em vo. Mal as notcias do pobre Agamnon chegaram a nossa casa, quis 
mostrar-lhe que no
havia mudana na minha amizade, no importando o que lhe aconteceu na 
famlia. Numa ocasio to grave, toda a gente imaginaria que se 
conservasse em casa. No notas isso tambm?
-  certamente muito mau que visseis de to longe para nada. Helena 
apreciar os vossos cuidados. Ultimamente tem andado ocupadssima.
- Quem no andaria com tantas coisas terrveis a acontecer
umas a seguir s outras? Suponho que a famlia est ao lado de Agammnon.
- Bem vdes! Agamrnnon morreu. No compreendo bem como se possa estar a 
seu lado.
- Ento, entre ele e Clitemenestra havia uma questo qual..@ quer, no  
verdade?
- Nunca me constou que trocassem uma palavra desagradvel. Um homem pode 
morrer, como sabeis, mesmo sem se zangar com a mulher.
- Entendes muito bem onde eu quero chegar. Clitemenestra atraioou-o.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                       135
- Ah,  isso? Sim, eu realmente sabia, mas duvido que o marido soubesse. 
Morreu to repentinamente que com certeza ela no teve tempo de lho 
dizer.
- Mas j devia saber. Pelo que me contaram, ele tentou mat-la, cheio de 
razo, mas Clitemenestra gritou to alto que Egisto acorreu em seu 
auxilio e, depois, juntos assassinaram Agammnon.
- A est uma histria bem engendrada. Simplesmente, no  verdadeira. 
Quem vos contou isso? _ A verso veio indirectamente desta casa. Foi um 
dos criados que a contou a um dos meus. Gostava de saber da prpria 
Helena o que se passou.
- Assim que entrar digo-lhe que desejais saber se Agammnon tentou matar 
a irm dela primeiro ou se foi justamente a irm que atacou primeiro e 
matou o marido.
- Ah, ento foi assim? No ouvira ainda essa verso. Quem a contou, 
Eteoneu?
- Os outros amigos da casa que tencionavam sem dvida vir c, antes de 
vs, devem ter-se arrependido, de forma que sabemos apenas que Agammnon 
morreu pouco tempo depois de regressar.
- Ele devia saber como se portara a mulher e tinha um temperamento 
irascvel, no  verdade?
- Se quereis a verdade, no sei. Nunca procurei analis-lo, quando c 
vinha. Considerei-o sempre um homem notvel. A mulher era tambm uma 
senhora de respeito, mais ainda do que bonita.
-  verdade. Em todo o caso, muita gente a considerava ainda niais bonita 
do que Helena. A diferena entre as duas, ao longo dos tempos, prova bem 
como so acidentais o sucesso e a popularidade. Toda a gente ouviu falar 
da beleza de Helena. S algumas pessoas conhecem Clitemenestra. Helena 
levou uma vida de escndalo com outro homem e o marido foi busc-la para 
a trazer para casa. Estranho, no ? Em compensao, o mau comportamento 
de Clitemenestra levou ao crime... Parece-te que foi ela que o Inatou sem 
ser em legtima defesa?
- Sobre legtima defesa h muito que dizer. Contudo, no me custa aceitar 
que algum a atacasse e, alm disso, longe de mim dizer que foi ela quem 
matou Agammnon- Morreu, foi isso que eu disse. Quereis deixar mais 
algum recado para Helena?

136
JOHN ERSKINE
- Eu ainda no deixei recado nenhum! Diz-lhe que vim c, claro, e que... 
Eteoneu, no achas que-Menelau e o irmo tinham ideias muito especiais 
acerca das respectivas mulheres?
- Tinham mulheres excepcionais. Mas no sei a que ideias vos referis.
- Quero dizer que eram estranhamente simplrios. Pareces pensar, e estou 
certa que ningum sabe melhor do que tu, que Agammnon no chegou a casa 
desprevenido. Olha quem!
- Oh, no  para admirar. Mulheres e maridos sabem to pouco uns dos 
outros, mesmo quando vivem juntos, que no admira que caiam na completa 
ignorncia quando um deles vai para longe. Vs, por exemplo, no sabeis 
se o vosso esposo vos  fiel.
- Como te atreves a dizer uma coisa dessas, Eteoneu? Hei-de dizer a 
Menelau. Esqueceste as obrigaes do teu lugar? O meu
marido -me absolutamente fiei.
-No me custa nada a acreditar. No imagineis que quero que o assassines 
quando chegardes a casa, por causa da minha observao. Claro que  fiel. 
Referia-me apenas ao facto de no saberdes se  ou no fiel. Reparai no 
que se passou com Agammnon. Afinal, julgava a mulher de outro modo.  um 
engano COMUM.
- Para que estou eu a falar contigo?! s indelicado e presumido. Vim 
apenas para...
- Helena lamentar no estar em casa - disse Eteoneu. - Posso
mandar uma das raparigas com um guarda-sol. Est calor!
- Oh, Eteoneu, talvez me possas dizer que tipo de pessoa  essa Adrasta 
que anda sempre com Helena. _ a aia de Helena. Uma bela rapariga. Helena 
gosta muitssimo dela.
- Referia-me ao tipo de carcter. Qualquer pessoa pode ver a
beleza da pequena. O que eu queria saber  se era digna de confiana, se 
era certa... com os homens?
- Certa! Devo dizer-vos que no. Depois de Helena deve ser quem despedaa 
mais coraes. Eu, por mim, gosto muito dela. Agrada a toda a gente, 
mesmo aos velhos como eu. O vosso filho aprecia-a muito. Podia at dar-
vos alguns pormenores mais ntimos acerca da rapariga.
-  terrvel! Dizes-me o que mais temia, Eteoneu. No posso consentir que 
o meu filho se apaixone por essa rapariga. No posso!
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                        137
- Bom, no tivestes a culpa. Ele apaixonou-se por ela e ela por ele e da 
s se pode concluir que ele  Um tolo com sorte. No encontrava 
certamente outra rapariga como ela que o quisesse.
- Ora, no passa de uma criada!
- No  tanto assim. Ele  bom rapaz mas completamente mtil. O melhor 
que conseguiu ainda foi captar as simpatias dela. Porque vos afligs? 
Deixai-os ser felizes.
- Tenho a certeza que o mete em trabalhos, porque o pequeno no tem 
experincia e ela, educada no convvio de Helena, no deve dar ponto sem 
n.
- Vi bastante injustia no meu tempo e, segundo dizem, tambm no fui 
grande prenda, porm, apesar de tudo, no consigo compreender como  que 
a rapariga o pode meter em trabalhos. Se eu fosse responsvel por ela, 
temeria pelo vosso filho. Mas, assim, a rapariga no lhe pode fazer mal 
algum.
- Pode, sim! Destruir-lhe a carreira. Casar com ele.
- Casar j  um mal. No entanto, o casamento pode no ser uma fatalidade; 
o rapaz seguir o exemplo do pai, e ser um marido fiel, o que, alis, 
no ser muito difcil com uma mulher daquelas.
- Falas como se te referisses a um negcio combinado.
- No tardar muito. Murmura-se por toda a vizinhana que eles se 
consideram marido e mulher e, quando dois jovens comeam a sentir-se 
assim, tudo fica praticamente combinado.
- Queres dizer que j so um do outro?
- No o poderia provar. Mas  o que penso. Todos ns aprovamos, isto , 
somos da opinio que Damastor conseguiu uma rica mulher.
- Ah, conseguiu, no conseguiu? E tu achas bem, no achas? Pois fica 
sabendo que ela nunca mais o ver. Vou tratar do assunto antes de 
anoitecer. Mandarei o meu filho para lugar seguro at se curar. Desde o 
princpio calculei o que aconteceria se Helena continuasse a educ-la to 
 vontade. Menelau tem muitas culpas no caso. Calculem, que escndalo, 
atrair assim o rapaz a uma casa como esta!
- Escutai! Exagerais! Sabeis o que estais a dizer? Ningum atraiu o vosso 
filho. No podia expuls-lo, apesar de Helena mo recomendar. Alm disso, 
parece-me um procedimento muito vil separ-los agora. O rapaz namorou-a, 
conseguiu-a e talvez j no esteja na altura de a poder deixar. No  
decente da parte dele.

138
JOHN ERSKINE
- Os ares que todos assumem nesta casa a falarem de decncia! Onde est a 
decncia de Helena, que levou essa rapariga a minha casa e a mandou para 
longe, para o extremo do jardim, falar com o meu filho? A est o 
resultado. Foi onde tudo comeou, mesmo  minha frente. A decncia...
- Mas, se haveis visto comear o seu namoro, mesmo no vosso jardim, 
precisamente  vossa frente, sabeis de tudo e deveis compartilhar com o 
vosso filho a responsabilidade do que acontecer. Agora esta casa  tudo o 
que h de mais correcto. Sou muito velho para aprovar o que aqui se 
passou h algum tempo, mas continuarei a velar pela casa sempre que 
puder. Hoje, a juventude apaixona-se tal como se apaixonava antigamente, 
mas alguns velhos esquecem-se disso. Se afastardes o rapaz agora, 
considerar-vos-ei a mulher mais vil que jamais encontrei na vida, e notai 
que as tenho encontrado de todas as qualidades.
- No! Desta vez foste longe demais. Quando o meu marido souber o que 
disseste, trocar umas impresses com Menelau!
- Isso se eu o deixar entrar - replicou Eteoneu. - A no ser que aprenda 
com o filho a saltar pelas traseiras para os quartos dos criados.
PARTE
NASCIMENTO E MOR

i*
- Crita mandou c o marido queixar-se da maneira como
lhe falaste, Eteoneu - comeou Menelau. - Sinto muito dizer-to, mas no  
a primeira queixa de ti que recebo nos ltimos dias. Numa crise destas, 
sabendo tu como ando oprimido, parece-me que te podias abster de arranjar 
complicaes com a tua conduta. Mandei-te chamar, mas agora que ests na 
minha presena no sei o que te diga. Serves-me h muitos anos. Eras a 
nica pessoa nesta casa em quem ainda depositava confiana. Porm, nos 
ltimos meses a tua lngua arranja-me constantemente trabalhos. Trocaste 
palavras duras com Orestes, obriguei-me a proibir-te consideraes sobre 
a minha mulher, agora o nosso melhor vizinho vem queixar-se que 
discutiste com a sua mulher. O que aconteceu, Eteoneu? Que queres tu que 
te faa?
- No me aconteceu nada, Menelau, a no ser a velhice. Creio que a idade 
no alterou em nada o meu carcter, mas, se no sois dessa opinio, 
talvez vos sentis obrigado a despedir-me. Enquanto o meu comportamento 
agradou, apenas passava pela vossa porta o movimento normal dos 
traseuntes e s aconteciam em vossa casa factos normais. Agora, como vs 
mesmo o dizeis, vm visitas estranhas, recebemos estranhos recados, e o 
que se passa c dentro  novidade para a minha experincia da vida. No 
creio que me excedesse. Provavelmente faria os mesmos comentrios h 
quarenta anos, se acontecessem as mesmas coisas.
- No gosto de te ouvir mencionar a idade que tens e no penso despedir-
te. Sei que no encontraria substituto para o teu

142
JOHN ERSKINE
servio. Os criados de agora no passam de criados, no os ligam laos 
que so quase de famlia. Contudo, para o caso no importa, se fazes 
falta ou no, e se penso bem ou se penso mal de ti, quando se me vm 
queixar. J se censurou bastante a minha casa. A morte do meu irmo ainda 
aumentar mais o falatrio. Se no te estimasse tanto, despedia-te sem 
hesitaes. Em vez disso prefiro perguntar-te, de homem para homem, o que 
fazias se te encontrasses
no meu lugar.
- Bom..., se estivesse no vosso lugar, comeava por saber at que ponto 
Crita tinha razo para se queixar.
- O marido. No foi Crita.
- Ah, sim, percebo!
- Diz que lhe insultaste a mulher quando veio visitar Helena. Primeiro 
no a mandaste entrar, depois respondeste s suas perguntas com 
sarcasmos. Para cmulo, disseste-lhe que era a mulher mais vil que 
encontraste na vida, e que as conheceras da pior espcie.
- Est tudo muito mais prximo da verdade do que se poderia esperar de 
uma mulher furiosa, especialmente se considerar que o oio de vs, que j 
o ouvistes do marido, que nada mais sabia seno o que ela lhe contou. 
Crita perguntou se Helena estava
em casa. Respondi-lhe que no.  a isso que ela chama no a mandar 
entrar. Praticamente tem razo. Helena ordenou-me que dissesse que no 
estava em casa, se algum a procurasse, e, alm disso, esclareceu quanto 
a Crita que nem a deixasse passar a porta. Crita desconfia da verdade. 
Disse-me que a constante ausencia de Helena comeava a faz-la 
desconfiar. Cumpri o que me ordenaram, Menelau, e procurei desempenhar a 
minha funo o
mais conscienciosamente possvel, porque no sou grande admirador da 
vossa esposa e as suas ordens no me causam grande prazer.
- Se Helena no queria ver Crita, no tens evidentemente culpa nenhuma 
disso. Mas porqu essa deciso de Helena? Ela no deu razes?
- Deu. Disse que no podia suportar conversas sobre a morte do vosso 
irmo e sobre o papel de Clitemenestra no caso, com vizinhas 
alcoviteiras, e calculava que Crita estava a a aparecer.
- Hum..., mais recatada, mais respeitada. Ela parece conbecer Crita.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                        143
- Conhece as mulheres. Duvido que quisesse ver Crita em quaisquer 
circunstncias. A minha opinio  que ela aproveita o crime como pretexto 
mais plausvel e h muito procurado para se afastar de Crita. J antes 
me dera as mesmas ordens com outras justificaes. Mas esta  de longe a 
melhor.
- Intriga-me pensar o que poderia ter acontecido entre elas. Sempre se 
mostraram amigas, e Crita era o gnero de mulher com quem gostava que 
Helena convivesse; muito constante, sensvel, segura de si.
- Helena nunca me disse nada sobre o que pensa de Crita, mas duvido que 
a julgue sensvel e senhora de si.
- Ento o que pensa ela?
- Uma vez afirmou que Crita era respeitvel.
- v l...
- Mas no era elogio. Queria dizer que Crita vivia subjugada pelas 
convenes.
- j  muito nos tempos que vo correndo - disse Menelau. -
O que  que essa mulher passou nesta vida?
- Qual delas?
- A minha mulher.
- Bem... Caftnos de novo na conversa que tivemos quando voltastes para 
casa. Zangastes-te comigo. Agora que me ides dizer COMO...
- j nos desvimos do assunto, Eteoneu. Respondeste  prirneira parte das 
queixas, e agora sobre as observaes sarcsticas?
- So autnticas. Ela nunca mais se ia embora e queria saber pormenores 
do escndalo nem que fosse da minha boca, se mais ningum lhe falasse. 
Disse vrias vezes bom dia, e de vrias maneiras delicadas, mas 
agarrava-se como sanguessuga e, quanto mais eu fugia a dar informaes, 
mais ela me aborrecia com perguntas. Suponho que lhe respondi um pouco  
letra.
- Lembras-te de alguma coisa do que lhe disseste?
- No sei se me lembro. Concordo que me senti mordaz... Ah, sim, ela 
queria saber se Agammnon atacou Clitemenestra e se esta no o teria 
morto em defesa prpria. Lembro-me de lhe dizer que faria a pergunta a 
Helena assim que ela entrasse. Talvez ela soubesse se o marido da irm 
tentou mat-la, ou se foi a senhora que espontaneamente o assassnou. 
Qualquer coisa semelhante. Recordo-me da expresso aborrecida de Crita 
nesse momento.

144
JOHN ERSKINE
- A frase, de facto, tem um tom de impertinncia, e com certeza que agora 
a proferiste muito mais brandamente do que na altura.                             
- Menelau, talvez avalisseis melhor o meu comportamento se eu 
cochichasse com os vizinhos sobre a vossa vida e a vossa famlia... O que 
penso de Clitemenestra e da vossa esposa  uma opinio pessoal e no 
altera em nada o cumprimento dos meus deveres. Crita quis bisbilhotar. 
No consegui ver-me livre dela.  claro que por mais delicadas que fossem 
as minhas respostas, ela ficaria descontente. Podia evitar esse 
descontentamento com facilidade, dizendo-lhe o que sabia. Espero que 
tivsseis recordado ao marido de Crita que a mulher deve ter pouco em 
que se ocupar, porque dispe de tempo para andar a saber da vossa vida 
atravs dos criados a quem pagais. Comeo a achar Helena generosa quando 
lhe chamou respeitvel.
- Agora, acerca da terceira queixa. Insisto porque gostava de esclarecer 
isto: chamaste-lhe a mulher mais vulgar que conheceste?
- Estou convencido de que , mas mostrei-lhe o caminho para se salvar. 
Quando ela disse que ia enviar o filho para longe, para onde no pudesse 
contaminar-se com os maus costumes desta casa, replique-lhe que, se 
separasse o filho de Adrasta, na fase em que esto, seria a mulher mais 
vil de todas as que conheci; e acrescentei ento que conhecera muitas.
- Mas donde lhe veio essa mania de afastar o filho da minha casa? O rapaz 
no vive c...
- Ah, pois no!  mesmo o nico lugar onde ele vive.
- Queres dizer que est c ... ?
- Constantemente - garantiu Eteoneu. - Helena ordenou-me que no o 
deixasse entrar, mas no se podia conserv-lo l fora, nem com uma 
muralha de vinte braas de altura em volta da cidade.
-  o problema mais complicado que me puseram em toda a vida! julgo que a 
casa est convenientemente defendida. Alm disso (no compreendo) a nossa 
maior ambio parece ser repelir a famlia de Crita. Porque  que Helena 
quis afastar o rapaz?
- Por causa de Adrasta, claro.
- O que queres dizer com isso?... Ah, sim, j percebo!... Helena receava 
que a rapariga se apaixonasse por ele...
- E havia realmente perigo.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                       145
- Achas que o perigo, agora, j passou?
Acho que no. O perigo consumou-se. Adrasta vai ter um filho dele. - 
Deuses misericordiosos! - gritou Menelau. - Na minha casa? Um filho? A 
isso chama-se ultraje! Mas haver algum dentro desta casa que no 
constitua um perigo para a sociedade? Uma fatalidade imoral! Helena no 
podia intervir?
- Ela queria. Era a sua ideia quando tentou afastar o rapaz desta casa. 
Mas sabeis como estas coisas so, quando dois jovens se apaixonam. Tambm 
j fostes novo...
- Nunca! - gritou Menelau. - Nunca, nesse sentido. No compreendo esse 
ponto de vista, nem as pessoas que o defendem. Se acham que isto est 
bem, no acharo mal coisa alguma.
- Ora... Se fossem casados e a mulher fugisse com outro homem, eu achava 
mal. E se o marido lhe perdoasse e a trouxesse de novo para a sua 
companhia, ou se a trouxesse mesmo sem lhe perdoar, tambm achava mal; 
pelo menos, um erro muito grave. Mas estes dois entes esto apaixonados, 
e, para eles, nada  to importante como o amor. Preocupei-me, pelas 
mesmas razes, por causa de Orestes e Hermone, no fosse acontecer a 
mesma coisa. De facto, Orestes no me merece a confiana necessria para 
me deixar sossegado. Com rapariga de tanta importncia como Hermone, 
depois das recomendaes com que ma deixastes seria caso grave. Mas, com 
estes dois, bem gostava que me dissessem onde est o mal de seguirem os 
seus impulsos naturais. Helena no gosta porque considera Damastor 
indigno da rapariga. Crita no gosta porque considera a rapariga indigna 
do filho. Entre uma e outra, inclino-me mais para Helena, mas parece-me 
que nem uma nem outra tm razo.
- E a rapariga vai ter um filho... em minha casa.
-  verdade! E Crita vai enviar o filho para longe, para onde no possa 
casar com a rapariga, nem ver a criana, em altura nenhuma. No vos 
parece uma atitude desnecessariamente vil?
- Preciso de ver como se pode compor esse assunto - ponderou Menelau.
- Nada h a fazer seno esperar.
- H, sim, h. A criana pode nascer em qualquer outro lado. A minha casa 
passa muito bem algum tempo sem escndalos, e tremo s de pensar no 
exemplo que seria para a minha filha.

146
JOHN ERSKINE
Mas, voltando ao assunto, Eteoneu. H outra queixa contra ti, que as tuas 
ideias libertinas sobre Adrasta mais vm reforar. Numa conversa recente 
com Hermone, disseste-lhe coisas de tal gravidade que nem quero 
acreditar que as tivesses dito tal como ela relata. Porm, confio 
absolutamente no que me disse: falaram de tudo quanto respeita as 
relaes de pessoas dos dois sexos. Referiste-te s atitudes ilegtimas 
que os homens tomam para com as mulheres, e  condescendncia com que 
elas respondem a essas atitudes. Para provares que sabias do que falavas, 
exemplificaste com as tuas aventuras da mocidade. Hermone afirma que 
nunca ouviu conversa to sugestiva e est profundamente abalada!
- Disse-lhe apenas como costumvamos tratar as mulheres na guerra e 
pretendi dar-lhe a entender, muito delicadamente, que as mulheres gostam. 
Nem uma s palavra menos prpria, nem uma s slaba sem verdade.
- Mas esse gnero de verdade no se deve dizer s raparigas de hoje, 
Eteoneu. Hermone leva uma vida recatada e quero que conserve, tanto 
quanto possvel, a inocncia da juventude.
- Ora, por quem sois, Menelau! Exagereis! No vos disse, quando 
voltastes, que Hermone andava cheia de ideias novas? E vs prprio no 
tentastes convencer-me de quanto gostveis das ideias novas? Perdeu-se, 
ento, a ltima esperana que restava a Hermone de levar uma vida 
recatada, e talvez at j fosse tarde. Atrasastes uma gerao com a vossa 
ideia do pensamento de Hermone. Crie-me em maus dias, de que vos 
lembrais tambm com um esforozinho. Pensais que Hermone pertence ao 
perodo seguinte, ao tempo em que as crianas ainda vinham em cestinhos? 
No pertence. A sua gerao aproxima-se outra vez dos tempos maus, 
intelectuais, moralmente e no sentido do dever. No  saudvel e no 
gosto disso. Uma pessoa saudvel deve saber para que serve o sexo. No se 
trata de tema para meditaes. Sabeis como comeou a conversa com a vossa 
recatada filha sobre este assunto? Foi ela que o abordou, falando de 
Pirro. Considera-o um perfeito bruto com as mulheres e provou-o, dizendo-
me que ele vivia com Andrmaca. Vdes?  porque se interessa por estas 
coisas! Porque sabe que os homens habitualmente tm mau corao e seduzem 
as mulheres.  evidente que j dedicara algum tempo a pensar no assunto e 
acredita nas histrias modernas. No foi comigo, certamente, que ela 
aprendeu essas ideias. Podia dizer-
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                       147
-lhe mais do que disse. No me acusa a conscincia de qualquer 
indiscrio. Agora at me admiro do meu domnio. Falei apenas da 
brutalidade, como ela lhe chamou, dos homens na guerra, praticada com 
Ajax, Cassandra, ou qualquer outra coisa que vs prprio achastes que no 
era m de todo. No lhe falei da maneira como as mulheres se portam em 
tempo de paz. Nem lhe disse que, se homem normalmente interessante 
aceitasse todos os convites que recebe de senhoras respeitveis, teria 
quase todo o tempo tomado. Apenas afirmei que as nicas pessoas capazes 
de testemunhar a brutalidade de Pirro eram as mulheres envolvidas, que, 
naturalmente, a no ser que a natureza humana se tivesse modifi~ cado, 
lhe eram dedicadas. Aqui tendes, mais ou menos, o que disse de acordo com 
a minha velha experincia.
Isto  muito estranho - comentou Menelau. - Helena dizia-lhe a mesma 
coisa certo dia em que, por acaso, as interrompi. Quem sabe se a minha 
mulher anda a incutir estas ideias na rapariga?!
No me parece que a vossa esposa lhe dissesse que Pirro  um bruto. Se 
ela lhe contou o que acabei de vos dizer  com cer teza a primeira mulher 
honesta que conheo nesta matria. Mas Hermone e eu conversmos sobre 
Orestes, como vos recordais, antes de regressares a casa, e foi a partir 
da que ela comeou a ter essas ideias. O tipo de inocncia pelo qual 
anseais j no  deste tempo. Toda a gente quer saber tudo, conversar 
sobre tudo, no importa como. Alm disso, se Hermone no tivesse essa 
tendncia por si prpria, Orestes incutir-lha-ia. Avisei-vos a tempo que 
era m companhia.
- H uma falha na tua lgica. Se achas bem falar francamente com uma 
rapariga, porque no  correcto Orestes abordar com franqueza os mesmos 
assuntos? Tens que concordar,  um homem, mesmo que no gostes dele.
- No gosto nada dele. Quando falo com Hermione ou com qualquer outra 
pessoa, procuro dizer o que aprendi com a minha experincia. Parece-me 
que h um elemento de vida nisso. Eis o que fere Hermone. Se eu falar de 
mulheres por ter gozado de grande intimidade com uma poro delas muito 
razovel, Herrnone acha-me depravado. Porm, se Orestes, sem experincia 
absolutamente nenhuma, abordar o mesmo assunto, ela considera-o sensato. 
Francamente... Fixai bem as minhas palavras, Mene-

148
JOHN ERSKINE
lau. Orestes tem um esprito mesquinho e um carcter perigoso. Admito que 
 um tmido, mas acaba por ser a mesma coisa. Pertence ao gnero dos que 
falam de tud sem saber o que dizem. Quando um homem viver como um santo 
e pensar como um santo, consider-lo-ei um santo. Mas se propagandear 
ideias sem relao alguma com o seu modo de vida, no confio nele. O 
essencial  a coerncia. A este respeito duvido de Orestes, de Crita e, 
devo tambm diz-lo, da vossa filha.
- Se no visse certas diferenas na voz e nas formas - disse Menelau -, 
cuidaria ouvir Helena. Nunca sonhei sequer que partilhasses das suas 
teorias sobre a vida.
- Espero que no. A vossa esposa no representa de todo o meu ideal. 
Considero-a responsvel pela maior parte dos infortnios que caram sobre 
ns.
- Se gostas ou no dela - disse Menelau -, no sei, mas falas de forma 
muito semelhante. Isto , soa como parte das suas conversas. Como sabes, 
ela  inteiramente pela sinceridade, e a sua vida mistura-se tambm com 
aventuras de amor. Ao que me parece, tu tambm defendes a sinceridade, e 
a revelao do teu passado amoroso desgostou a minha filha. Comeo a ver 
aonde leva a sinceridade.
-  tudo verdade, at onde me diz respeito, mas, quanto  vossa esposa,  
no a compreendeis. Custa-me dzer-vos, mas ela  demasiado atraente para 
vs. A maneira como vos fez desistir de auxiliardes Orestes foi uma das 
coisas mais limpas a que assisti. Apenas uma ou duas insinuaes acerca 
de Clitemenestra, e da inconvenincia de arranjar o casamento com ela se 
vos comprometesseis a executar o amante bastaram para vos refrear o 
impulso de participares na vingana do vosso irmo. Depois, uma ou outra 
insinuao sobre a interferncia da assassina do vosso irmo no casamento 
da vossa filha e logo vos decidistes contra o casamento. Essa mulher 
consegue tudo o que pretende. Enquanto vocs viverem, ela h-de fazer o 
que quiser. O que mais me apoquenta  a sua habilidade para nos fazer 
sentir que no temos razo, quando de facto a temos.  um dom da maior 
parte das mulheres. Porm, esse dom das mulheres, nela  uma arte. 
Suponho que deve ter convencido Pramo de que a sua ida para Tria exigiu 
um grande sacrifcio, e de que a cidade lhe devia alguma coisa pela 
honra. Nunca me diz nada porque j adivinhou, calculo, que no gosto 
dela. No entanto,
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TR1A                   149
quando volve para mim aquele extraordinrio olhar, fico logo com a 
certeza de que est disposta a perdoar-me, assim que lho pedir.
- Perdoar-te o qu? - perguntou Menelau.
- Exactamente: o qu? No lhe fiz mal algum, que eu saiba. Ningum mais 
tem razo, e ponto final. Indignou-se com a falta de decncia de 
Clitemenestra e no tolera o excessivo convencionalismo de Crita.
- Sim - disse Menelau -, e no gosta de Orestes por causa da sua famlia, 
mas anda sempre a proteger essa Adrasta, e agora, a rapariga desgraou-
se.
- Devo dizer-vos que concordo com Helena nos ltimos dois pontos - disse 
Eteoneu. - Nada dou por Orestes e considero Adrasta uma ptima rapariga, 
uma das melhores raparigas que em todos os tempos se pode encontrar.
- Nunca me encontrei com ela. Vi-a c em casa mas nunca dou ateno s 
criadas. Agora mand-la-ei embora para proteger o meu lar, tanto quanto 
possvel, deste ltimo escndalo. Para onde achas que a devo mandar, 
Eteoneu?
- Melhor ser deixardes isso ao cuidado de Helena; dever saber qual o 
lugar mais conveniente.
- Mas Helena no quer que ela se v embora. Tentara mesmo conservar a 
rapariga junto dela para a transformar numa herona.
-  bem provvel - considerou Eteoneu. - No meu tempo, os homens 
procediam firmemente com as mulheres, especialmente, com as suas 
mulheres. Ditavam-lhes a rigor o que deviam e o que no deviam fazer. A 
desobedincia significava uma tareia mestra. Com o consentimento de 
Hermone, podeis experimentar o mtodo com Helena. No vos aconselho a 
tomardes qualquer iniciativa sobre Adrasta sem consultares a vossa 
esposa, a no ser que vos decidas a empregar essa antiga espcie de 
argumentos de que falei.
- Hei-de pensar nisso. E vou mandar embora a rapariga. Agradeo-te os 
teus cuidados, mas ainda posso dirigir a minha casa convenientemente. No 
preciso dos teus conselhos para   disciplinar a minha mulher. Vers. 
Adrasta h-de ir-se embora.
- No sei se podeis dispensar-me completamente. Gostava de me retirar do 
servio, assim que encontrsseis outro guarda para me substituir.
- Isso  verdade, Eteoneu?

15O
JOHN ERSKINE
. No posso dispensar-te enquanto o caso de Orestes no se resolver. No 
sejas precipitado nas tuas resolues. Direi ao marido de Crita que 
apresentaste as desculpas convenientes e que posso garantir para o futuro 
a delicadeza do teu procedimento. Tratarei tambm, daqui em diante, de 
evitar que Hermone venha conversar particularmente contigo. Quando 
Orestes voltar, falaremos ento sobre o que definitivamente resolver 
acerca do teu lugar. Gostava bem que ficasses. Sentiria a tua falta. 
Afinal, sempre tivemos as nossas ocasionais diferenas de opinio, ao 
longo dos anos. s quase a nica pessoa com quem eu posso... Bom... no  
nada!

Menelau parecia aborrecido. Fosse pela acumulao dos desaires domsticos 
ou ento por pensar quando poria  prova a sua capacidade para modificar 
o carcter de Helena, obrigando-a a proceder como ele queria, fosse de 
que modo fosse, andava irritado e subitamente envelhecido.
Caminhava para trs e para diante, vezes sem conta, mas no havia forma 
de se decidir.
Helena parecia que aguardava alguma coisa. Animava-a uma expresso 
indefinvel, de quem se diverte com o assunto. Nunca ningum a vira to 
bem disposta.
- Gostava de falar contigo sobre dois assuntos - disse finalmente 
Menelau. - Um deles parece-me que te vai agradar. Pirro aceitou o teu 
convite.
- O teu convite, Menelau.
- Bem, aceitou o convite e deve chegar em breve. Provavelmente vem j a 
caminho. Espero que estejas satisfeita.
- Com qu?
- Conseguiste o que querias, no  verdade? Achas que  um grande momento 
para o recebermos, com a nossa casa toda em bolio!
- No podia calhar em pior altura! Menelau passeou para trs e para 
diante mais algumas vezes. Em determinado momento parou diante de Helena, 
como quem
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                       151 ia falar, mas 
resolveu pensar melhor sobre o assunto e continuou para um lado e para o 
outro. Helena parecia ter pena dele.
- Menelau, lembra-te que convidaste Pirro, apenas por tua iniciativa, 
mesmo contra a minha vontade. Sugeri a visita,  certo, e esperei mesmo 
que ele e Hermone pudessem interessar-se um pelo outro. Quando 
reprovaste a ideia, contentei-me com o facto de que Hermone o pudesse 
ver, mesmo casando com Orestes. Contudo, quando compreendi que era 
impossvel receb-lo com hospitalidade, implorei-te que adiasses a sua 
visita. No quiseste ouvir-me e agora lamentas o convite. Tranquiliza-te, 
procurarei cumprir as minhas obrigaes de dona da casa o melhor 
possvel. Provavelmente no ficar por muito tempo.
- Pelo contrrio. Se tomares to seriamente os cuidados da recepo, pode 
at acontecer que nunca mais se v embora. Disso  que eu sempre tive 
medo. Acho que seria melhor conservares-te em segundo plano o maior tempo 
possvel, e Hermone devia talvez proceder da mesma forma. Recebo-o eu. 
Quanto mais conviver com a nova gerao, menos me custar ver a minha 
filha viver no meio dela. Descansa que eu o recebo e farei o possvel 
para que no se demore. A recente tragdia em que figurou a tua irm pode 
dar excelente desculpa para o teu recolhimento.
Helena sorriu-lhe e Menelau resolveu continuar de novo a caminhar para 
trs e para diante.
- Recolhimento para mim, compreende-se, mas porqu para Herrnone? Muito 
j ela se tem recolhido. O objectivo da visita que parece preocupar-te  
precisamente dar-lhe outra ideia do mundo, ampliar-lhe as relaes para 
alm deste meio. Confio inteiramente que, mesmo na minha ausncia, s 
suficiente para lhe garantires proteco contra todos os perigos que 
possam resultar das conversas de Pirro.
- Assim . Contudo, h hipteses provveis que so assustadoras. Se 
Hermone agora se apaixonasse por ele, Orestes pensaria que eu trouxera 
Pirro com esse fim.
- Podes sempre culpar-me, como sabes - disse Helena.
- Porm, seja como for, Orestes ficar zangado quando lhe disser que no 
pode casar com Hermone, e eu pretendo colocar o assunto num plano 
elevado, por uma questo de princpios. A minha filha no pode casar com 
o filho de uma mulher que matou o marido. Se Orestes ouvir dizer que me 
esforo por casar

152
JOHN ERSKINE
Hermone com Pirro, h-de pensar que a minha reprovao pelo crime  
simples pretexto para quebrar o compromisso dele e conseguir um genro 
mais notvel.
- No compreendo porque receias o que Orestes possa pensar. Afinal, 
Hermone no lhe pertence; e ele nada fez para justificar as pretenses  
sua mo, se  que pretende casar. J pensaste nisso? Hermone gosta dele, 
mas nem eu nem tu temos razes para supor que seja correspondida. Deves 
tratar Pirro como se Orestes no existisse.  a forma delicada e a nica 
respeitvel.
- Que pena ter convidado Pirro! - exclamou Menelau. - Achas que  j 
demasiado tarde para adiar a visita?
- Mesmo que o mensageiro o alcanasse antes de ele partir, ou pouco 
depois de o fazer - disse Helena -, no era isso que o afastaria da tua 
porta. Se pudesses mandar dizer-lhe que o teu irmo est morto e que a 
minha irm o matou, ento talvez Pirro j no pretendesse vir, e at 
ficaria contente por perceber que neste momento no  aqui desejado.
- Vou seguir o teu conselho - anuiu Menelau. - Nunca o desejei c, e 
talvez no seja tarde demais, se o emissrio se apressar... Outra coisa, 
Helena, constou-me que uma das tuas raparigas no se tem portado muito 
bem.
- Nenhuma delas, que eu saiba - respondeu Helena.
- Sim, sim, como se chama ela?    ... Adrasta...  isso. Adrasta est em 
maus lenis.
- Se chamas a isso portar-se mal  ... Maus, lenis  a expresso mais 
precisa. Um rapaz muito respeitvel na vizinhana faz-lhe a corte.
- Damastor, no ? j me disseste qualquer coisa a esse respeito ainda 
no h muito tempo.
- Sim - disse Helena. -  Damastor.
- Um rapaz muito decente, sempre achei. No imaginava que fosse capaz de 
alguma incorreco.
- No, directamente, mas est cheio daquilo a que se chama inferioridade. 
Seduziu Adrasta como disse, e convenceu-a de que haviam sido talhados um 
para o outro com votos de eterna felicidade e promessas de casamento. A 
velha histria. Era sincero, no  mau rapaz. No entanto, a me sempre o 
mandou afastar-se do mau caminho, como pretende, e ele sempre consentiu 
que o fizessem. Em resumo: Adrasta foi abandonada.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                       153
- Queres dizer que ela vivia com ele?
- Vai ter um filho seu muito em breve. Tenho tentado tudo para anim-la. 
Afinal  pouco mais do que uma criana. Bem gostaria que no passasse por 
esta crueldade!
E eu gostava bem que deixasse esse rapaz em sossego! No vs que este 
escndalo pode vir a saber-se?
- Este qu? - perguntou Helena.
- Escndalo! - gritou Menelau. - A palavra -te familiar. Uma mulher sem 
vergonha, empregada na minha casa, a portar-se mal com o filho do meu 
velho amigo e vizinho! Queres maior escndalo? A minha reputao no pode 
sofrer este vexame!
Resolveu de novo caminhar para trs e para diante, e Helena pareceu 
esquecer-se que estava ali, de to absorta se encontrava a contemplar o 
jardim.
- Perguntaste-me se eu sabia o que se passava - recomeou ela. ~ Sim, 
sabia que se tinham apaixonado um pelo outro, e, deves lembrar-te muito 
bem de to dizer, pois receava que tudo acabasse mal. Aconselhei Adrasta a 
no perder o corao por ele, se estivesse ao seu alcance. No estava 
porm. Se a me no o obrigasse, o rapaz nunca se teria ido embora. 
Quanto a mim, Crita  a nica depravada. Se se mantivesse recatada, 
haveria um casamento imprudente, e nada mais. Graas  sua interferncia, 
h uma aventura clandestina e um filho ilegtimo.
- Oh, cus! O filho j c est? ~ admirou-se Menelau.
- Ainda no.
- Nesse caso, antes que seja tarde demais, podemos mandar a rapariga para 
qualquer stio, onde o filho nasa sem nos comprometer. Depois ter 
sustento enquanto se conservar bem longe. Pensaste em algum stio?
- Nenhum - disse Helena. - E no  necessrio. Este  o lugar mais 
conveniente que conheo.
- Creio que no me compreendeste.
- Talvez no. Julguei que me perguntavas se tinha algum lugar em vista 
onde a criana pudesse nascer sem nos comprometer. No existe esse lugar. 
Sou responsvel por Adrasta, e, alm disso, ela espera que a conforte, 
justamente nesse aspecto no consegue conformar-se desde que Damastor a 
abandonou. Para a decncia comum, estou de certo modo comprometida. E tu 
tambn, recordo-te.

154
JOHN ERSKINE
- Nunca estiveste to enganada na tua vida - retorquiu Menelau. - No 
tenho a menor responsabilidade no assunto, e sei muito bem onde quero 
chegar quando digo que a criana no deve nas-
cer nesta casa. Hermone no deve habituar-se a acontecimentos
destes numa casa aparentemente em ordem. Ideias avanadas j ela tem 
demasiado, e o ambiente  sua volta deve revestir-se da maior 
normalidade.
- Se Hermone falasse agora com Adrasta - disse Helena no havia de 
encontrar na pobre pequena encorajamento para o
vcio, nada que a incitasse a uma conduta menos digna. Podia mesmo 
aprender, atravs do infortnio presente de Adrasta, a evi-
tar em absoluto o amor, e a desconfiar de todos os homens.
- Pensas primeiro em Adrasta - notou Menelau. - Eu penso em Hermone. A 
nossa filha pertence a uma casa sossegada e respeitvel.
- Ento  bom que deixes de defender Orestes'
- _uma casa inteiramente respeitvel com bastante do que vulgarmente se 
chama inocncia. E erro forar os casos feios da vida ao conhecimento de 
uma rapariguinha; em breve eles surgiro por si. Sinto muito, mas Adrasta 
tem que se ir embora.  pena...
- Muita pena! - concordou Helena. Menelau ficou por um instante a olhar 
para ela.
- Bem - disse ele -, no me agradava tocar neste assunto, e estou 
contente por no te opores.
Helena levantou os olhos, e fixou-os nele.
- Como  que me podia opor em termos generosos e decentes? Concluo que 
Adrasta fica!
- j te disse o mais positivamente possvel que no fica!
- Tenho a certeza que ainda mudas de ideias - disse Helena
Tenho absoluta confiana em ti.
- No, tenho-te obedecido noutras ocasies, mas desta vez
no posso. J me decidi.
- j? - insistiu Helena.
- j disse que sim! - respondeu o marido.
- Ento, sim; e no tenho mais dvidas - disse a mulher.
- Ainda bem que concordas comigo. De resto, era de esperar.
- Menelau, no esperaste nada que assim fosse! - exclarnou Helena. - 
Sabias que nunca concordaria contigo em mandar embora
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
155
a rapariga. Nunca o farei. Adrasta fica nesta casa enquanto eu c 
estiver.
Menelau nem queria acreditar no que via: ela ria-se dele.
- Se me fazes zangar - ameaou ele -, mando que peguem nessa rapariga e 
que a ponham na rua! _ No desejo fazer-te zangar, mas duvido que 
consigas arranjar algum capaz de executar as tuas amveis ordens. Todos 
os criados tm coraes de ouro e Adrasta  excessivamente estimada entre 
eles.
- Escolhe - props Menelau. - Ou me ajudas a pr essa rapariga em lugar 
combinado ou tenho que a pr fora desta casa!
- Pois atreve-te! - gritou Helena. - E que belo desafio! Nenhum dos teus 
homens poria sequer um dedo sobre essa rapariga. Convido-te a dares a 
ordem. Pensaro que endoideceste, e eu
hei-de dizer-lhes muito sinceramente que penso do mesmo modo. Ainda assim 
h-de haver confuso, no te parece? E tu, que querias evitar mais 
alarido! No era justia singular se Pirro chegasse precisamente no 
momento em que o herico Menelau atirasse para a rua uma doente e 
desamparada rapariga, prestes a ser me? Podias explicar-lhe isso depois, 
no podias? Podias dizer que se tratava de uma limpeza da casa, tardia 
mas necessria. Podias dizer que os criados comeavam a seguir o exemplo 
dos patres, e, uma vez que no podias reformar a famlia, decidiras 
expulsar os criados. Sempre gostava que Aquiles pudesse ouvir isto!
- Muito engenhoso da tua parte, decerto - respondeu Menelau -, mas no me 
apanhas desprevenido. Adrasta pode deixar esta casa muito discretamente 
ou, se insistir em ficar onde no faz falta alguma, terei de a pr fora!
Esperou que Helena falasse, mas ela nada disse. Parecia calma e 
despreocupada. ~ Bem sabes que no podes impedir-me de tomar as minhas 
resolues.
- Se quisesse impedir-to - ripostou ela -, no teria que pedir aos homens 
que o no fizessem. Explicar-lhes-ia o teu ataque de loucura. Lembrar-
lhes-ia que, mesmo quando ests no teu juzo perfeito, pouco respeitas as 
propriedades, como quando pusestes fim queles sacrifcios em Tria. Os 
homens ainda falam dessa paragem na ilha e no Egipto. No que eu tentasse 
impedir-te dessa loucura; s senhor dos teus actos e deixei-te seguir o 
teu destino.

156
JOHN ERSKINE
- Mas, diz-me, Helena - perguntou Menelau -, o que ias tu fazer de 
Adrasta se ela ficasse? A rapariga no te serve para nada com uma criana 
nos braos, e no ter um grande futuro quando o menino crescer.
- Ser sempre uma boa companhia, uma das melhores -
garantiu Helena. - Ser a nossa filha quando Hermone nos deixar para se 
casar.
- No  to cedo que Hermone se casa - duvidou Menelau. -
Teima em no querer nada com Pirro, e eu nada quero com Orestes.
- Mas quer Hermone, creio - disse Helena. - Vai casar com Orestes, no 
sabias?
- No sabia, nem quero saber - disse Menelau.
- Pois vai - prosseguiu Helena -, e era bom que te fosses habituando  
ideia. No o desejo mais do que tu, mas no o podemos evitar. Cheguei a 
esta concluso quando falei com ela. Por isso  que perdi a esperanca em 
Pirro. Tu opunhas-te, mas cedo acabarias por concordar. Porm, a 
obstinao de Hermone tornou tudo impossvel.
- No quero que case com Orestes, pronto! J a proibi!
- Fizeste tudo o que podias - disse Helena -, e ela agora faz o que lhe 
apetecer. No receies as negociaes com Cltemenestra; tenho a certeza 
que dentro em pouco Hermone nos vem anunciar que j esto casados, ou 
que vou ser av. No julgues que te pedirei que a expulses desta casa.
- Helena, muito gostaria eu de te compreender. Tinhas razo quando eu 
ainda acreditava em Orestes. junto-me a ti agora para impedir que case 
com Hermione, se me ajudares a afastar Adrasta para um lugar onde no 
haja falatrio. Todos gostam da nossa vizinha Crita... - Neste caso, no 
deves recear que Crita fale - disse Helena.
- Esqueces-te que  ela quem esconde o marido culpado. Quanto a Hermone, 
no me enganei quando disse que no podemos fazer mais nada. Mas, mesmo 
que pudssemos, no desprezaria Adrasta. Trata-se de um ponto de honra. 
Gosto da rapariga e, pobrezinha, est em m situao. Afinal, Menelau, 
no achas que j  tarde demais? s bom, deixas-te levar naturalmente, e 
tens sofrido muito para poderes descobrir o que h de escandaloso nesta 
pequena tragdia desprezvel. Voltaste-me as costas, e nada fizeste para 
vingar a morte do teu irmo. No me queixo, evidentemente, mas,'
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                        157 depois 
dessas exibies de magnanimidade, no Consegues conven- cer quando 
improvisas justa indignao contra Adrasta e o filho. Porm, se no achas 
ainda tarde demais, podes mudar de carcter, deves tomar-te rigidamente 
firme e conduzir-nos com uma vara. Pes Adrasta na rua, fechas-me  chave 
quando Pirro vier, e garantes para que Hermone no case com Orestes. Se 
no te obedecessemos, ainda podia haver outros castigos, no  verdade? 
Deves imp-los todos agora, Menelau, porque, se fores cruel para com 
Adrasta, serei tua inimiga implacvel. O dio  o dom da minha famlia 
apesar de, at agora, eu nunca o cultivar.
- Suponho que at podias competir com Clitemenestra, se quisesses - disse 
Menelau.
- Meu querido esposo, se eu quisesse, podia at suplant-la! 
Clitemenestra foi rude e desnecessariamente vulgar. Todavia, podes estar 
certo de que no serei tua inimiga, a no ser que o. forces apenas por 
principio nunca por amor. Quero conservar o debate num plano bem elevado.
- Espero distinguir a diferena no momento em que me enterrares o punhal 
no peito. Entretanto, aproveitarei a oportunidade. Adrasta vai-se embora, 
est entendido. Ns vamos ser inimigos mortais, tambm est entendido. 
No te importas de me dizer quando comea a guerra entre ns?
- H vrias maneiras - respondeu Helena. - Podes matar-me, basta 
considerar adiado o caso de Tria. Nada mais claro para todos: o irmo de 
Agammnon a pr fim  vida da irm de Clitemenestra! Ou, ento, podes 
levar por diante a tua ameaa ordenando aos teus homens que expulsem 
Adrasta. Se desobedecerem, podes tu mesmo faz-lo. Aconselho-te, no 
entanto, a primeira.
- Pelo teu modo resignado, suponho que esperas realmente Pelo golpe 
fatal.
- Assim , a no ser que Pirro chegue primeiro.
- Ah, ? E o que vai ele fazer por ti?
- Julgo que depende do que eu lhe pedir, e isso, claro, depende do que tu 
resolveres fazer... Na verdade, Menelau, qual  a utilidade desta 
discusso to estril? Afinal no pretendes fazer mal algum a Adrasta, 
sei-o muitssimo bem, e compreendo o embarao que te causa o estado em 
que ela se encontra. Sinto muito! Se me
111comodasse com essas coisas tambm no me agradaria de todo

158
JOHN ERSKINE
ouvir dizer que fora o meu exemplo que a conduzira ao mal. Corno as 
coisas mudaram, sinto ter-te pedido que convidasses Pirro; convidaste-o 
porque eu quis, e reconheo agora que foi um erro da minha parte. 
Todavia, no achas tudo isto questo insignificante comparada com o que 
tu e eu transportamos nos nossos coraes? Quando penso na minha irm, na 
nossa adolescncia, no que ela fez, a situao de Adrasta parece estar 
longe da pior das tragdias. Vilania e traio so a prpria tragdia, 
no  verdade? E a desproporo da vida! Sejamos amigos, querido esposo! 
No h razo para lamentarmos termo-nos amado em tempos idos!
3O -Ame est aqui? - perguntou Hermone. - Ah, esto os dois? Meu pai, 
aconteceu o que h de mais terrvel, e quero comunicar-te na presena da 
minha me. Adrasta, aquela rapariga que tu conheces vai ter um filho!
- j sei - respondeu Menelau.
- J sabes? E consentes que acontea uma coisa dessas na tua casa, e to 
calmamente? Quando vinha agora para aqui, em pensamento culpava a minha 
me... afinal, tu j sabias!
- Hermone, que modos so esses para com o teu pai? - ralhou Helena. - 
No  j a primeira vez que tenho de te repreender pelos teus modos.
- Nesta casa h piores coisas do que os meus modos. E, se nem mesmo tu 
nem o pai se sentem escandalizados, sinto-me eu. Se essa rapariga ficar 
connosco depois do que aconteceu, recuso-me a viver mais nesta casa.
- Para onde vais? - interrogou Helena.
- No sei... Talvez para junto de Orestes, onde o meu dever parece 
chamar-me. A ele posso ser til, aqui no tenho qualquer utilidade. Tenho 
procurado ser leal e respeitadora para com os meus pais, mas afinal, 
somos estranhos, e as nossas relaes s conseguem ser falsas. Cada vez 
se enovelam mais os nossos problemas, mas parece-me que  isso mesmo o 
que vocs querem. O que julgo mais sensato  casar imediatamente com 
Orestes, e reconiear a vida  maneira simples e vulgar das pessoas de 
tento.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                        159
- Que mau gosto nessa maneira de falar - disse Menelau. No me refiro aos 
modos que usas comigo; o que mais me desgosta  a tua falta de simpatia 
pelas pessoas que se encontram em dificuldade. Eu e a tua me 
recentemente sofremos desgostos, e desgostos escandalosos, pelos quais 
no fomos responsveis. Felizmente que podemos suport-los sem o teu 
auxilio; mas, se fosses to sensata como pretendes, terias pena de ns em 
vez de nos acusares. O caso de Adrasta  o ltimo. No sou responsvel 
por ela, como em breve saberias se aguardasses um pouco mais...
- Ento, prova-o - pediu Hermone. - Expulsa-a!
- Ao que dizes devers acrescentar que pretendes que a expulsem para que 
morra de fome ou de sofrimento... - disse Helena. - justamente - assentiu 
Hermone. - Em certas ocasies, pareces-te com a tua tia; j no  a 
primeira vez que o observo - reparou Helena. - Mas nunca tanto como 
agora.
- As parecenas nada me interessam, e no aprovo a tentativa de te 
afastares da conversa - disse Hermone. - As situaes pelas quais a 
nossa casa tem passado esgotaram-me a pacincia. Bastava quando partiste 
para Tria com Pris, e depois quando voltaste a insistir que realmente 
l tinhas estado e que tinhas rticado todo o mal que te atribuam - 
mesmo nesse ponto, j piam longe as tuas proezas e ningum tinha nada que 
acreditar no pior, a menos que quisesses; para mais ainda essa rapariga, 
portando-se rnal aqui mesmo, onde no se pode guardar os segredos dos 
vizinhos. Logo que chegou comeou a namorar Damastor, um excelente.rapaz, 
cuidadosamente recatado, at finalmente o perder. No consigo compreender 
para que havamos de emprestar o nosso bom nome (no ser o meu) para a 
proteger a ela e aos seus vulgares instintos!
- J falaste com ela depois de saberes a novidade? - perguntou Helena.
- Certamente que no; verem-me a falar com ela!
- Ento fala sem que te vejam. Hs-de aproveitar bastante da conversa, 
alis, qualquer um de ns aproveitaria. No conseglues imaginar-te no 
lugar dela, pois no? Abandonada pelo homem ern quem confiava, Orestes, 
por exemplo, e tornares-te tema das bisbilhotices caseiras?

160
JOHN ERSKINE
- Certamente que me no posso imaginar em tal situao. Nem tu to pouco 
o imaginas.
- No tenho o menor prazer - disse Helena. - Ao que eu quero chegar  
que, antes disto acontecer, Adrasta no supunha sequer, como tu no 
supes, vir a cair em tal infortnio.  a vida, minha filha! Quase todos 
ns somos cruis com os outros, porque no nos imaginamos no seu lugar.
- Preveniste-a desta possibilidade quando a aconselhavas a cultivar o 
amor pela vida? - perguntou Hermone.
Menelau riu-se.
- Preveni-a contra o amor de Damastor - respondeu Helena como quando 
tentei ensinar-te o amor pela vida, aconselhando-te a que no amasses 
Orestes. De formas diferentes, vocs as duas pensavam saber melhor do que 
eu.
- H uma diferena considervel entre Orestes e Damastor -
disse Hermone.
- Mas no tanto assim - interveio Menelau. - Concordo que Adrasta deva ir 
para um retiro ou coisa semelhante, longe da popularidade de que goza 
aqui; falava nisso  tua me quando entraste. Dizia-lhe tambm que Pirro 
aceitou o nosso convite, e que chega dentro em breve. Pensmos adiar a 
sua visita. Porm, se vier, quero que o recebas com a mais acolhedora 
delicadeza. No  necessrio que o vejas amide, mas  bom que v com uma 
impresso agradvel a nosso respeito. Se acaso vier.
- Felizmente que h a possibilidade de no vir - tornou Hermone. - No 
tenho qualquer interesse em o ver. Tanto Eteoneu como Adrasta e a me o 
compreendem, mas eu no tenho nada de comum com o seu tipo. O que  certo 
 que no quero v-lo!
-  isso o que queres, se eu to exigir! - ralhou Menelau.
- Pai, peo-te que no mo exijas - suplicou Hermone. -
Detesto desobedecer-te, mas nada me poder fazer falar a esse homem. Tudo 
o que dissesse havia de parecer desleal.
- Desleal para quem? - perguntou Helena.
- Para Orestes, evidentemente. O meu pai dir a Pirro que estou noiva de 
Orestes. Tenho o pressentimento de que Pirro busca uma mulher, e, em 
relao a qualquer compromisso moral, sou praticamente uma mulher casada.
- Era bom que especificssemos isso de uma vez por todas -
disse Menelau. - No ests casada com Orestes, pois no?
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                        161
- Ainda no - respondeu Hermone. cen. -1E longe de mim escandalizar-te, 
perguntando se dispensas a
mona legal, ao jeito de Adrasta. Muito bem. Por favor, v se compreendes 
que, a menos que as circunstncias se alterem muito, no consideramos 
Orestes marido conforme para ti. j afastmos todas as ideias sobre esse 
casamento, portanto, no ests ligada a ningum. E, se te encontrares com 
Orestes em segredo, sem a nossa autorizao, ele ter de prestar contas, 
e tu tambm!
- Menelau! - exclamou Helena. - No achas que levamos o caso por caminhos 
errados? Nem tu nem eu desejamos que Hermone case com Orestes, mas no 
adianta proibi-la de o fazer. j no  nenhuma criana. Na verdade,  
melhor que no fique solteirona. E, se fazes ameaas, tens de cumpri-Ias.
- Claro que as hei-de cumprir! - gritou Menelau. - At agora tenho sido 
muito condescendente, mas tenho aprendido a lio. Fazes sempre o que te 
apetece, porm, se Hermone comea a imitar-te nesse aspecto, vejo 
desaparecer o ltimo vestgio da boa harmonia domstica.
- No imito a me, chega a ser pecado invocar tal coisa - defendeu-se 
Hermone. - Apenas conservo a palavra que dei ao homem a quem, 
formalmente, estou ligada. Tento defender os direitos.
- Palavreado! - respondeu Helena. - Ou nada pretendes dizer com isso ou 
no sabes o que dizes. Se ests resolvida a casar com Orestes com o fim 
de respeitar direitos,  ento melhor que desistas. O homem no deseja 
direitos, exige amor.
- No preciso de te dizer que o amo, mas do muito que preciso de te 
lembrar, minha me,  que, entre mim e Orestes, o amor no  
necessariamente o contrrio do direito. Deixa-me dizer-te que pretendo 
defender quem sempre admirei. No mudei, e no Posso dizer que tenhas 
mudado, porm, o meu pai mudou. Ainda no h muitas semanas que 
concordava com todos os meus sentimentos; agora concorda com os teus. 
Est absolutamente no seu direito concordar contigo, se puder. Todavia, 
no  justo que eu seja importunada apenas porque me recuso a mudar de 
opinio.
-  verdade que nas ltimas semanas tenho adoptado outra atitude para com 
Orestes - disse Menelau -, e, se no consegues ver porqu, lamento-o. 
Julgas que foi a influncia da tua me que me fez mudar de ideias? O teu 
sentido dos preconceitos ajuda-me

162
JOHN ERSKINE
a considerar o facto de que, nas ltimas semanas, a me de Orestes 
assassinou o meu irmo. Penso que dever ser o suficiente para esfriar as 
relaes mais afectivas. Se os teus sentimentos no fossem to pouco 
delicados, nunca ambicionarias casar dentro dessa famlia.
- A delicadeza dos meus sentimentos ainda chega para lamentar o 
assassnio, mas...
- Bem, agradeo-te teres ido j to longe - disse Menelau.
- Se comeas com sarcasmos, no continuo! - gritou Hermone.
- No continues - atalhou Helena. - j se disse muito. Porm, gostava de 
te fazer uma pergunta... Voltando a Adrasta, quando h pouco aqui 
entraste, disseste-nos que tinhas vindo o mais depressa possvel logo que 
ouvistes as novidades. Quem te deu essas novidades?
- Crita - informou Hermone. - No que fizesse intriga. Veio a propsito 
da maneira mais natural. Torneei a questo, e ela
teve que me explicar a ausncia de Damastor. Est muito transtornada com 
tudo isto. Parece que levaste Adrasta uma vez l
casa e que ela viu o rapaz.
- Helena - disse Menelau -, garantiste-me que Crita nada diria.
- No dei o devido valor ao seu sentido dos direitos - retorquiu Helena. 
- Ento foi ela quem te fez esse retrato psicolgico de Adrasta? No 
admitiu ao menos que Damastor pudesse ter
colaborado no feito?
- Certamente que no! - disse Hernone. - No se pode criticar um rapaz 
ingnuo nas garras de semelhante pessoa. Mulheres daquela espcie fazem 
sempre o que querem dos homens.
- Oh, no sei! - duvidou Menelau. - Tambm depende dos homens.
- E das mulheres - rematou Helena. - Continua, Hermione... Que mais te 
disse ela?
- Disse que foi tudo obra tua... Que, pouco depois de vires
para casa, a foste visitar...
 verdade, fui visit-la! _e apresentaste um relatrio exacto das tuas 
teorias ticas sobre o assunto. Diz ela que, se tivesse compreendido o 
que realmente querias dizer, ter-se-ia acautelado. Disseste-lhe que 
Danastor
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                         163
se apaixonaria   fatalmente pela primeira rapariga bonita que lhe 
aparecesse, e tinhas Adrasta ali na ocasio para o apanhar.
- O mesmo  dizer que Adrasta foi a primeira rapariga bonita que lhe 
surgiu. Sem contar contigo, claro. Nessa mesma altura Crita disse-me que 
Damastor se interessava muito por ti.
Ela no podia ter dito tal coisa. Ele nunca se interessou por Mim.
- Bem, que mais disse ela?
- Isto  o essencial, creio, foi ela que provocou tudo.
- Provavelmente esqueceu-se de uma ou duas coisas que eu lhe disse - 
lembrou Helena. - Mostrei que a aspirao de conservar Damastor 
respeitvel, provavelmente o tornaria imoral. No o mencionou?  muito 
estranho!... Que fim pensa ela que eu podia ter em vista, seduzindo o 
filho por intermdio de Adrasta?
- Prefiro no responder a essa pergunta - tornou Hermone.
- Mas responde - insistiu o pai. - Isso interessa-me.
- Bem, deu praticamente a mesma explicao que tu, meu pai, quando 
falvamos h pouco; falou da idade da me. As mulheres de um certo tipo, 
disse ela, quando envelhecem, tentam exercer os seus encantos 
indirectamente.
- O tom  de Crita, mas no do teu pai.
- Pois disse o mesmo... no foi, meu pai?
- Nunca o disse, nem o pensa - respondeu Helena. - De facto, se Pirro 
vier, deseja que me conserve no meu quarto. Aos olhos do teu pai posso 
algum dia agir indirectamente, mas ainda no.
- Foi essa a minha ideia - exclamou Hermone. - Disse-lhe isso mesmo.
- Na verdade, lisonjeia-me ver-vos a vocs, mulheres, interessadas no que 
eu digo e penso - disse Menelau -, mas neste momento interessa-me mais o 
que diz Crita.  como conseguir ter o quadro da famlia visto de fora.
- Ela no falou da famlia - elucidou Hermone. - Falou apenas da me, e, 
claro, de Damastor e dessa rapariga.
- J sabemos o que disse da rapariga. Que planos faz ela para o neto? - 
perguntou Helena.
- Em relao a qu?
- Est para nascer uma criana, e Crita  a av. No apreendeste ainda 
toda a situao? Crita j a apreendeu,  a que est a questo. O seu 
esprito envelhece porque, antes de mais,  av.

164
JOHN ERSKINE
- Oh, no, ests enganada. Ela no pensa que as coisas chegaram a esse 
ponto. Falou no caso como se... como se se tratasse a de uma enfermidade. 
Duvido que esteja preparada para isso.
- Pensei que no - disse Helena. - Eu e o teu pai  que estamos 
preparados, e talvez seja melhor para a criana.
- Eu nada tenho a ver com isso! - exclamou Menelau. - O que eu disse  
que Adrasta devia deixar esta casa. Hermone, eu estava a dizer isto 
mesmo  tua me quando tu entraste.
- Pois estava. V, minha filha, como foi incorrecto da tua
parte dirigires-te ao teu pai daquela maneira. Ele concordava 
inteiramente contigo. Ainda no tivemos tanto sangue como desejvamos. 
Tu, Crita e Menelau, os trs sustentculos da sociedade da nossa 
vizinhana, desejam todos matar Adrasta e o filho. Ergo-me contra vocs 
pelo direito que eles tm de viver. Porm, no
jurei conservar aqui a rapariga; assim lhe aparea outra soluo melhor. 
Posso pensar nessa soluo. A rapariga tem que estar junto de Damastor. 
Se Crita nos disser para onde mandou Damastor, envio para l Adrasta de 
imediato.
- Nunca to dir!
-  possvel que no; mas no entendo porqu. No sou juiz, diro vocs, 
mas a respeitabilidade que melhor me assenta enviaria a rapariga para 
junto do amante, permitindo que se casassem. Aprovas o casamento?  o que 
querem estes dois jovens apaixonados.
- Nunca pensei nisso - disse Menelau -, mas  uma soluo excelente. Se 
pudssemos cas-los longe daqui, diria que resolvamos uma questo 
difcil. Julgam que tudo se pode arranjar?
- Muito simplesmente - tornou Helena. - Hermone goza da confiana de 
Crita, segundo parece. Eu conservo-me fora das negociaes. Hermone que 
v ter com ela como que mandada por ti, com a promessa de que, se nos 
disser onde se encontra o filho enviaremos para l Adrasta. Por ns 
faremos com que casem
honradamente, e dar-lhes-emos o bastante para comearem uma vida juntos 
em qualquer lugar distante, onde as ms lnguas os
no vo atacar.
- A est o que  necessrio! - concordou Menelau. -  isso
que farei.
- Porm, no consegues compreender o ponto de vista de Crita? - 
perguntou Hermone. - Ela quer separ-los para sempre.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
165
Uma mulher da casta de Adrasta nunca far Damastor feliz. Se Crita 
quisesse que eles se casassem, no o teria mandado embora. O teu plano 
era admirvel para Adrasta, mas de nada servia a Crita.
- Mas servia de alguma coisa a Damastor! - disse Helena. -
Ele gosta da rapariga, e presumo que Crita gosta bastante dele, no pode 
ser s uma questo de orgulho ferido.
- Crita nunca dir onde se encontra Damastor - retorquiu Hermione.
- Receio que tenhas razo - disse Helena -, mas, mesmo assim, quero que 
leves a mensagem de teu pai. Faremos o que pudermos por eles, e 
assumiremos a responsabilidade pelo que acontecer em nossa casa, embora, 
pessoalmente, eu no condene Adrasta e Damastor como vocs. Se Crita no 
concordar connosco, ento a responsabilidade ser toda sua, e ters uma 
oportunidade de aprender alguma coisa sobre a natureza humana.
- Peo desculpa - disse Hermone. - Sem perguntar nada, sei que Crita 
no far o que vocs querem, e na verdade no tenciono perguntar-lhe.
- Porque no, podes dizer-me? - perguntou Menelau.
- Acho que ela tem razo em mandar Damastor para longe da influncia 
dessa rapariga. No era ele que lucrava se casasse com ela.
- Porqu? J no a ama? As pessoas no se devem casar quando se amam? - 
questionou Helena. -  preciso que me ds os argumentos que solicito. A 
minha liberalidade leva-me a parecer conservadora. Quando erramos, 
devemos corrigir-nos. Ainda pensas assim, no ? Concordas que os homens 
no devem viver com as mulheres, se no forem casados. Espero que tambm 
concordes que os homens devem casar com as mulheres logo que se amem. 
Pois bem, porque no havemos de dar a Damastor e a Adrasta a oportunidade 
de se conformarem com a sociedade, mesmo sendo j um pouco tarde?  o que 
eles desejam.
-  isso que eu no sei - disse Hermone. - Crita no tem confiana em 
Adrasta; nem eu.
- No conheces bem Adrasta. Contudo, analisa o caso do ponto de vista de 
Damastor. Quando falavas de Pirro e daquilo a que chamaste as suas 
brutalidades, suponho que condenavas os homens que abandonam as mulheres. 
Damastor no abandonou

166
JOHN ERSKINE
Adrasta, mas a me produziu o mesmo efeito, raptando-o. No seria agora 
ocasio de Crita lhe dar a oportunidade de proceder como suponho que ele 
gostaria, com.6 um homem leal?
- No vejo as coisas desse modo - ops Hermone.
- Desgostas-me, Hermone - disse Menelau -, desgostas-me profundamente. 
Disseste-me que estavas praticamente casada com Orestes, que nada podia 
separar-vos. Adrasta e Damastor esto mais casados do que tu, e, contudo, 
achas que devem manter-se separados para bem deles e dos outros.
- No h paralelo entre ns e essa gente - tornou Hermone.
- Fizemos o possvel por levar vidas correctas, enquanto Adrasta e
Damastor mais no foram do que egostas e, se me permites diz-lo 
claramente, praticaram uma sensualidade absolutamente animal. H muito 
tempo que eu sentia a nossa casa a corromper-se, mas nunca supus que 
chegasse ao ponto de tu e a me consentirem tamanha indecncia, e para 
mais pedirem-me que ajudasse os cul-
pados. A me escarnece constantemente o que  respeitvel, mas,
pior ainda do que tudo o que diz,  a vossa desprezvel atitude para com 
a moral da gente vulgar. Damastor nunca devia ter tido nada com essa 
rapariga, mas, j que errou, admiro a resoluo da me em impedir que 
isso se repita. Nem posso exprimir o desprezo que sinto por Adrasta. Nada 
farei para encobrir as suas faltas nem
para reparar um lugar na sociedade que no merece. E se acaso
ficar aqui, repito o que disse quando entrei, no ficarei na mesma
casa que ela!
- Abandonas os teus pais no desespero, no  assim? - gritou Menelau. - 
Pretendes julgar-me, oprimido como estou por este e
por outros problemas? Contudo, no fazes o que te peo, para esclarecer 
um deles. Quem  egosta agora, gostava que mo dissesses?
- Tu - disse Hermone. - Tu e a me amontoaram dificuldades, e querem que 
os ajude, apesar da perda do meu respeito prprio e do sacrifcio dos 
meus princpios. Nada lucraria em falar com Crita; pelo contrrio, 
apenas perderia a reputao de que gozo pelo meu comportamento exemplar, 
e, neste ponto, sou a
nica na famlia. No penses que no sinto afeio por ti, ou que me 
agrada a ideia de deixar a minha casa por uma razo como
esta, porm, tenho o direito de ser eu prpria. As pessoas que mais falam 
em dirigir as suas prprias vidas, como a me, habitualmente envolvem os 
outros antes de conseguirem os seus fins.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
167
- Despedaas-me o corao - exclamou Menelau. - No fiz nada, nem te pedi 
que fizesses nada que justificasse uma conversa destas. Se desejas deixar 
esta casa, parte. Terei uma conversa com Orestes logo que possa.  
preciso que saiba tudo isto da nossa parte. Depois lhe apresentars a tua 
verso.
- Hermone ~ disse Helena -, no querias casar com Damastor, pois no?
- Claro que no.
- Nunca pude compreender porque  que as mulheres tm tantos cimes dos 
homens com quem no querem casar - comentou Helena. - Nem por que razo  
mais fcil perdoar o crime do que a beleza.

-  Posso entrar? - perguntou Eteoneu. - No queria incomodar, mas vejo 
que est aqui a famlia toda reunida, e prefiro dizer as notcias todas 
j.
- Que notcias? - gritou Menelau.
- De Orestes. Olharam para ele, e permaneceram em silncio. Ele esperou 
por uma pergunta que o encorajasse, mas, por fim, teve de continuar 
sozinho.
- As notcias, por um lado, so boas; por outro, ms. Em primeiro lugar, 
o rapaz vingou a morte do pai. Matou Egisto.
- Formidvel! - exclamou Menelau. - Logo vi que Orestes era capaz de 
desempenhar a tarefa sozinho, e  com grande satisfao que noto que o 
filho cuida da memria do pai; ao menos Inostra que no terminou aqui a 
nossa nobreza. Muito boas notcias, Eteoneu!
- Costumas dar-nos sempre as linhas gerais primeiro, e os pormenores 
depois - atalhou Helena. - Podemos ouvir j os pormenores?
- O mensageiro diz que Egisto estava nervoso, a pensar num possvel 
ataque por vingana; no conseguiu saber onde estava Orestes e vivia na 
desagradvel possibilidade de uma facada nas costelas, em qualquer 
oportunidade. Clitemenestra dominava-se

168
JOHN ERSKINE
muito bem, ou talvez nem sentisse nada, mas, por ltimo, Egisto, preferiu 
ir por partes: comeou pela religio. Todas as manhs era
certo furtar-se para o altar domsticojlembrai-vos do lugar, Menelau, em 
que o vosso irmo desgastou umas poucas de rochas para as devoes da 
famlia?); pois bem, ali sacrificava Egisto um animalzinho, e pedia 
proteco at  manh seguinte. Clitemenestra
nunca o acompanhava, diz o mensageiro, pois no acredita em sacrifcios. 
Assim, costumava o infeliz rei refugiar-se ali todos os dias antes de 
iniciar os seus deveres da manh. Orestes rondava pelas imediaes at 
que soube do hbito do inimigo. Ento, uma
manh, quando Egisto observava atentamente a chama, Orestes esgueirou-se 
furtivamente e cortou-lhe a cabea. Foi apenas isto.
- Eu sabia que ele havia de mostrar do que  capaz - disse Menelau. - 
Isto coloca-o num lugar bem alto na minha estima.
Se no fosse a sua me...
- No podes esquecer a me - exclamou Hermone -, agora que ele se portou 
to bem? Disseste que esta prova havia de revelar-lhe o carcter. Ora v 
se s justo, meu pai, e concorda que escolhi um bom marido.
- Se esta  a classificao dos deveres de esposo, est aprovado - disse 
Helena. - Mas ele no h-de passar a vida a vingar assassnios, e espero 
que cases com ele mas por motivos diferentes dos da sua habilidade para 
matar Egisto. Onde se encontra ele, Eteoneu? Gostaria bem de ver Orestes.
- Parece-me que vem a caminho - respondeu Eteoneu -, mas
duvido que venha para aqui, a no ser que lhe faais um convite
especial. Com excepo da vossa filha, pensa que a famlia no gosta 
dele, e, por agora, est... bem... bastante nervoso e impressionvel.
- Achas que lhe devias mandar um convite especial, Menelau? Ento manda. 
No hesites. Queres que venha, no queres?
- Gostava bastante de o ver - disse Menelau. - H-de devolver a armadura 
que lhe emprestaste, no  verdade, Eteoneu? Era a melhor que eu tinha. - 
Ficai descansado, Menelau. Suponho que  de confiana em tais assuntos. 
H-de querer ver-se livre do lugar o mais depressa. possvel, e para aqui 
 que deve vir em seguida.
- No h-de cuidar ficar por muito tempo ao p da sua ne
tomou Helena. - Foi o pior que podia acontecer a Clitemenestra,
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
169
executarem-lhe o amante precisamente no estado onde se julgava to 
poderosa!
- Consentes ento agora no casamento? - interrogou Hermone.
- No - disse Menelau. - Admito que possuas a lgica da situao, mas 
ainda no me parece que ele seja homem para ti. Enquanto Eteoneu nos 
relatava as notcias, eu procurava uma explicao para o peso que sinto 
no corao. Fiquei contente com 'a vingana, mas, suponho que por ter na 
ideia que hs-de casar com Orestes, nada mais me podia tornar taciturno. 
Sinto-me como se tivesse perdido o melhor amigo, e Egisto no o era.
- Eteoneu - perguntou Helena -, o que disse Clitemenestra?
- Nada. Helena olhou para ele to fixamente que todos a fitaram e notaram 
que a cor lhe tinha desaparecido do rosto. - Tambm tens ms notcias - 
disse ela. -Conta-nos tudo. - Vejo que adivinhastes - respondeu Eteoneu. 
- Assim,  mais fcil contar. Clitemenestra morreu.
Helena ps-se de p, como se estivesse para os deixar. Depois, revestiu-
se da maior calma enquanto os outros falavam.
- Ora a est por que razo Orestes manejou tudo com tanta facilidade - 
comentou Menelau. - Se ela estivesse viva nesta altura, creio que no 
devia perd-los de vista.
- Nem admira que Egisto fizesse sacrifcios, tendo ela morrido. Suponho 
que realmente se amavam - disse Hermone. - Como  que ela morreu, 
Eteoneu?
- Orestes matou-a.
- No pode ser! - gritou Hermone.
- Pois, matou-a.
- A prpria me?
ae..
- A prpria me.
- Orestes!
- Helena! - disse Menelau. - Isto agora  bastante pior do que a morte do 
meu irmo. No h perdo no cu nem na terra para semelhante crime. 
Orestes tem a alma perdida. Em comparao, Clitemenestra era boa; espero 
nunca mais ver..
- Julgo que Hermone vai desmaiar - reparou Helena.
- Estou bem - tomou Hermone. - No te censuro, pai... mas  
impossvel... Mesmo que tivesse visto fazer uma coisa dessas,

170
JOHN ERSKINE
diria que era impossvel. Orestes amava-a, e tinha o mais profundo 
sentimento do dever filial...  simplesmente impossvel!
- Se quereis dizer com isso que no foi ele, enganais-vos -
disse Eteoneu. - Matou-a. Foi um dever filial contra outro, e vingou-se. 
Ele sabe que no hs-de gostar; de resto, ningum parece aprovar. Por 
isso  que hesita em c vir. _  No mais colocar aqui os ps - protestou 
Menelau. -
A minha mulher sabe como seria difcil um encontro com o assassino do meu 
irmo; certamente nunca lhe pediro que receba em nossa casa o filho que 
matou a sua irm. Este casamento fica anulado de uma vez para sempre. 
Deduzo que retiras o teu convite especial, Helena.
- Temporariamente, apenas - tornou Helena. - Sinto pena de Orestes. 
Abstraindo de todas as emoes, sinto pena principalmente de um rapazito 
srio e tolo que fez tal coisa para cumprir um dever.  uma alma perdida, 
Menelau, mas no quero que se perca mais do que o necessrio. Imagina o 
que vai sentir quando conceber o que fez! Talvez seja melhor mand-lo 
vir, antes que seja tarde. Sim, manda-o vir, Menelau!
- No vejo onde queres chegar - disse Menelau.
- Nem eu - observou Eteoneu. - Estas ideias modernas so para mim 
inatingveis. J matar Egisto dificilmente foi decente, mas da a matar a 
me... no, no devo abrir a porta a um homem que matou a prpria me.
- No quero que venha - declarou Hermone. - Seria horrvel na presena 
de todos os da casa. Creio ser melhor v-lo primeiro a ss.
- No hs-de v-lo em parte alguma - gritou o pai. - Para esta famlia, 
Orestes no existe... Se no fosse j tarde demais!... Quando tiver 
cessado um pouco todo este horror, mandaremos chamar Pirro de novo, e, se 
ele for como a tua me julga, podes casar com ele. Pode ter um ou outro 
defeito, mas, ao menos, nunca mais nos aborreceremos. Sempre era melhor 
uma aliana com Pirro, para recuperarmos a nossa fama no mundo. - Ia 
contar-vos, para acrescentar s notcias ~ disse Eteoneu que Pirro deve 
estar aqui dentro de um ou dois dias. Partiu mais depressa do que 
espervamos, e eu tinha dito ao homem que envimos, conforme as vossas 
nstrues, que o no mandasse voltar para trs se ele tivesse percorrido 
j mais de metade do caminho.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                     171
Retiro-me, se no se importam - atalhou Hermone. - Principia a doer-me a 
cabea e preciso de estar s por uns momentos.
- Antes disso - disse Eteoneu -, ouvi ainda mais uma coisa sobre Orestes. 
No admiro grandemente o rapaz, mas, o que  justo, diga-se. Talvez no 
fosse ele o criminoso, talvez. H uma verso que diz que ele no queria 
matar a me, mas apenas ficar por ali a certificar-se de que o faziam.
- Oh, espero que seja verdade!
- No vejo a diferena - disse Menelau. - Independentemente, foi ele quem 
o fez.
- Sim - volveu o guardio -, no h muita diferena, mas pensei que, por 
muito pouca que houvesse, havia de confortar Hermone.
- Se ele no a matou - perguntou Helena -, quem foi?
- Electra, a sua irm.
- No acredito que tenha deixado a irm fazer tal coisa em vez dele!
-  apenas um boato; o mensageiro diz que ningum sabe nada ao certo.  
que Electra no tem vivido com a me e Egisto, ou por no querer ou 
porque eles a no queriam, cada qual que interprete a seu modo. Logo que 
Orestes matou Egisto correu para a casa onde estava Electra. Creio que 
ela era casada ou coisa parecida. Recordo-me que, de qualquer modo, se 
encontrava numa situao estranha, e Electra tinha pedido  me que fosse 
l de manh cedo. Clitemenestra foi sem suspeitar do convite acolhedor, e 
Electra recebeu-a cordialmente, depois f-la entrar em casa, onde Orestes 
estava escondido, e ali a mataram. Se quereis saber qual dos dois a 
matou, tereis que perguntar a Orestes.
- No digas mais nada! - atalhou Menelau. - Quanto mais disseres, pior. 
Basta sabermos que a atraioaram por meio do dever da hospitalidade; que 
lhe pediram que fosse a casa da filha para a matarem! Que maior pecado 
pode haver?  costume, entre pessoas de categoria superior aos animais, 
observar-se em primeiro lugar o respeito devido aos pais. Logo a seguir, 
o dever para com o hspede.
- Assim pensou Orestes em tempos, quando eu o no deixava entrar - 
observou Eteoneu. - Julgava que estvamos completamente desmoralizados 
por no sermos hospitaleiros. Contudo, suponho que ele e a irm se 
desculparam, recordando a maneira

172
JOHN ERSKINE
como Clitemenestra recebeu Agammnon quando regressou de Tria; observou 
tambm as leis da hospitalidade. Por outro lado, pode dizer-se que ele 
era marido, e que, portanto, as leis da hospitalidade nada tinham a ver 
com o assunto.
- Eteoneu - disse Helena -, que razes fortes tens para pensar que 
Electra praticou o crime?
- Ora, essa ideia surgiu das coisas que Electra disse depois. Quando a 
vingana ficou concluda, trouxeram para fora os corpos de Egisto e 
Clitemenestra, e reuniram o povo para contarem o que se tinha passado e 
como se v, neste ponto, imitaram Clitemenestra. Porm, quando se juntou 
a multido, nem Orestes nem Electra puderam suportar a viso da me ali 
estendida e atiraram-se os dois ao cho, pode dizer-se mesmo num estado 
de considervel desespero (Electra pior do que o irmo), e acusaram-se 
publicamente. O mensageiro diz que era medonho de ouvir. Electra 
afianava que tinha sido ela, e, apesar de Orestes reclamar uma parte da 
culpa, no a contradizia. Todavia, no podemos confiar em coisas ditas em 
tais momentos.
- Pai - observou Hermone -, estou convencida que f Electra. Foi ela quem 
o instigou. Eu sabia que Orestes no  capaz de fazer uma coisa dessas. 
Est pronto a compartilhar, a culpa, por lealdade, mas ela  que actuou, 
tenho a certeza. O caso no  to feio como parecia.
- O caso  to feio que nunca mais deixarei Orestes atravessar o limiar 
da minha porta - garantiu Menelau. - Ests no teu direito de o 
defenderes, mas o facto  que ele matou a me. Se tens algum dos 
sentimentos naturais que costumam indicar a diferena entre o bem e o 
mal, deves reconhecer que fez mal, tanto mal que, a partir deste momento, 
perdeu o lugar na sociedade. j no o desejas para marido, pois no?
- Mas certamente! Ele  meu marido.
- Hermone, no me digas que queres casar com o homem que matou a me!
- Pois casarei com ele.
- Ser possvel que filha minha tenha alma to vil? Pensa bem no que 
dizes, Hermone! A sua mulher ser como ele, companheira do pecado, 
amaldioada para sempre. No mais entrars em casa honesta, nem te 
sentars  mesa com amigos, nern mesmo morrers em paz, nem descansars 
em tmulo sossegado.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRia                        173
Se pensas que o amas, lembra-te bem que no deves ter filhos. A maldio 
tem de morrer contigo! Fao ideia da profundidade do teu desgosto perante 
esta horrvel aco, mas no podes ainda compreender bem o horror. Pensa, 
calmamente, durante alguns dias; vers que tenho razo.
- Disseste a verdade sobre o meu futuro - tomou Hermone contudo,  o meu 
futuro. Perteno a Orestes,  sua maldio, ao seu infortnio. No o 
conheces como eu, e talvez nunca pudesses compreender aquele carcter. s 
ousado, no campo de batalha, assim me disseram, e a me  ousada no amor. 
H pessoas ousadas no dever, suportam tudo, no por gosto nem por 
filantropia, mas pela justia.
- Chamas ousadia matar a prpria me?
- Em determinadas circunstncias talvez, mas eu pensava em mim e no meu 
dever para com Orestes. Hei-de cumpri-lo, contra tudo e contra todos.
- Mesmo que isso no faa ningum feliz?
- Menelau - disse Helena -, fizeste bem em dizer que Hermone precisa de 
tempo para compreender o significado de tudo isto. D-lhe tempo. No 
precisas de lhe dizer que pense no assunto. Ela  bem capaz de no pensar 
noutra coisa. Dentro de alguns dias podemos ento falar com mais calma. 
Todavia, nada poder importar depois do que aconteceu. Nada de pior pode 
acontecer, nem mesmo o seu casamento com Orestes. No entanto, o prprio 
Orestes deve fazer planos para a vida, e ns podemos esperar at o vermos 
ou ouvirmos.
- At o ouvirmos? Essa  boa! - observou Menelau. - Ele no colocar os 
ps nesta casa.
- Em todo o caso,  bem provvel que no venha aqui neste momento - disse 
Eteoneu. - Agora me lembro de ouvir dizer que vai em viagem religiosa, em 
peregrinao a um santurio no sei onde, para ver se consegue repousar o 
esprito. A mudana deve fazer-lhe bem, em todo o caso, e to depressa 
no voltar. Afinal, pelos motivos mais variados, os vossos parentes 
viajam continuamente.
- Assim era outrora - atalhou Menelau. - j  tempo de nos fixarmos, e 
creio que a minha famlia mais chegada est em casa para ficar. Hermone 
que pense todo o tempo que lhe apetecer, mas, Helena, vou agora actuar 
num plano inteiramente novo, verei

174
JOHN ERSKINE
se Pirro quer casar com ela. Eras tu que tinhas razo. Se ele a quiser, 
deixaremos Orestes prosseguir nessa peregrinao, que ser longa. Se 
censurei Pirro foi simplesmente por culpas que julgava no meu 
entendimento. Tem defeitos, mas  um homem a valer, e pode dar a Hermone 
o lar que lhe compete.  uma providncia que se faa esta visita o mais 
depressa possvel. _ Mas, Menelau, no tens razo nenhuma para insistires 
de novo nesta questo! - exclamou Helena. - Deixa o assunto arrefecer um 
pouco. Hermone no precisa de casar, se preferir ficar connosco, e 
certamente no deve casar com um homem que no ama.
- Ora ouve, Helena, irritas-me sobremaneira! Foste tu quem agitou toda 
esta questo de Pirro. Se no fosse por tua causa, no teramos pensado 
nele novamente. Tens-me convencido com toda a casta de argumentos 
insidiosos, e estes recentes acontecimentos completaram a minha 
converso. Por que motivo ests j do outro lado? Hermone que pense no 
assunto. Quando Pirro vier, falarei com ele. Talvez no queira nada 
connosco, mas, se reconsiderar a proposta, seguiremos aquela direco.
- Sinto bastante que o meu futuro lhes tenha dado tantos cuidados - 
concluiu Hermone -, e gostava que no se entregassem assim a este 
desnecessrio incmodo com Pirro. Porm, nada me compete dizer, e os pais 
sabem melhor o que fazer. Se me do licena, agora.
- Mas por que razo foi Helena com Hermone? - perguntou Menelau. - 
Sempre gostaria de saber o que esto elas a dizer.
O que achas da mudana de ideias da minha mulher acerca de Pirro?
- No mudou, creio, mas no v j nisso utilidade - observou Eteoneu. - A 
vossa filha casa com Orestes. No sei como nem quando, mas daqui em 
diante Orestes vale tanto como um homem casado.
- Contudo, ele nada tem nesta vida! No pode sustentar uma mulher com a 
maldio sobre si. No deve ter esperanas no matrimnio.
- No afirmei que ele tinha esperanas nisso, mas que ela casava com ele. 
Quando o sentimento do dever desperta,  medonho, Menelau. As mulheres l 
tm a sua maneira de ajustar as
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                    175
convenlencias ao que querem. Ela casa com ele, e, mais tarde, ele h-de 
ouvir falar de vez em quando nos sacrifcios que ela fez por ele. Pobre 
diabo!
- Mas ela saiu muito submissa - disse Menelau. - Praticamente obedeceu-
me, no notaste? E conto que Helena continue o bom xito quando estiverem 
sozinhas. Deseja Pirro mais do que eu, e deve at sentir horror de pensar 
em Orestes.
- Assim , porm julgo a vossa esposa muito hbil na maneira como se 
esquiva a um argumento. Parece saber quando perde e quando ganha.  raro 
numa mulher.  dom de Helena aceitar os factos que lhe dificultam os 
movimentos. Helena no gostou que abordsseis a questo do casamento 
neste momento, vi-o bem. Suponho que acha que perdestes a oportunidade. 
Hermone pode estar submissa, no entanto, aposto que Helena est neste 
momento a ver se descobre se realmente o est ou no.
-  E provvel que tenhas razo ~ conveio Menelau. - Sempre gostava de 
saber onde aprendeste tanto sobre as mulheres.
- Sei at demasiado - disse Eteoneu -, e nesta casa recordam-me 
continuamente tudo o que sei. Devia estar em lugar onde esquecesse um 
pouco. Tenho estado a pensar na minha demisso, como sugeristes. Para a 
semana, quando tudo estiver mais calmo, gostaria de c vir dentro para 
falarmos a esse respeito.
s uma rapariga de Ah,  um amorzinho, Adrasta! Realmente, sorte. Deixa-
me pegar-lhe. H tanto tempo que no aperto uma criana nos braos... mas 
ainda sei.
- Claro que sim, Helena! L est ele de novo a chuchar no dedo! Tirai-lhe 
o dedo da boca, por favor, sim, Helena?
- Mas julgas que consegues tirar-lhe esse hbito?
- No devo ao menos experimentar?
- Suponho que sim. Aprende-se tanto com a experincia... Depois que a sua 
tez ficou rosada, creio que realmente se parece contigo, Adrasta. No 
vs?
- Oh, no, Helena, acho-o bem mais parecido com o pai. No sei se devo 
alegrar-me, se ficar triste.

176
JOHN ERSKINE
- Mas alegra-te, certamente! Damastor  um bonito rapaz, e tu desejas que 
se parea com os dois. Porm, no podes dar uma opinio definitiva, tendo 
ele apenas uma semana de idade. Es capaz de j ter descoberto nele 
caractersticas profundas?
- Sabeis, Helena? Na verdade, j descobri.  j uma companhia, e j lhe 
conheo o feitio. E julgo mesmo que comea j a dar um pouco pela minha 
presena. Se assim no for, terei cimes, porque, desde que entrastes, 
ainda no tirou os olhos de vs. j estais habituada, claro.
 um amor! Achas que j sabem destas coisas, mesmo assim to pequeninos?
- Bem, Hermone flirtou com o pai quando tinha ainda uma semana. Alis, 
foi a nica indiscrio que se permitiu fazer. Claro que sabem disto, 
logo que nascem. O teu filho h-de tornar-se cada dia mais experiente. Se 
revestir um ar mais profundo do que este, no terei coragem de o encarar. 
Est a ler na minha alma neste momento... Ento, minha filha, no chores! 
j to dou outra vez. Olha que patetinha, a chorar! Incomodo-te, com 
certeza... Volto mais tarde, depois de descansares. - No v, Helena, no 
me incomoda nada. Fico assim s vezes,  da minha pouca sorte. Os 
carinhos que dispensais  criana fazem-me...
- No digas disparates! - interrompeu Helena. - No tens nada pouca 
sorte. Hs-de ser uma mulher extremamente feliz. Que mais queres, se tens 
este lindo rapaz para criar e amar, e amigos em teu redor que lhe invejam 
a sorte de possuir tal me? Hs-de dar-lhe uma maravilhosa infncia, uma 
maravilhosa mocidade; h-de ser sempre novo e lindo como tu-
- Sois muito amvel, Helena, em dizer assim palavras to animadoras, mas 
ele no ter no mundo mais ningum seno a me; no ter pai como os 
outros meninos; nunca ter um lar completo. Eu no tinha o direito de o 
trazer ao mundo; por isso toda a sua vida me h-de recordar a minha 
culpa, todas as vezes que eu der pelo que lhe falta.
- Duvido que a natureza se importe com os nossos direitos de uma maneira 
ou de outra. Quanto a fazer-lhe falta o pai na infncia e depois,  
inteiramente verdade, e no tentarei comentar o facto. Sei tambm que 
choras pelo lar que sonhaste vir a ter. Alm disso,
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                     177
ningum poder pretender que tens a felicidade que mereces. Mas, em todo 
o caso, deves ter calma. Minha querida filha, podia ser ainda pior!
- Como?
- Ora, ele podia ter casado contigo.
- Achais que isso seria ainda pior?
- Bom. D-me novamente a criana. Comigo est mais sossegada, e eu posso 
dizer-lhe coisas que pode aproveitar mais tarde... Sim, podia ser bem 
pior, considerando o caso de Damastor. Se tivesse sido o amante ideal, o 
tipo que sonhmos, mas que nunca conseguimos encontrar, aquele que nunca 
se esquece, ento a sua perda teria sido a tragdia que agora supes, mas 
ento no o terias perdido. Foi bom amante a princpio, no foi? Mas 
deixou de despertar interesse. A culpa no  dele, nem tua.  
simplesmente a sua maneira de ser. No sabes como seria viver com ele, 
ano aps ano, quando lhe morresse a paixo e te restassem para simples 
marido as sobras do seu carcter. Evidentemente que seria muito amvel 
contigo, tu gostarias muito, mas, mesmo junto dele, havias de considerar-
te abandonada pelo homem por quem suspiraras. Viverias com um estranho 
por vezes parecido com o heri dos teus sonhos. No. Assim, ests melhor. 
No tens a simpatia da sociedade, mas, na verdade, ests bem. O pequenino 
 o fruto do teu amor, e o teu amor foi, felizmente, arrebatado quando 
podia ser uma sensaboria. O teu sofrimento tambm  claro e limpo... Mas, 
Adrasta, este jovem nunca h-de gostar de leituras dramticas. Est a 
dormir. Posso p-lo no bero?
- Por favor, e tirai-lhe o dedo da boca, sim?
- Ora, muito bem... acho que s uma pequena de sorte, Adrasta, por 
conservares puros o amor e o sofrimento.
- No vejo sorte alguma em ter um sofrimento puro ou impuro.
- No  sorte nenhuma t-lo, mas, j que assim  necessrio,  bom sermos 
capazes de o sentir. Isso mostra apenas que ainda queres viver. Eu dava 
tudo para sentir o sofrimento. Sei muito bern o que digo: invejo-te. 
Temos conversado tanto sobre o amor que sabes perfeitamente o que penso 
acerca dele, e como senti a falta do meu ideal. Tambm tenho pena de 
sempre ter sentido essa falta. Todas as pessoas que chegam  concluso 
que a vida  to maravilhosa quanto breve deviam esperar conhec-la, 
seno toda, pelo menos nas coisas profundas e elevadas que a compem.

178
JOHN ERSKINE
O pior destino dever ser o dos adormecidos, dos que desfalecem, dos que 
descansam nos prprios hbitos e deixam simplesmente os dias passar. 
Queria conhecer a vida a fundo, intensamente. Talvez a conhea ainda um 
dia; ou isto acontece ou nunca descobrirei como. Comigo a vida no quer 
dar-se a conhecer. Coloca-me  parte, faz-me sentir um caso especial, e a 
sorte normal que eu queria, e estou convencida que  normal, parece-me um 
sonho.
- Mas, Helena, pareceis-me sempre muito conhecedora da vida. Haveis. 
Dissestes-me a verdade sobre Damastor bem antes de me aperceber dela, e 
agradeo-vos no me recordares o meu fracasso motivado por no seguir o 
vosso conselho. No podeis saber tanto, se no tivsseis mais 
experincia do que aquela que admitis.
- A  que est; julgo que conheo a vida, mas o certo  que no a 
conheo como devia, atravs dos sentidos. Mas, Adrasta,  preciso que 
saibas que no vim c para te falar da minha vida! Apenas quero mostrar-
te os aspectos em que, segundo a minha opinio, s menos infeliz do que 
supes. J que a minha experincia no foi verdadeiramente profunda, 
gostava, ao menos, de estudar os outros, de tentar compreender a vida por 
meio deles. Quando aprenderes a ver os seres humanos dessa forma, e a 
ver-te a ti prpria, apesar do que eles pensam, apenas como mais uma 
ilustrao da natureza comum, ganhas em caridade. Talvez adquiras um 
interesse mais generoso pelos teus semelhantes, mas, na verdade, o gume 
do sofrimento esfumou-se, mesmo nas maiores paixes. No  que saibas 
demasiado; ningum sabe o bastante. Porm, esqueces-te de chorar, e 
aprendes a sorrir para a humanidade, a comear por ti prpria. O amor no 
nos abandona to depressa como o sofrimento; e a saudade permanece mais 
tempo ainda; ambos tm que ver com o corpo. Todavia, o sofrimento, a 
doena que te assalta agora, parece todo feito de esprito. Eu preferia 
que o meu esprito no fosse educado longe dele.
- Helena, fazeis-me sentir triste falando assim. Tenho razes bastantes 
para saber que o vosso corao  temo, que perdoais rapidamente, que 
estais mesmo quase a...
- Julgo ser honesta, minha querida Adrasta, mas no tenho nada mais com 
que me vanglorie. O facto triste  que tenho feito muita gente infeliz, e 
serei recordada se Menelau ou Hermone escreverem o meu epitfio como uma 
mulher que mais no foi do que generosa e justa. Mas tenho desculpa, se  
que preciso
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
179
disso, por ter assistido  vida como a uma comdia (uma comdia mesmo 
triste e que faz pensar); nestes ltimos anos a cada momento eu podia 
construir melhor reputao se fosse minha vontade renunciar s minhas 
virtudes. Se fingisse um amor por Menelau que nunca senti, chamar-me-iam 
esposa-modelo. Na verdade, a tragdia foi perder o amor, mas todos pensam 
que admitir o facto  que importa. Se me mostrasse esmagada pelo 
arrependimento quando vim para casa, ningum acreditaria em mim; todos 
pensariam que era correcto. Claro que no sinto arrependimento algum. O 
meu amor por Pris no provou ser a realidade, mas foi o mais prximo 
dela que conheci, e dou graas aos cus por ele. Por outro lado, os que 
pretendem reformar-me no convencem, porque eles prprios no esto 
suficientemente vivos, e, apesar de conservarem a reputao intacta, 
parecem no entanto ter desviado as suas almas. O sofrimento que dizem 
habitualmente lamentar no se parece em nada com o verdadeiro sofrimento, 
no passa de vexao ou insignificante despeito. No sabem o que  o 
sofrimento! Quero dizer, Orestes sabe. Mas Crita, por exemplo, pensa que 
sofre porque o filho quis escolher a mulher. Tem realmente graa chamar-
lhe sofrimento. E tu julgas-te esmagada porque o teu amante no era um 
homem superior. E eu digo-te que deves dar graas pelo amor que te deu 
este filho, e deves reflectir no que poupaste quando Damastor se permitiu 
abandonar-te. Que horror, se tivesses de fingir felicidade quando ele 
deixasse de ser o que era! Tens j algumas experincias reais e, entre 
ns, poucas h que as tenham todas. As que tens foram plenas. Muitas 
mulheres te invejam. No te entregues  saudade das horas que passaste 
com ele ao luar, da seduo dos seus beijos, do encanto das suas 
carcias. Tudo o que sentiste ento era verdadeiro. Os que riem de tais 
sensaes so incapazes de as ter. E no ensines a esse rapaz que o amor 
 um perigo, e que se acautele ou que a discrio  o segredo da vida!
- Tenho pensado bastante na profisso que gostaria de dar-lhe.
-  natural. Tem s uma semana.
- Mas a responsabilidade  tremenda, Helena.
- Qual responsabilidade?
- Ora, de uma boa educao.
- Farias melhor se no te preocupasses tanto. No teu lugar, havia sempre 
de recordar-me que h ainda um pouco de bondade

18O
JOHN ERSKINE
natural no corao humano; procurava-a no rapaz. E encorajava-a. Ele h-
de ter preferncias, h-de interessar-se profundamente por qualquer 
coisa, e os seus cuidados ho-@e ser inocentes, pelo menos
enquanto for novo. Eu encorajava-o, simplesmente. Se no se interessasse 
por nada, ento, perderia a esperana. Nesse caso educava-o de maneira a 
fazer o mnimo de mal possvel  humanidade. Dizia-lhe que no tem o 
direito de reformar os outros, a menos que concorde com o que eles fazem. 
Isso havia de conserv-lo fora do maL Mas o teu filho h-de ser como tu e 
como Damastor, sim, como o pai. Damastor era fraco, mas, por algum tempo, 
amou. Deves proteger o teu filho das presses que inutilizaram a alma do 
pai. Supe que homem Damastor no daria se a me o tivesse animado de 
maneira a perder o corao pela primeira rapariga bonita que lhe 
aparecesse, se o tivesse instigado a apaixonar-se pela mais bonita a 
sonhar com ela, a conquistar o mundo para lho oferecer!
- Nesse caso, certamente no chegaria a conquist-lo, nem
mesmo por pouco tempo.
- Chegavas, sim. Essa me havia de dizer-lhe que era seu dever, e tambm 
direito, amar-te sempre. Uma educao dessas devia fazer grande diferena 
em Damastor... Mas quero ainda dizer-te uma coisa, Adrasta, alis, duas 
coisas. Depois de educares o teu filho por este mtodo ideal que sugeri, 
no esperes que ele fique por a; h-de encontrar o seu prprio caminho e 
surpreender-te. E ento hs-de tornar-te falsa nos teus conceitos, e hs-
de sentir tentao de proceder como Crita. Dizes: Meu querido filho, 
no foi essa a educao que te dei. Quando esse dia chegar, lembra-te 
bem do que te estou a dizer, compreenders ento que a vida  uma 
comdia.
- No posso imagin-lo crescido, este querido inocente rosado. Claro que 
h-de ter vontade prpria. Quero que a tenha.
- Claro, que queres que tenha vontade prpria, e vais pedir-lhe que faa 
tudo quanto lhe dizes. Bem, neste momento, parece inocente. Suponho que 
por isso  que estamos bem mais velhas. Tudo o mais  iluso, 
provavelmente, a no ser os seus ps. H pouco a dizer a respeito dos 
ps, depois de terem calos, mas, nas
crianas, ve-se bem que so formas primorosas. Alis, os mais velhos 
acham sempre belos os mais novos, quer o sejam quer no.  uma razo 
forte, por terem a mais uma gerao. Ento? Ests de novo cansada? Vou-me 
j embora.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
181
- S mais um pouco, por favor. No v ainda.  preciso que vos diga umas 
coisas, para ser franca, como sempre costumais ensinar Aprecio muito as 
vossas palavras de conforto e a maneira como me fizestes ver que tudo 
caminha bem. S de vs se podia esperar semelhante coisa. Porm, no 
quero que me chamais ingrata, descobrindo eu o esforo generoso dos 
vossos conselhos sobre a vida, sobre a juventude e a maneira de educar as 
crianas. No era assim de forma to realista que falvamos quando eu era 
feliz. Tornaremos ainda a ser as mesmas? Sei que j no sou a mesma amiga 
que era outrora e em certo aspecto tomei-me objecto de compaixo. A vs 
devo um tecto onde me abrigar, uma cama onde me deitar.
- No digas essas coisas, nem as penses sequer. s exactamente a mesma, 
fazes ainda parte da minha famlia e sinto especial dedicao por ti.
- No, Helena, no podeis enganar-me. Menelau quis mandar-me embora.
- Sim,  evidente que falou nisso! Nada podia ser mais digno. Ningum 
poder dizer que o meu marido no se portou com correco nesta casa. 
Disse categoricamente que devias ir-te embora, e no se falou mais no 
assunto. No se falou mais no assunto, e tu ficaste.  mesmo prprio de 
Menelau.  realmente o homem mais amvel que jamais pretendeu endireitar 
o mundo. No se importa de renunciar aos resultados at conseguir uma 
conversa. A verdadeira razo por que me trouxe para casa em vez de me 
matar foi querer conservar algum com quem tagarelar na velhice, durante 
todo o dia. Nunca disse de ti metade das injrias que me lana no rosto. 
Nem ele nem eu podemos fazer bastante por ti e vais ser a nossa filha, 
agora que Hermone se foi embora.
- Foi-se embora para onde? Nada ouvi sobre isso. j casou COM Orestes?
- Deixou-nos, fugiu. Suponho que casar com Orestes, se o no fez j. Em 
todo o caso, j a perdemos. Num momento impulsivo, o pai ameaou-a que 
arranjaria um encontro com Pirro, e Hermone tOMOu-o a srio, ou fingiu-
o. Isso deu-lhe uma ptima desculpa para se lanar nos braos de Orestes, 
em busca de proteco. No sabemos onde est.
- No estais preocupada por causa dela, Helena?
- De todo! Apenas lamento no sabermos tratar melhor com a nossa filha, 
mas ela no corre perigo. O que lhe pode fazer mal?

182
JOHN ERSKINE
Penso antes que aquela deciso de resolver os prprios problemas lhe h-
de fazer muito bem. J perdeu tempo bastante a tentar resolver os meus. 
Se no mostra muito respeito pelo pai e pela me, por outro lado no me 
apresso a declarar que o merecemos. No, se isto for o pior que ela 
fizer, ficarei contente... Adrasta, Crita j veio ver o neto?
- Certamente que no. Aquela gata!
- A propsito de respeito filial, como sabes, ela  tua sogra, em 
esprito, seno nos actos. Porque no lhe pedes que venha? _ Seria 
preciso que eu no tivesse vergonha! Depois das coisas que ela afirmou de 
mim! _ Ora a est! Deixa-a falar primeiro, e vir depois. No teu lugar, 
pedia-lhe.
- Descansai, ela no viria.
- Mas pede-lhe. Ela dir que no. Diz-lhe que o pequeno reclama a sua 
visita, mesmo que ela no o queira ver. Ela h-de vir... E assim podes 
socorrer Damastor.
- Ento, no percebo. Tendes dito que no teria sorte alguma em casar com 
ele, e agora sugeris que v busc-lo!?
- Foi fraqueza minha, admito. Creio que passavas perfeitamente sem ele, 
mas no consegues, e nunca me perdoarias no te dizer como aproximares 
essa me indigna. Assim . Agora, faz o que entenderes. Nota que eu disse 
socorr-lo, porque no mais poderemos ressuscitar Damastor, que talvez 
nunca tivesse chegado a existir. Mas podia... De qualquer modo, Adrasta, 
estou contente por ser um rapaz. As raparigas sofrem muito mais, mesmo 
quando escolhem.
- Helena, pensais que Hermone deve casar com Orestes?@',
- Minha querida filha, ela vai casar com Orestes.
- Mas deve?
- Queres saber se eu devia casar com ele? S se engolisse veneno antes do 
casamento. Tem quase todos os defeitos que me desagradam no gnero 
humano. No v nada de bom na vi mas consente em encarregar-se dela.
- Helena, se Hermone casar e tiver um filho, des v-lo?
- Imediatamente. Nem espero que me convidem. Se no quiserem receber que 
me batam com a porta na cara. E porq no?
- Mas, Orestes... e a vossa irm!?
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
183
- A criana no tem culpa. Se Hermone casar, aceito a escolha que fizer. 
Se ela tambm puder aceit-la, h-de ser feliz. Conheces o meu lema: 
arrepende-te antes, nunca depois.  que depois j  demasiado tarde para 
censuras. Sim, na verdade, quantas vezes, quando todos nos sentarmos  
mesa de jantar, Orestes h-de olhar para mim, por sobre a toalha, 
meditando no facto imoral de a minha escandalosa vida no prejudicar em 
nada o meu aspecto, enquanto hei-de olhar para ele, admirando-me da 
conscincia humana e dos seus mistrios, do que nos leva a praticar 
aces detestveis tendo em vista a nossa salvao e o bem dos nossos 
amigos!
- Mas, Helena, dizeis de Hermone o mesmo que haveis dito de mim, que 
tudo caminharia melhor se o seu amante a abandonasse e a deixasse criar o 
filho sem ser casada?
- Oh, meu Deus, estou na inquisio! No, Adrasta, nunca diria o mesmo de 
ti e de Hermone. No sei se ela aproveitaria as oportunidades, se 
Orestes a deixasse. No tenho a certeza se tm bastante amor um pelo 
outro, se j o tiveram, ou se viro ainda a t-lo algum dia. Os casos no 
so paralelos. Pelo que posso conjecturar, olham-se no como amantes mas 
como predestinados. Certamente, para Hermone, Orestes representa tanto 
como qualquer um dos seus muitos deveres. Se algum dia chegar a falar com 
ele, hei-de expressar a minha simpatia. Contudo, sei bem o que digo sobre 
o teu caso, e bem gostaria de poder dizer o mesmo do de Hermone. O teu 
problema diz respeito apenas  sociedade, o que  bastante, mas tu no 
tens nada contra as realidades, que no fim  o que conta.
- Colocais essa manta em cima do menino? Pode ter frio.
- Se sempre dormir assim to profundamente h-de dar-te poucos trabalhos. 
Oh, que manta esplndida!
- Sabeis? Eteoneu entrou aqui sem que o chamassem, sem pedir licena, e, 
verdade vos digo, ps-se a gritar como um selvagem. Disse que o diabo 
levasse esta casa, que ia deixar tudo isto, e chamou-me... o mesmo que a 
uma mulher qualquer, mas pior ainda, disse que Damastor era um asno. 
Depois, colocou isto em cima da cama do menino.

QUINTA PARTE
A BELEZA- DE HELENA

1.
- O que  certo - disse Menelau -,  que no h meio de a
encontrarmos. perco         -  isso mesmo - tornou Eteoneu. - Os homens 
j
rreram dez milhas aqui nas imediaes e ningum ouviu falar dela. Ningum 
a viu passar.
-  estranho como, assim, em pleno dia, num pas civilizado, uma rapariga 
pde sair muito sossegadamente de casa e desaparecer por completo.
- A minha opinio  que ela no deve estar muito longe -
disse Eteoneu. - Confesso que pouco vale o que penso, j que no vejo 
como ela conseguiu esconder-se aqui perto, mas no me admirava de todo se 
a visse aqui entrar neste momento.
- Pois eu admirava-me - volveu Menelau. ~ Anda  procura de Orestes e no 
 por estes stios que ele se encontra.
- Como o sabeis?
- No tem esse descaramento.
- Por outro lado - disse Eteoneu -, s falta isso acontecer para juntar 
ao vosso enormssimo embarao ao a verdes aparecer justamente quando 
Pirro chegasse. Decididamente, sois um desventurado.
- O embarao maior no seria esse, o pior ser acolher Pirro com as novas 
de que a minha filha fugiu. Temos que encontr-la, Eteoneu.  
absolutamente indispensvel. A ideia que Pirro tem

188
JOHN ERSKINE
de mim  a do homem a quem a mulher fugiu, e se tenho que lhe dizer que a 
minha filha tambm fugiu... No, no posso suportar uma coisa dessas, 
simplesmente, no posso! _ Tambm acho muito improvvel que ela fosse ao 
encontro de Pirro. Detesta-o!
- Que sugeres que faa em seguida? - perguntou Menelau.
- j disse tudo. No tenho mais sugestes.
- Deves ter, Eteoneu! Procura bem. No podemos desistir assim.
- No precisais de desistir, provavelmente tendes alguma reservada. Mas 
receio bem no ter mais prstimo no assunto. No consegui encontrar um 
nico vestgio dela, e, para dizer a verdade, no me esforcei muito. 
Levei toda esta ltima busca a imaginar o que faramos dela se acaso a 
encontrssemos. _ Ora essa! Trazamo-la para casa, evidentemente! Foram 
essas as ordens que te dei. _ Est bem, mas, depois? Acharia talvez 
melhor dizer a Pirro que Hermone se encontrava presentemente fora do que 
exibi-Ia acorrentada ou como pensastes prend-la. Sim, porque se a 
trouxerem  sob priso. Melhor ser que a deixeis ir. Ao que chegmos, 
Menelau! Suponho que este  o meu ltimo servio: procurar resgatar a 
vossa filha fugitiva. Ficarei contente quando Pirro chegar, e partirei. _ 
No posso de maneira nenhuma dispensar-te at encontrarmos Hermone! No 
me ias deixar antes disso, seguramente?
- Bem, Menelau, gostaria de ser razovel, mas estou cansad da minha 
ocupao, e no creio que Hermone volte algum dia.
O que me pedis,  que fique para sempre. - Realmente  o que gostaria de 
te pedir, mas... ou seja, apenas por um tempo razovel. Vamos fazer uma 
combinao: ficas at se encontrar Hermone, quer ela volte aqui quer 
no. Logo que soubermos positivamente onde est, podes partir. Se ela no 
aparecer antes de Pirro chegar, ficas apenas at ele se ir embora. Pensas 
que chega de um momento para o outro... Assim que partir, s livre. Em 
qualquer caso para mim ser o pior de tudo, e, ao menos, provo-te a minha 
gratido.
- No sei - objectou Eteoneu. - Parece um pouco complicado... Dissesteis 
que posso ir-me embora logo que saiba onde est Hermone?
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                     189
- Assim .
- Deuses louvados! Ento, posso partir de imediato! Vde! Aqui est ela.
- Onde?
- Mesmo atrs da porta.
- Que significa isto, Hermone? Por onde tens andado?
- Pergunta-mo noutra altura. Quero falar contigo e com a. minha me...
- Temos de te dizer uma ou duas palavras. Deves supor justamente o quanto 
nos tem preocupado o teu procedimento... - Que tolice, meu pai! Onde est 
a minha me?
- Helena! Helena! Est aqui Hermone!
- Suponho que posso ir-me embora agora! - exclamou Eteoneu.
- No  preciso - volveu Hermione. - No vou dizer nada que no possas 
ouvir.
- Hermione, querida filha! - exclamou Helena. - Como estou contente por 
teres voltado!
- No voltei. Ainda no disse tudo e quando ouvires o que tenho para 
dizer, tenho a certeza de que no hs-de ficar to contente.
- A ausncia no te aperfeioou os modos - notou Menelau. -
No tens que recear Pirro, se lhe falares como falas aos teus pais, Ele  
forte, mas no o ser para sempre.
- Ainda contas com a visita de Pirro? - perguntou Hermone.
- Mas, a todo o momento!
- Ele no vem - afirmou Hermone. - Era isso o que eu tinha para vos 
dizer.
- No vem?! - admirou-se Menelau. -Aceitou o convite, e Eteoneu soube que 
j vinha a caminho. No foi o que disseste, Eteoneu?
- j no pode vir - acrescentou Hermione.
- Talvez tenhas razo - corroborou o pai. - Mas sempre gostaria de saber 
porque no vem.
- Insultou Orestes.
- O que tem uma coisa a ver com a outra? No  Orestes quem escolhe os 
nossos convidados! O que escondes nesta conversa?
- Eu e Orestes encontrmos Pirro no caminho, e...
- O que fazias tu com Orestes?
- Isso agora no importa - respondeu Hermone. - Eu ia com ele pela 
estrada quando encontrmos Pirro. Calculei que era ele,

190
JOHN ERSKINE
mas nada disse. Ele parou para perguntar o caminho, ee, aantess quee eu 
pudesse fazer qualquer coisa para o evitar, souberam o nome um do outro. 
Pirro aprumou-se de imediato, e disse que como ia ser teu hspede, 
praticamente j o era, sentia-se obrigado a oferecer-me proteco. 
Orestes perguntou-lhe contra quem queria ele proteger-me, e Pirro disse 
que me queria proteger contra quem ousou levantar a mo contra a prpria 
me. Antes que eu tivesse conscincia do que se passava, cruzaram as 
armas.
- Nessa altura combateram - atalhou Menelau.
- Exactamente! Pirro morreu.
- Hermone, Pirro era meu hspede! No acredito que Orestes matou um 
homem que vinha para minha casa, que era meu, convidado!?
- Orestes matou-o, pai, justamente nas circunstncias que' acabo de 
relatar.
- Ora a est a ideia que Orestes faz da hospitalidade - murmurou 
Eteoneu. - Nunca me hei-de arrepender de o no ter deixado entrar. Se  
que se pode distinguir semelhantes horrores, parece-me que este  bem 
pior do que a morte de Clitemenestra. Ao menos ela tinha cometido um 
crime.
- Isto  que nunca entenderei! - exclamou Menelau. - Se pudesse cair aqui 
morto neste momento, receberia isso como uma
merc do destino. No tinha muito boas relaes com Pirro nem com o seu 
pai. Porm, convidei-o para minha casa, e, de boa f, ele veio de 
imediato. Ora, um dos meus parentes interpela-o no caminho e mata-o. Que 
desculpa poderei apresentar aos outros, ou a mim mesmo?
- Orestes sabia que Pirro era convidado do teu pai? - perguntou Helena.
Sabia - garantiu Hermone.  meu dever ir buscar o corpo de Pirro e 
enterr-lo com todas as honras - disse Menelau. - Em seguida creio que 
devo vingar-me de Orestes. Se no o fizer, ho-de supor-me cmplice de 
uma armadilha contra o meu antigo inimigo.
- No podes vingar-te de Orestes! - gritou Hermone. - No fez mal algum. 
Assisti a tudo, e, se tivesse procedido de forma diferente, seria a 
primeira a censur-lo. Pirro insultou-o (foi como se me tivesse insultado 
a mim). No me interpretes mal, no pretendo defender Orestes; ele no 
precisa que o defendam. No era para
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE  TRIA
191
felicidade minha nem de mais ningum que Pirro c vinha. Felizmente que 
Orestes o matou. Se ele o no fizesse, fazia-o eu. Tomei esta resoluo 
no dia em que o meu pai afirmou que me arranjaria um casamento. No achas 
que se deve agir em defesa prpria?
- Hermone! - exclamou Menelau.
- Nem pareces minha filha! - disse Helena.
- Vejo que chegmos ao fim de tudo ~ exclamou Menelau. Se uma nova 
catstrofe invadir a minha casa, no sei que nome lhe dar. Nada mais h a 
discutir. Se Hermone desejar Orestes depois disto, teremos de admitir 
que lhe conhece o pior, e se continua a gostar dele... Posso perguntar-
te, Hermione, s para simples informao, se desejas ser a mulher de um 
assassino?
- No o desejo - volveu Hermone. - Sou-o.
- J esperava - disse Helena.
- Que disseste que eras? - perguntou Menelau.
- Sua mulher. Disse-te muito claramente que ia casar com ele. No ramos 
casados quando encontrmos Pirro, e era imprprio, apesar de, 
provavelmente, no se evitar a contenda, se o fssemos. Mas eu mostrei a 
Orestes que havia de ser notado que viajvamos juntos, ao mesmo tempo que 
se falava do crime, e era melhor casarmos de imediato. Assim fizemos.
- Podes sair desta casa! ~ exclamou Menelau. - Eteoneu, fazes o obsquio 
de lhe abrir a porta?
- Obrigada, Eteoneu. No fazia qualquer teno de ficar tanto tempo; 
Orestes aguarda-me. Adeus!
- Um momento - atalhou Helena. - Menelau, chegmos realmente ao fim de 
tudo, como disseste. Temos a nossa opinio acerca do que Hermone e 
Orestes fizeram, mas, j que o fizeram sob sua inteira responsabilidade, 
nada temos a ver com as suas consequncias. Nada mais h a dizer, e assim 
podemos ficar amigos.
- Nunca poderei ser amigo de Hermone e Orestes!
- Certamente que sim! Que absurdo! Nunca na tua vida cometeste um erro? 
Eu j.  tudo uma questo de posio. Pode ser-se punido... ou no, mas 
no cabe aos amigos nem  famlia a punio. Deixa alguma coisa para os 
cus julgarem, Menelau! Depois do mal praticado, quero estar j refeita 
quando continuar a minha vida. Se pretendes o papel de vingador 
predestinado, consegues apenas arruinar o teu carcter. Orestes pode bem 
ser um criminoso,  a sua profisso. Porm, afigura-se-me que  como se 
se embrenhasse

192
JOHN ERSKINE
em srios trabalhos, e Hermone tambm, j que decidiu compartilhar da 
sorte dele. Na verdade isto diz-te respeito, a ti e a mim. Devemos ajudar 
os nossos filhos quando eles se encontram em apuros.
- Orestes no  meu filho.
- Bom, mas s o seu parente mais chegado, e a nica pessoa com quem pode 
contar. e escusado esqueceres as suas aces... eu no me esqueo, mas 
no mais devemos tocar no assunto. Tu e eu tentmos prevenir o mal de 
Hermone e falhmos. Vamos de muito boa vontade ajud-la enquanto ela se 
previne por si prpria. Hermone, da minha parte, esta casa estar sempre 
aberta para ti e para o teu marido.
- No est! - exclamou Menelau.
- Escusas de viver aqui, claro - continuou Helena - no seria nada 
confortvel, nem para ti nem para ns, agora ou em qualquer outra 
ocasio. Quem casa, deve ter o seu espao. Contudo, quando quiseres vir 
visitar-nos, foi aqui que foste criada, Hermone, e suponho que aqui 
encontrars mais aconchego do que, em nenhuma outra parte, ainda que a 
tua simpatia seja escassa.
- Est tudo muito bem para Hermone - disse Menelau -,
mas nada disso diz respeito a Orestes. No foi aqui criado, e, se
no for aqui mais simptico do que em qualquer outro lugar,  um
completo fracasso social. Explica-lhe bem, Hermone, que a afeio da 
famlia te inclui apenas a ti. A ele, no o queremos receber.
- Se me  permitido dispor a situao de outro modo - exclamou Helena -, 
sugeria que pedssemos a Hermone que mandasse aqui Orestes o mais 
depressa possvel. No deve haver j mal-entendidos nesta casa, e julgo 
que o mais prudente  falar com
Orestes de imediato. No mandes recados por Hermone nem por qualquer 
outra pessoa. Fala tu mesmo com Orestes. _ No consinto que entre nesta 
casa, e, naturalmente, no quero falar com ele.
- Ento no te importas que lhe fale eu? Foi a minha irm que ele matou, 
e, se h algum aqui culpado pela morte de Pirro, sou eu, porque fui eu 
quem sugeriu a sua vinda. Clamo o direito de falar com Orestes, Menelau.
- No creio que haja nada para lhe dizer, Helena. Provavelmente ser ele 
quem vai aproveitar a oportunidade para fazer uma preleco sobre a tua 
conduta, e apontar os meus erros.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
193
- Talvez me pergunte porque no o auxiliaste na vingana do pai - disse 
Helena. - Se o perguntar, explico-lhe que foi porque te retive em casa. 
Se me disser que tenho cometido erros, concordarei, e posso at inform-
lo melhor sobre o meu passado. Orestes no sente medo algum de mim, e 
estou ansiosa por v-lo. Quando o poders trazer aqui, Hermone?
- Aqui no, Helena! - exclamou Menelau.
- Tudo estaria perdido se me encontrasse com ele noutro stio qualquer, 
nem era prprio encontrar-me com ele noutro stio que no fosse a minha 
casa, e longe da tua proteco, Menelau. Quando pensas traz-lo, 
Hermone?
- Prefiro no o trazer, j que o pai no concorda.
- Est bem - disse Helena -, mas o teu pai j desistiu dessa atitude.
- No dei por isso - tornou Menelau.
- Peo perdo! Julguei que concordavas que era mais discreto para mim v-
lo aqui do que sozinha e longe desta casa.
- Ah, nesse caso, est bem - acedeu Menelau.
- Bem, ento, quando achas, Hermone?
- Mas eu no quero que ele venha, minha me. No tenho muita confiana no 
que lhe poderias fazer.
- Mas, minha querida filha, ele  inteiramente inofensivo. Dou-te a minha 
palavra de honra que nada de mal lhe acontecer aqui.
- No confio no que lhe irias dizer, e no quero que ele te veja
- teimou Hermone. - Agora  inteiramente feliz, ou s-lo-ia, no fossem 
as suas prprias infelicidades.
- Ora, isso  o que nos impede de sermos felizes - disse Helena -, 
excepto aqueles que se importam com- as infelicidades dos outros. No 
cuides que esse  o gnero de Orestes. Manda-o c, Hermone. Prometo 
restituir-to. Pode c vir amanh?
-  melhor mand-lo c vir, Hermone - observou Menelau. -
Para ver se acabamos com isto de uma vez para sempre! A tua me quer v-
lo. Asseguro-te que o no conservaremos c por muito tempo e no lhe 
faremos mal algum.
- Digam-me quando  que ele vem ~ interveio Eteoneu para dizer ao novo 
guardio que lhe volte as costas, fingindo no dar por ele. No se pode 
conceder a um homem desses uma hospitalidade formal.

194
JOHN ERSK1NE
- O que vem a ser isso do novo guardio? - perguntou Helena. - O, que 
temos chega perfeitamente.
- E que Eteoneu vai deixar-nos - elucidou Menelau. - Pediu a demisso, e 
eu prometi dar-lhe a liberdade quando Hermone voltasse. Nunca supus que 
ela viesse to cedo, caso contrrio no lho teria prometido. Por enquanto 
no tenho ningum que o substitua.
1 - Mas no podes ficar connosco, Eteoneu? - inquiriu Helena.
- Es aqui o meu mais antigo amigo; abriste-me a porta quando c entrei 
como noiva.
- E quando voltastes de Tria - lembrou Eteoneu. - j no posso fazer 
mais nada aqui, e  tempo de partir.
- No deves ir-te assim... temos de discutir o assunto - teimou Helena. - 
No julgo que seja essa a tua ltima deciso.
- Esta  a minha ltima deciso, Helena, e  melhor no discutirmos mais 
o assunto.
- Sinto bastante - disse Helena -, mas tu l sabes. Vem-me dizer adeus 
antes de partires, sim?
- Com toda a certeza - tornou Eteoneu.
- Diz-me, velhote! - interveio Menelau. - Vais mandar c Orestes, no  
verdade?
- No - respondeu Hermone -, no o mando c. Quero apenas dizer adeus a 
Eteoneu para depois partir. No torno a vir aqui. Afinal, no fazemos c 
falta alguma, e no conseguem alterar nada com palavras doces. No quero 
voltar de modo nenhum, nunca nos entenderamos. _  Ento, parte! - 
exclamou Menelau. - Porque ests a h tanto tempo com rodeios, podendo 
dizer-nos de uma vez por todas que no aprovas o nosso procedimento? Tens 
por acaso conscincia do que fizeste, tu e o teu marido? H algum ser 
humano que se importe se tu concordas com ele ou no? Se consentimos que 
entrasses nesta casa, foi s por uns instantes, apenas o tempo de no te 
julgarem expulsa. Quando na prxima vez visitares uma casa amiga talvez 
ento notes a diferena! _  Menelau! Menelau! - exclamou Helena. - No 
quero que Hermone se v embora sem nos prometer primeiro que vai c 
mandar o marido para nos ver. Se o fizer, tenho a certeza que nos 
entenderemos de novo muito bem. No  com o assassino da minha irm que 
quero falar,  com o seu filho. Se Hermone o ama tanto  porque h 
alguma coisa nele que eu desconheo. Gostaria de
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                    195
desfazer o meu engano, se  que me enganei. Gostaria de ver com
os meus prprios olhos.
-  um homem esplndido! Ningum deixaria de o admirar sabendo o que ele 
realmente . Toda essa antipatia foi por nem tu
nem o pai o conhecerem, e no quererem conhec-lo. _ Mas ns quisemos! - 
disse Menelau. - Dissemos-te que o convidasses para uma visita, mas no 
conseguiste encontr-lo. No tnhamos culpa que no soubesses onde ele 
estava!
- Tambm no era culpa de Hermone - tornou Helena -, e  ocasio agora 
de vermos que Orestes nada tinha de que se censu-
rar. O facto  que, como disseste, minha filha, no conhecemos Orestes. 
Pedes-lhe que venha amanh?
- Vou transmitir-lhe o convite - acedeu Hermone. - Nunca
sei o que ele tem para fazer.
2O
-Fizeste bem em vir, Orestes - disse Helena. - Compreendo que estejas 
agora muito ocupado, mas quis ver-te assim que Hermone nos falou do 
casamento.
- No sei como dizer, mas estou contente por ter vindo - tornou Orestes. 
- Tendes inteira razo para me odiares. Cheguei mesmo
a ter medo de me encontrar convosco.
- No te odeio - continuou Helena -, e da tua parte espero que no haja 
motivo para receios. Gostaria de me dar bem com o marido da minha filha. 
Foi essa a razo por que te pedi que viesses.
- Mas no quereis que eu casasse com Hermone - observou Orestes.
- De facto, no.
- Quereis que ela desposasse Pirro.
- Assim era.
- Ento, no pode convencer-me esta sbita amizade.
- Meu querido Orestes, sempre tive a impresso que havia de entender-me 
bem com o meu genro, uma vez escolhido. A amizade no foi sbita. O 
casamento  que o foi. Gostava que pudesses fazer uma pequena ideia das 
vezes que o teu nome foi pronunciado na nossa casa, desde o meu regresso. 
Induzi Hermone 

196
JOHN ERSKINE
convidar-te para uma visita (ansivamos tanto por conhecer-te ... ), mas 
ela no sabia onde te encontravas. Tinhas a nossa simpatia; sabamos as 
terrveis responsabilidades que pesavam sobre ti. Gostaria de te dizer 
agora, se pudesse, que profunda tristeza senti por ti.
- Sinto-me hipcrita aceitando a vossa simpatia - disse Orestes.  At 
aqui no vos tenho considerado como amiga.
Como podias saber se o era? Mas sou-o, e posso contar-te entre os meus 
amigos?
- Melhor seria que no. Ainda no h muito que matei a vossa irm.
- j ouvi dizer.
- E mais recentemente matei o vosso convidado Pirro.
- Tambm me constou.
- A maior parte das pessoas considera esses como crimes da pior espcie.
- Tambm assim o considero, querido sobrinho, mas, quanto a mim, no foi 
a inimizade que te levou a comet-los, pois no? Julguei teres outras 
razes.
- Mas certamente no quereis manter amizade com o homem que matou a vossa 
irm!
- Mas com o homem que casou com a minha filha.
- Devo dizer que sois generosa!
- De todo. Simplesmente, sou natural. No me interpretes mal, Orestes, 
pois o que fizeste parece-me inexprimivelmente horrvel. Hs-de sofrer um 
pesado castigo por isso, com o tratamento que a maior parte das pessoas 
te h-de dar, e, ainda mais, com o teu remorso. Nem consigo expressar a 
pena que sinto por ti. Faria tudo para evitar tal procedimento, assim 
como fiz tudo para evitar que Hermone casasse contigo. Porm, o que est 
feito est feito, e estamos agora livres para gozar a amizade um do outro 
e simpatizar um com o outro, em consequncia dos nossos erros. Por mim, 
lamento bastante o que fizeste; tambm por tua causa. Quanto mais amigos 
formos, mais lamentarei as tuas aces. No queria que Hermone 
compartilhasse do teu infortnio. _No quis que ela sofresse, todavia 
teve de ser - disse Orestes.
- No fundo, h justia em tudo isto, visto que ela  vossa filha, porque, 
se estamos a falar das nossas ms aces, posso tambm dizer que vos 
culpo de toda a tragdia. Meu pai pediu a vossa mo a seu irmo e sempre 
considerou um dever pr Menelau a
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                   197
salvo dos perigos deste casamento. O facto  que tudo comeou... com a 
vossa beleza. Agamn-tnon sacrificou a filha para conseguir que a frota 
seguisse caminho. Julgo que a minha me teve justificao para o deixar 
depois disso. Sentiu que devia vingar a filha, matando-o, se ele 
voltasse. Isso no justificava o dever dela, por essa razo no o 
perseguiu, contudo, se ele voltasse, estava decidida a castig-lo. 
Procedeu mal, tenho a certeza, mas respeito  as razes que a moveram. Por 
isso me custou tanto vingar o meu pai, mas, claro, no podia escolher. 
Agora fatalmente alterquei com o vosso hspede. Ifignia, Agammnon, 
Clitemenestra e Pirro. Esta  a lgica sanguinria do vosso procedimento. 
A minha me via que reis a culpada. Dizia que reis desorientadoramente 
bela, e  verdade. Mas tambm dizia que, onde quer que chegsseis, as 
pessoas comeavam de imediato os desacatos. Compreendo que assim fosse. 
Sois capaz de dormir sem pesadelos? Eu no. Mas o que eu fiz, suponho que 
aos vossos olhos no passa de amadorismo de pouca importncia. Por isso 
me acolheis com to boa disposio. Obrigastes tantos homens a praticar 
aces terrveis, homens que, no fosseis vs, teriam levado uma vida 
calma e inocente! Todos aqueles homens em Tria, os filhos assassinados 
ou mortos  fome, as mulheres capturadas e desgraadas! Nunca poderemos 
ser bons amigos; eu no podia apreciar a viso da vossa beleza, sabendo 
os maus efeitos que ela produziu.
- No discutiremos a tua opinio, Orestes - volveu Helena.  
essencialmente idntica  minha. Era mesmo o que esperava que pensasses 
de mim. H sempre infortnio por onde passo. Se no fosse eu, o teu pai 
nunca teria oferecido a prpria filha, minha irm, nunca teria apunhalado 
o seu marido, tu no matarias nem a tua me nem Pirro, e no terias 
casado com Hermone.
- Eu tinha sempre que casar com Hermone! Essa no  catstrofe alguma, e 
vs no sois de modo nenhum responsvel. Casei com Hermone, porque gosto 
dela.
- Sim, costuma tomar-se isso como boa razo - disse Helena.
- Suponho que a vossa unio foi predestinada, terias casado com Hermione, 
mesmo que a me dela no fosse to bela.
- Sim... no! Quero dizer.. quando se ama to fortemente como Hermone e 
eu nos amamos, nada mais h a fazer.
- Nunca viste Pris, pois no? Claro que no. Ele sentia o mesmo.

198
JOHN ERSKINE
- E no concordveis com ele, presumo?
- Concordei, sim.
- Ento mudastes de opinio desde ento?
- No, ainda a mantenho.  por isso que estou contente por saber que foi 
o amor que te levou ao matrimnio. Receava que tivesse sido Hermone. Ela 
no fazia segredo da inteno de te conquistar.
-Oh, no deveis ser injusta com ela! Ns...
-Que injustia lhe fiz?
-Dissestes, por outras palavras, que ela me forou a casar.
-E no foi? julguei que tinhas dito que no havia nada a
fazer? Foi o seu encanto ou o teu que te esmagou?
- Ah, nesse sentido...
- Claro, isto  ironia. Foi o teu encanto que a seduziu.
-No tenho encantos nenhuns - volveu Orestes.
-Bem, fosse l o que fosse. Pris encontrou o mesmo em
mim, e eu tambm o encontrei nele. No  estranho como o amor vence tudo? 
Connosco nada mais havia a fazer.
- Oh, peo desculpa! Uma teoria dessas havia de tornar a vossa paixo por 
esse patife troiano to sagrada como qualque outro amor!
- Mas eu no mencionei teoria alguma - disse Helena.
Apenas citei um facto. Contaste-me o que tu e Hermone sentem
e eu contei-te o que eu e Pris sentamos. Por que motivo o chamaste 
patife? No o conheceste. O nosso amor foi decididamente como qualquer 
outro amor. Parecia-nos sagrado. Se preferes, cito
o caso paralelo de Menelau. Quando se casou comigo tambm dizia que no 
podia proceder de outra forma. Agora acha que podia, e est arrependido. 
Porm, naquela altura tinha razo.
- Se vocs no podiam proceder de outro modo - atalhou Orestes -, 
logicamente no tendes culpa dos infortnios que se
seguiram.  um engenhoso ponto de vista, mas no lhe acho consistncia. 
Quem  o responsvel, afinal?
- Quantas vezes tenho feito a mesma pergunta a mim mesma! -
disse Helena. - Contudo, no cheguei a concluso alguma. Podia tecer um 
argumento mostrando que Menelau foi o culpado, mas
ento teria de explicar o carcter de Menelau e, quanto mais se 
aprofundar a questo, pior. Por isso  que eu aprendi a aceitar o
mal depois de feito; devemos arcar com as consequncias, quais-
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                      199
quer que elas sejam, mas no vejo utilidade em debater-se a questo corno 
se estivesse ainda por realizar, e no me inclino muito a sentenciar o 
culpado.
- Que desconcertante doutrina' Era a maneira de todos os criminosos 
ficarem impunes!
- Nunca, a no ser que sintas que no h nada de moral na
vida. Ainda me agrada crer que se pode distinguir as boas das ms aces, 
que as boas aces conduzem a melhores resultados.
- Certamente, de uma maneira geral - disse Orestes. - Toda-
via, na prtica, na sociedade, h que distinguir os criminosos dos 
outros.
- Como eu gostaria - tornou Helena -, mas duvido que haja algum capaz 
disso, isto , parece-me difcil desde que no haja tempo para analisar o 
compto das suas vidas. Tu, por exemplo, no sei se s um criminoso se um 
filho extraordinariamente cumpridor do seu dever.
- Tentei cumprir o meu dever - disse Orestes -, mas o que fiz torna-me 
tenebrosamente infeliz.
- Isso mesmo - replicou Helena. - Provavelmente s as duas coisas, quero 
dizer, os teus feitos foram to maus como bons. Agiste pelos motivos mais 
elevados que tinhas, mas talvez no fossem suficientemente elevados. A 
tua moral est para alm da crtica, mas talvez fossem despropositados os 
preconceitos que te guiavam. Noto que a maior parte das pessoas sente que 
pode agir sensatamente quando julga ter razo.  algo que me 
impressiona, depois de algumas experincias, chegar  concluso que, 
quando se tem a certeza de se ter razo,  prefervel ter cautela. 
Provavelmente esquecemos al guma coisa. No amor, conforme dizes, no 
somos senhores de ns, nada h a fazer - refiro-me a tudo o mais.
O teu pai tinha aquilo que me parece ser (assim me pareceu na altura em 
que ouvi falar nisso) uma f cega nos sacrficios. Para ele, os deuses 
eram seres a quem se comprava a mercadoria dese-
jada. Por isso, com a conscincia mais lmpida, sacrificou a filha na 
esperana de assegurar um vento favorvel. O teu pai e o meu marido foram 
os mais fracos marinheiros que conheci. Menelau navegou directamente para 
o Egipto, tentando vir para Esparta. Por fim surpreendi-o a fazer 
sacrifcios. Beneficiavam-lhe a teimosia e o orgulho, apesar de no 
afectarem o vento. O orgulho, eis o
maior pecado do teu pai. Contudo, as consequncias do seu sacri-

200
JOHN ERSKINE
fcio foram mais terrveis. Chega mesmo a desorientar. Pensas que fiz mal 
em ir para Tria, embora compreendas (o que me consola) que no podia ter 
feito outra coisa. Contudo, suponho que julgas que Menelau foi levado a 
fazer uma imensa guerra, a destruir uma cidade, a causar a morte de 
centenas de pessoas, porque a mulher lhe fugiu. Julgas-me digna de 
censura. Pois bem, eu no o vejo desse modo. Penso que foi tudo uma 
questo de orgulho e de falta de imaginao. Foi ele, e no eu, quem 
causou todas essas mortes, embora agisse com a conscincia tranquila e 
esteja bem satisfeito consigo prprio. Eu sabia que aquilo que fazia era 
trgico, embora o destino j no estivesse na minha mo. Qual de ns  
realmente responsvel pelos sofrimentos que se seguiram? Acho que 
qualquer homem decente pode perder a mulher sem por isso ter de sustentar 
uma guerra.
- No achais que uma mulher deve ser castigada por deixar o marido?
- Depende da mulher, e do marido - disse Helena. -  preciso conhecer o 
caso especial a que te referes.
- Estava a pensar em vs - volveu Orestes.
- Talvez deva ser castigada. Talvez j esteja a ser castigada, mas no 
por Menelau. Ele levou os amigos a destruir Tria, deixou-os morrer, mas 
aqui estamos ns de volta, eu e ele. Ele sabe que consegui qualquer 
coisa, e eu acho melhor no lhe perguntar o qu.
- Porqu?
- Pela mesma razo por que no te perguntaria o que conseguiste quando 
puniste a tua me, ou o que conseguiu ela quando matou o teu pai. 
Devemos, apenas por amabilidade, perguntar s pessoas pelas suas 
intenes. Se vssemos o verdadeiro significado do que fazemos, talvez 
no lhe sobrevivssemos.
- Desorientais-me e no imaginais como  terrvel!
- Sim, sei - disse Helena. - Foi de propsito. Vieste aqui julgando-me 
m, e julgando-te um pouco mrtir do dever. Assim foi a tua me. Porm, 
depois do que acabo de dizer, j no tens tanta certeza. Provavelmente 
continuas a achar-me m, mas vs que no  assim to fcil prov-lo. 
Sobre a minha prpria conduta, Orestes, h muito que estou desorientada. 
No entanto, no me vou castigar por tudo o que fiz. Hei-de receber o que 
a vida tiver para me retribuir. Se no tiver nada, ficarei grata por no 
me ter feito tanto mal como receava.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
201
-  uma doutrina terrivelmente perigosa - disse Orestes.
- No procuro converter-te ~ replicou Helena. - Simplesmente, quis 
justificar-me e talvez confortar-te um pouco. O mal que fazemos, umas 
vezes  crime, outras erro; os nossos erros deviam ser menos trgicos do 
que os pecados, mas muitas vezes acontece o contrrio. Creio que tu tens 
cometido erros terrveis, o que no h-de interferir na nossa amizade. 
Espero que os no repitas.
-  bom ouvir-vos falar assim, e agradeo-vos, mas tudo ainda me soa a 
imoral - observou Orestes.
- Talvez o seja - disse Helena. -  o melhor que posso fazer. Em todo o 
caso, no h m vontade entre ns?
No aprovo a vossa visita a Tria, e tudo o mais ~ disse Orestes   mas 
isso pertence ao passado.
Infelizmente - disse Helena. No vos mostrais arrependida? - perguntou 
Orestes. De maneira nenhuma - volveu Helena. Menelau  capaz de ter m 
vontade para comigo, ainda que vs a no tenhais - disse Orestes. -  
estranho! Ainda no tinha pensado nisto! No h utilidade alguma em nos 
reconciliarmos se ele ainda pensar na vingana.
- Ele no pensa na vingana - tomou Helena. -  apenas pela punio dos 
criminosos. As duas coisas podem parecer semelhantes, mas no so. 
Presentemente  provvel que nem sequer te falasse, mas tranquiliza-te 
que a seu tempo h-de at esforar-se por isso. Ele at te admira 
bastante, no incio eras o pretendente de Hermione que ele preferia.
- Hermone falou-me disso. Julgava mesmo que o pai estivesse do seu lado, 
mas, ultimamente, sentia que... bem, ela disse mesmo que ele a atraioou.
- Hermone deve deixar de pensar que foi atraioada, apenas se discordou 
dela. Achas que tu e ela podem continuar uma vida feliz depois de morrer 
todo este entusiasmo?
- Claro que podemos. O entusiasmo, como lhe chamais, no acrescentou nada 
ao nosso amor.
- Oh, achas que no? - inquiriu Helena. - Hermone quer auxiliar-te. Tu 
tens de necessitar de auxlio.
- Acho que interpretais mal as nossas relaes - observou Orestes. ~ 
Fomos feitos um para o outro. Fiquei radiante por casar com ela.

2O2
JOHN ERSKINE
- Pobre pequeno, e mais nada?
- Quero dizer, esperava poder casarcom. ela sem delonga, mas
no via quaisquer perspectivas de lhe dar o lar que merece, no querem 
deixar-me voltar para o Estado que o meu pai governava... Depois daquela 
questo horrvel com Pirro conclu imediatamente que Hermone ficaria 
comprometida no escndalo, se no fosse minha mulher. De facto, foi o seu 
costumado bom senso que viu primeiro a situao, porm, logo que apressou 
o casamento, fiquei a saber que ela tinha razo e fiquei contente por sua 
causa por casar sem demora, apesar de certamente no ser este o momento 
indicado para um casamento.
-  muito parecida com Clitemenestra - disse Helena.
- No imaginais como detesto ouvir dizer tal coisa! - protestou Orestes.
- Desculpa! - tornou Helena. - Na verdade foi falta de tacto.
- O pior  que - continuou Orestes - eu prprio notei a semelhana, e na 
ocasio mais infeliz: quando derrubei Pirro, ela estava contente. Nunca 
vira at ento um olhar assim, a no ser numa pessoa. Isso obcecou-me to 
deploravelmente que me admiro de como no perdi a cabea. Se estou 
condenado a ver a minha me,
o meu pai e Pirro com expresses como essa o resto da minha vida, se todo 
este sangue vai envenenar-me o mais pequeno sabor de felicidade, oh, no 
podeis imaginar como  terrvel! E no posso falar com Hermone a este 
respeito; alm disso, ela no compreenderia; no parece recear nada do 
que faz. Sois a nica pessoa com
quem desabafei, e, quando vim, no tinha inteno de vos confiar tal 
segredo.
- Ainda bem que o fizeste, Orestes, estou orgulhosa por merecer a tua 
confiana. Se a semelhana de Hermone com Clitemenestra fizesse 
realmente perder a cabea a algum, h muito que a minha estaria perdida. 
 a tia em tudo o que observa; para ela no h meios termos. Tanto posso 
imagin-la a casar com um homem como a mat-lo. O meio termo nunca.  
sempre severa ao julgar o
procedimento alheio. Uma das minhas raparigas foi recentemente atraioada 
por um amante sem escrpulos, e quando descobrimos que ia ter um filho, 
Hermone quis que a despedssemos, lanando-a no infortnio.
- Hermone contou-me - atalhou Orestes. - Devo dizer que concordei 
inteiramente com ela. A generosidade tem limites.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
203
- Sou da mesma opinio - assentiu Helena. - Tu e Hermone devem conseguir 
o que querem sem auxilio de ningum, mas realmente tens razo em pensar 
que ela se parece com a tua me. Nunca dei por que se parecesse comigo.
- Em nada! - exclamou Orestes.
- Em certas maneiras, parece-se com o pai - continuou Helena -, e espero 
que faas o que puderes para os reconciliares. Menelau adora-a; ela  
quem ele mais ama neste mundo; isto acontece muitas vezes entre pais e 
filhas. Menelau tentou dissuadi-Ia de casar contigo, e ela ofendeu-se. J 
que a conseguiste, podes esforar-te por ser generoso, reconciliando-os. 
No seria bom nem para ela nem para ele passarem o resto dos seus dias a 
guardarem ran-
cor um ao outro.
- Ela falou-me nisso - disse Orestes -, e certamente vou fazer o que for 
de justia, mas devo observar-vos que aquilo que Menelau escolheu para me 
difamar no  fcil de esquecer.  muito precipitado, segundo Hermone me 
disse, e, quando toma uma
deciso,  teimoso. Hermone lastima esse aspecto do seu carcter como 
causa das tristes relaes entre eles. De momento no vejo como 
interferir. Se Menelau no tem razo  seu dever dar o primeiro passo. 
Claro que no posso desculpar-lhe as amargas observaes que fez a meu 
respeito.
- Talvez a situao seja insustentvel - tornou Helena. - Perdoa-me por 
falar nisso. Mas s tu s capaz de interceder junto de Menelau - ou de 
Hermone, como achares melhor - para conseguir um entendimento. Se o no 
conseguires, mais ningum o far. Tenho f na tua habilidade.
-  difcil, como afirmais, mas evidentemente vou fazer o possvel - 
replicou Orestes.

- Vim para te dizer adeus, pai. Eu e Orestes partimos amanh.
- Que pena, Hermone! E eu que no queria perder-te. Ires assim 
acompanhada com esse...
- No digas nada contra ele, meu pai! Talvez ainda um dia chegues a 
compreend-lo.

204
JOHN ERSKINE
- O que no  razo para passar a gostar mais dele. Para onde vo passar 
a lua-de-mel, ou  segredo?
- Ainda no sabemos ao certo. Orestes sugere Delfos, mas
Delfos no me diz nada. Enfim, o principal  que ele mude de ambiente. 
Havemos de encontrar um lugar que agrade a ambos.
-  Quando voltam? - perguntou Menelau.
- No sabemos, de todo, mas no deve ser em breve. Orestes
no pode ficar na sua terra, claro, e tanto eu como ele precisamos de ver 
mundo.
- Bem, sabe5 o que penso de tudo isto - disse Menelau. -
 muito provvel que morras de fome, isto , morrerias se no
tivesses mais ningum a quem te amparares alm do teu marido.
J pedi a Eteoneu que arranjasse umas provises e dinheiro; um dos homens 
levar os volumes para onde fores.
- Obrigada, pai, mas no posso aceitar. Orestes pensou em
tudo, tenho a certeza.
- Mas ele nada tem - volveu Menelau -, nem to pouco amigos.
- Ainda assim no posso aceitar a tua oferta - teimou Hermone. - A no 
ser que tenhas mudado de ideias e queiras receber Orestes.
- Nunca falarei com ele! - exclamou Menelau.
- Bem vs porque no quero aceitar. Adeus para sempre, meu pai!
- Ao menos no te despeas dessa maneira - repreendeu Menelau. - Se 
alguma vez te encontrares em situao difcil faz-mo saber. No h razo 
nenhuma para passares necessidades quando eu e a tua me temos tanto.
- No mais ouvirs falar de mim - disse Hermone -', a no
ser que recebas o meu marido.
- No te basta casares com ele? - volveu Menelau. -  preciso fatalmente 
que eu goste dele?
- Sabes bem onde quero chegar; a no ser que trates Orestes como qualquer 
outro genro e no como um criminoso; no posso continuar a considerar-me 
como membro desta famlia.
- Bem, no h nada a fazer. Adeus. Diz a Eteoneu, quando sares, que 
desembrulhe aquelas coisas e que tome a p-las no celeiro.
- Ah, h ainda uma coisa que queria dizer e me esquecia -
disse Hermone. - Acho que s to severo para com a minha me.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
205
- Eu? Severo para com a tua me? Como assim?
- Durante todo este tempo, desde que regressaste, embora s h muito 
pouco tempo desse por isso. Es injusto com ela e dizes-lhe coisas 
bastante censurveis. Uma pessoa sensvel como ela deve achar a sua 
situao por vezes desagradvel. Espero, para teu bem e para bem dela, 
que tentes compreend-la.
- Nunca supus que a maldio casse to depressa sobre ti -
exclamou Menelau. - Perdeste a razo.
- No te apoquentes por causa da maldio, meu pai, nunca cair sobre 
mim. Tenho ainda o mesmo esprito que herdei, e costumavas dizer que me 
parecia contigo. Discordava com a me sobre Orestes, e, de uma maneira 
geral, sou completamente diferente dela, porm comeo agora a apreciar as 
suas qualidades.  que ela nada tem de mesquinho.  magnnima.
- Nunca ouvi disparate maior na minha vida. Se ainda conservas um pouco 
de juzo, hs-de dizer-me se no tenho sido mais que generoso para com a 
tua me.  ela a magnnima?
- No quis, de maneira nenhuma, estabelecer uma comparao - disse 
Hermone -, quis apenas falar das ideias abertas que ela tem. No entanto, 
j que falaste nisso, sempre te digo que h um contraste entre a opinio 
que fazia dela e a que fao agora, depois de ter notado nela essa 
importante caracterstica. Sabes como  seu costume recomendar que se 
critique antes dos acontecimentos, e, depois, deixar correr? Pois no 
fazia ideia que se resignasse a tal coisa no caso de ter de perdoar. 
Contudo, quando soubemos que Orestes lhe matara a irm, no notaste como 
concordou rapidamente, recusando-se a expulsar Orestes do crculo da 
famlia?
- Isso  para me dares uma lio, no? - tornou Menelau. -
Que desenvoltura! Vejo que o teu crebro ainda funciona, minha filha, mas 
tambm o meu. Enquanto puder mandar alguma coisa, Orestes fica fora do 
crculo da famlia. Tenho uma opinio muito prpria acerca da 
magnanimidade da tua me.
- Posso saber qual ? - perguntou Hermone. -No me  dado imaginar nada 
de melhor do que to pronto rasgo de bondade numa pessoa que te fez 
sofrer tanto. Foi a primeira vez que lhe vi a faceta desinteressada; 
talvez eu no desse pelas outras ocasies em que foi igualmente generosa.
- No tm sido muitas as ocasies, mesmo contando com esta, que eu no 
conto. Dizes que no consigo compreender a tua me?
206                      JOHN ERSKINE
me. Tens toda a razo. A nica coisa nela que para mim no oferece 
dvidas  a sua beleza, e no consigo compreender como est to bem 
conservada. Aos meus olhos nunca foi to magnifica como nestas ltimas 
semanas, em que tantos infortnios lhe acon-
teceram. Estava assim naquela noite em Tria. A sua beleza atinge o seu 
auge nos momentos crticos!
- Realmente  muito bonita - disse Hermone -, mas era do seu carcter 
que eu falava.
- J chegaremos ao carcter - tornou Menelau. - Falei primeiro na beleza 
por isso ser de bastante importncia. No tenho bem a certeza se ela 
chega a ter carcter; nem mesmo se tem corao. Sabes, posso falar-te 
mais intimamente sobre a tua me, agora que ests casada, sabes? nunca vi 
a tua me entusiasmar-se por coisa alguma. Diz que esteve loucamente 
apaixonada por Pris, loucamente! Pois sempre gostava de a ter visto 
nesse e@tado de esprito que descreve. Antes de fugir com ele, tratava-o 
com aquela mesma calma e delicadeza que mostra diante de toda a gente. 
Sempre que ela comeava a falar com ele, no imaginas o meu
receio de que se esquecesse de o chamar pelo pr6prio nome. Imagina o que 
senti quando fugiu com ele! E imagina o que sinto quando fala comigo, com 
todo aquele desplante, sobre a
paixo que teve por Pris! 0 que eu digo  que ela  muito egosta. 
Sempre aquela mania da franqueza! Parece estar a satisfazer um pedido do 
pblico. Agora, este desejo de mandar vir Orestes imediatamente. Que 
razo tinha ela para supor que ele queria vir?
- Pai, reconheo que a minha me no foi amvel contigo ou, pelo menos, 
que se portou indignamente. 0 que quis dizer  que ela tem um lado 
magnnimo que ainda no tinha percebido e talvez tambm ainda o no 
tivesses notado.  imparcial e
no  teimosa. Tu, pai, s um pouco, e, sabes, talvez por isso no te ds 
melhor com ela.
- No sei o que diria Orestes se ouvisse esta conversa ~ volveu Menelau. 
Contudo, parece-me que disto nada de bom lhe advir. Pode dar provas de 
ser um marido to generoso quanto eu, mas conceder a isso o mnimo 
crdito? No! Diro que s tu a magnnima!
- Pai, ests a confundir as figuras de rectrica ou esperas que siga a 
vida da minha me? Nem mesmo Orestes acha que essa

206                      JOHN ERSKINE
me. Tens toda a razo. A nica coisa nela que para mim no oferece 
dvidas  a sua beleza, e no consigo compreender como est to bem 
conservada. Aos meus olhos nunca foi to magnfica como nestas ltimas 
semanas, em que tantos infortnios lhe aconteceram. Estava assim naquela 
noite em Tria. A sua beleza atinge o seu auge nos momentos crticos!
- Realmente  muito bonita - disse Hermone -, mas era do seu carcter 
que eu falava.
- J chegaremos ao carcter - tornou Menelau. - Falei primeiro na beleza 
por isso ser de bastante importncia. No tenho bem a certeza se ela 
chega a ter carcter; nem mesmo se tem corao. Sabes, posso falar-te 
mais intimamente sobre a tua me, agora que ests casada, sabes? nunca vi 
a tua me entusiasmar-se por coisa alguma. Diz que esteve loucamente 
apaixonada por Pris, loucamente! Pois sempre gostava de a ter visto 
nesse estado de esprito que descreve. Antes de fugir com ele, tratava-o 
com aquela mesma calma e delicadeza que mostra diante de toda a gente. 
Sempre que ela comeava a falar com ele, no imaginas o meu
receio de que se esquecesse de o chamar pelo prprio nome. Imagina o que 
senti quando fugiu com ele! E imagina o que sinto quando fala comigo, com 
todo aquele desplante, sobre a
paixo que teve por Pris! O que eu digo  que ela  muito egosta. 
Sempre aquela mania da franqueza! Parece estar a satisfazer um pedido do 
pblico. Agora, este desejo de mandar vir Orestes imediatamente. Que 
razo tinha ela para supor que ele queria vir?
_ Pai, reconheo que a minha me no foi amvel contigo ou, pelo menos, 
que se portou indignamente. O que quis dizer  que ela tem um lado 
magnnimo que ainda no tinha percebido e talvez tambm ainda o no 
tivesses notado.  imparcial e
no  teimosa. Tu, pai, s um pouco, e, sabes, talvez por isso no te ds 
melhor com ela.
- No sei o que diria Orestes se ouvisse esta conversa - volveu Menelau. 
Contudo, parece-me que disto nada de bom lhe advir. Pode dar provas de 
ser um marido to generoso quanto eu, mas conceder a isso o mnimo 
crdito? No! Diro que s tu a magnnima!
- Pai, ests a confundir as figuras de rectrica ou esperas que siga a 
vida da minha me? Nem mesmo Orestes acha que ess

A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA                     207
seja a minha vocao. Desde que viu a minha me, elogia-me em
tudo menos na minha beleza.
- Mas desde pequeno que a no v!
- Viu-a h dois dias, teve uma conversa muito razovel com ela. Ainda me 
custa acreditar; a sua me era irm dela, contudo ela encarou o caso 
muito bem - disse Orestes -, e no lhe lanou nada em cara, nem o acusou, 
nem nada semelhante. Orestes confirmou a minha impresso de que, com 
todas as suas faltas,  uma mulher verdadeiramente notvel.
- Bem te entendi novamente - tornou Menelau. - Se Helena,
com um desgosto maior, pode perdoar a Orestes, tratando-o cordialmente, 
porque no pode proceder assim Menelau, que, afinal, no perdeu parente 
nenhum s mos de Orestes, a no ser um hspede indesejvel? Bem, nesta 
famlia h apenas uma pessoa notvel: Helena.
- Como te enganas - disse Hermone. - Provavelmente julgas que estou a 
defender Orestes quando, afinal, te defendo a ti. Eu e Orestes vamos 
fazer uma viagem e a tua atitude para com ele (boa ou m) s a mim diz 
respeito. Contudo, gostava de ver que tu e a
minha me fossem de novo inteiramente felizes, no quero ser eu
a nica pessoa feliz; a me tambm tem esse direito, e comeo agora a 
compreender que o principal obstculo  a tua falta de...
- No achars que ests a ser impertinente? - atalhou Menelau. - Que te 
importa a ti que a tua me seja ou no feliz comigo? Sim, e como sabias 
se eu a compreendia ou no? At aqui eras sempre a primeira a tratar com 
ela de forma irascvel, sempre o notei, e creio que nunca sers capaz de 
ver as coisas pelo seu prisma, nem que te esforces para o conseguir. 
Deves lembrar-te que ainda no eras nascida e j eu conhecia Helena na 
intimidade. Agora j  para mim quase um hbito intuitivo. Compreendo-a 
perfeitamente. Portanto, no te apoquentes. Se no  feliz, a culpa  
sua.
Suponho que ainda consideras de peso as suas culpas?
- E que culpas, meu pai?  humana, evidentemente, mas gostava que 
mencionasses as coisas que nela gostarias de modificar.
O seu aspecto? - Estamos a discutir o seu carcter - disse Menelau. - 
Como acabei de te dizer, creio que no tem corao. Pode fazer tudo o
que quiser, podem acontecer-lhe as coisas mais trgicas sem que se 
perturbe. No sente. Alm disso, tambm podia dizer que a

208
JOHN ERSKINE
acho absolutamente imoral. Quase no h pecado que para ela no tenha 
justificao. Se foge de casa e a vo buscar para que volte, diz: Foi 
erro meu! continuando como se nada tivesse acontecido, e nem sempre diz 
que o erro foi seu! Ora a est a magnanimidade que elogias. Tem tanta 
prtica de se perdoar a si mesma
que no admira que perdoe agora a toda a gente.
- Bem me parecia que a no compreendias. J alguma vez
pensaste em te sentares muito calmamente a conversar com ela sobre a sua 
filosofia da vida? Pois olha que te inspiravas. Orestes disse esta manh 
que, se no a tivesse ouvido falar acerca da situao dele, nunca teria 
descoberto o ngulo por onde deve ser compreendida a conduta da minha 
me.
- Tenho dito to mal do teu marido, Hermone, que de modo nenhum quero 
dizer mais, mas, justamente no que se refere  tua me, confesso que foi 
bom cometer alguns assassnios para con-
seguir descobrir esse ngulo. No creio que me fizesse algum bem a sua 
filosofia, se  que chega a ter alguma, mas o que suspeito  que ela se 
move na vida em todas as direces, sem plano prconcebido.
- Orestes diz que ela estabelece uma distino to nteressante entre o 
pecado e o erro...
- j sei! - disse Menelau. -  a parte da sua filosofia que 
frequentemente praticamos. Ela comete todos os erros e eu todos os 
crimes.
- No, falo com seriedade. Ela diz que toda aquela calma a
que tu chamas frieza  simplesmente a forma como resolve aceitar as 
consequncias das suas aces, uma vez praticadas. O nosso
casamento, por exemplo, enquanto era discutvel, disse francamente que o 
reprovava, contudo, uma vez realizado, desejou-nos felicidades e quis que 
fssemos amigos. Aconselhou Orestes a seguir-lhe o exemplo. Disse-lhe 
que, depois de ter feito o possvel, no se perdesse em lamentaes, 
mesmo que as consequncias provassem que procedera mal. Como vs,  muito 
orgulhosa para retroceder confessando-se arrependida; prefere aceitar o 
castigo, quando h castigo, e, em geral, diz que no existe.
- No creio que alguma vez se arrependa, neste ponto no compreendeste 
bem, mas concordo que na verdade  orgulhosa. Em relao ao resto, no 
sei bem. Orestes gostou da doutrina, segundo parece?
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
209
- No quero dizer exactamente isso. Acha-a perigosa, caso no seja 
cuidadosamente aplicada. Porm, no se cansa de dizer que gostava de 
falar sobre isso de novo com ela, e cr que lhe  possvel, numa conversa 
calma, aclarar-lhe as ideias, expulsando o perigo. Ora, se isso lhe  
possvel a ele, porque no ser contigo?
- Porque sou o marido - tornou Menelau. - Vais deix-lo continuar com 
essas discusses ticas?
- Pode no haver tempo at regressar, e, como disse, no ser to cedo 
que voltaremos. Todavia, ele espera v-Ia amanh antes de partirmos. 
Julga, como eu, que tu no deves ter aproveitado muito bem as 
possibilidades que existem no seu carcter.
- Hermone, conserva o teu marido longe da tua me! AcauteIa-te para que 
no seja mais uma vtima. Essa mulher tem apenas uma ocupao na vida: 
fascinar. Preferia Pirro a Orestes, contudo, Orestes tambm serve. A 
concluso de tudo isto  ele aborrecer-se de ti. Vers se no  assim! 
Com certeza que lhe disse que admirava as suas ideias, ou qualquer coisa 
semelhante, o que envaideceu o tolo. Essas manhas j no me enganam,  
por isso que estou desclassificado em todas essas conversas sobre a 
filosofia da vida.
- A minha me no faz a corte a Orestes. E ele no  dos que se 
envaidecem assim to facilmente. Alm disso, ela no disse que o 
admirava, apenas que tinha pena dele. Ele achou a sua atitude cheia de 
respeito prprio.
-  verdade,  - exclamou Menelau. - O teu marido no disse que ela era 
lindssima?
- No, disse simplesmente que era muito mais bonita do que esperava.
- Vs? j tem medo de que No o deixes v-la de novo, Hermone. Tem-me 
acontecido muitas vezes enganar-me com as aparncias. A conversa deles s 
a ela interessa, e ento pe-se a ouvi-lo com o mais dcil deleite, no 
dizendo uma palavra incorrecta, porm, ele  que no mais levantar a 
cabea. Passar a sonhar com ela, a andar nas nuvens, e em sua honra  
capaz, finalmente, de estragar a vida, como Pris, embora eu duvide que 
ela fuja com mais algum. Julgas que tens um bom marido. Pois eu comeo a 
ver que ser um acto de bondade afast-lo desta casa. Se ao menos o 
tivesses protegido de Helena...
- Se h realmente algum perigo - disse Hermone -,  j muito tarde para 
pensar nisso.  mais fcil evitar que Orestes

210
JOHN ERSKINE
empreenda alguma coisa do que interromp-lo depois de j ter comeado. 
Claro que pensei que fosse para seu bem ver a minha me, j que ela o 
sugeriu. Lembra-te que no me agradou a proposta no incio; depois  que 
o persuadi. Porm, agora est, com certeza, pronto a vir pela segunda 
vez. Como achas que o devo desviar? - Leva-o para longe daqui, se puderes 
- tornou Menelau. -
Se comeas a dizer-lhe que no a admire tanto, supe de imediato que tens 
cimes. Sempre gostaria de lhe contar um certo nmero de coisas!
- No suspeitaria ento que tu  que tinhas cimes? - perguntou Hermone. 
- E com certeza no ias falar com outro homem a respeito da tua mulher? 
Volto  minha primeira opinio: s injusto para com a minha me. Se 
falasses com ela sobre os seus problemas num tom cordial e simptico, e 
era fcil, pelo menos, ser to simptico e cordial como Orestes quando 
veio, havias de sensibilizar-te com as suas razes, absolutamente  parte 
do encanto que te causa cimes. No percas tempo a falar com Orestes, 
fala com ela. Na noite passada quando ocasionalmente falava no assunto, 
Orestes fez uma observao muito acertada, creio; disse que supe que 
alguns casais nunca trocaram entre si tantas ideias como com os vizinhos 
do lado. A maior parte dos casamentos comea irracionalmente pela paixo 
e, como no h relao possvel entre a paixo e a inteligncia, quando a 
paixo esmorece, no sabem como enveredar por outro modo de comunicar. 
Achei isto um belo raciocnio, no concordas? Agradou-me verificar que 
nos ligamos por meio de... bem... pode chamar-se-lhe... convico, mais 
do que qualquer gnero de atraco menos digno.
- Hum! - tossiu Menelau. - A tua me diria que a paixo  uma forma de 
inteligncia. Quando comea com aquela conversa do amor pela vida irrita-
me sempre, porque me faz pensar que o que quer dizer  que a no amo o 
suficiente. Se a amasse como ela imagina que merece, diria que tinha todo 
o amor necessrio pela vida. Nunca fiz teno de dizer isto a ningum, 
mas fico aliviado por desabafar. Quando a vi pela primeira vez no era 
mais bonita do que  agora, suponho, mas tinha a juventude. No  
possvel conceber uma pessoa assim sem ver com os prprios olhos. Quando 
me escolheu, no digo que me sentisse como num sonho ou como em qualquer 
outra coisa semelhante, senti apenas que ela se tinha
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
211
enganado. Os outros pretendentes deviam ter sentido o mesmo. No 
conseguia convencer-me que pertencia quela beleza. Quando j estvamos 
legitimamente casados, a levei para casa, e supnhamos ter assentado numa 
vida normal, comeou a apoquentar-me um tormento enorme: desejei-a, 
possu-a, e ela parecia estar sempre a contemplar-me meio divertida, como 
se eu fosse uma criana; era como se estivesse a dizer para si prpria: 
Ele quer amar esta beleza. Pois bem, que avance, mas no est preparado, 
coitadinho! O facto  que, Hermone, eu no estava preparado, nem nunca 
estive. No posso passar sem ela nem sei como estar com ela. As belezas 
vulgares requerem carcias humanas, como se costuma dizer no amor, mas os 
homens que tiveram Helena nos braos todos se atrapalharam e sofreram 
humilhao. No se pode alcanar o impossvel. No precisas de me dizer, 
sei bem que tem suspirado por um amante igual a ela, mas ele no existe. 
No meu corao j lhe perdoei h muito, especialmente desde que Pris no 
foi mais feliz do que eu. A razo pela qual a no matei naquela noite foi 
porque, quando a vi, ela parecia mais jovem do que nunca, e 
extraordinariamente virginal, e ocorreu-me que, na acepo em que temos 
estado a falar, ningum, nem mesmo eu, a tinha ainda amado. J que eu 
falhara no tinha razo para a castigar. Claro que, tambm nessa noite, 
ela estava mais bela do que nunca. Todavia, logo que trocmos algumas 
palavras, comecei a irritar-me com ela, como antes de Pris surgir. E to 
inacessvel, faz-me sentir to inadequado, nem se constrange de se rir de 
mim a maior parte das vezes... Bem, isto  mais do que tencionava dizer. 
Esquece tudo imediatamente... Ou faz como entenderes, porm, no o 
repitas a Orestes. Mas, vs, eu compreendo a tua me atravs do meu ponto 
de vista, e, segundo pensas, como tens o mesmo ponto de vista que ela, 
podes tambm ter o meu. Agora no h diferenas entre ns, a nenhum 
respeito.  medida que envelhecer h-de tornar-se mais sedutora e, 
suponho, mais irritvel.
- Ests realmente apaixonado por ela, no ests? - perguntou Hermone. - 
Olha que ela no  to bela como julgas.
- Diz antes - continuou Menelau -, que nunca a grande qualidade que  o 
seu encanto foi compreendida pelo seu sexo.  o instinto de defesa, 
suponho.
- Sabes uma coisa? - volveu Hermone. - J que te abriste tanto comigo 
sempre te digo que, realmente, tenho cimes da minha

me. Quero dizer; receio que o seu encanto possa perturbar Orestes. 
Convenceste-me! Gostaria que me ajudasses, pai!
- Farei tudo o que puder.
- Ento, tenho uma ideia, procura ver Orestes amanh! Se o vires e lhe 
perdoares no momento em que ele devia encontrar-se com a minha me, 
tomarei conta dele da em diante!
- Com certeza que no se trata de uma combinao leal! -
disse Menelau. - Nunca tencionaste colocar-me numa situao em que 
tivesse de receber o teu marido! No, no!
- Vou sentir bastante a tua partida - disse Helena -, principalmente 
porque receio ter sido um pouco a sua causadora. De qualquer modo, no 
queria que nos deixasses, mas  bem pior por seres tu quem se despediu. 
No estou habituada a que me deixem.
- Quando Menelau vos trouxe para casa - observou Eteoneu
- disse-lhe que era j muito velho para acatar ideias novas e que talvez 
fosse melhor demitir-me. As ideias novas a que me referia ento eram as 
de Hermone e do marido. Desde ento para c tenho passado o tempo a 
procurar descobrir que lugar era este em que me encontrava. Umas vezes 
conseguia acompanhar o que todos vs fazeis, outras, no. Tem sido muito 
cansativo. Quando acordo de manh dou comigo a rugir e a dizer 
instintivamente: Meu Deus, tenho que me levantar de novo para a mesma 
vida? E  noite, quando vou para a cama, sinto o pulso irregular, todo 
eu me alvoroo.  tempo de partir.
- Devo ter sido um suplcio para ti nestas ltimas semanas -
disse Helena. - Nunca poderei agradecer-te o bastante a lealdade que nos 
devotaste enquanto passmos to srios trabalhos. Mas o que l vai, l 
vai, no  assim? Se ficares connosco, aquieta-te, prometemos-te 
finalmente sossego.
- Mas ningum vai matar Orestes? - inquiriu Eteoneu. - Lo i
91camente,  o passo que se segue.
- Talvez, mas creio que se encontra a salvo. No fim de contas, teve uma 
luta violentssima com Pirro, e a verso que corre  a de que lutaram por 
causa de Hermone. Sabes como o povo
reage a estas coisas, no costuma vingar-se no homem que conse-
gue finalmente a mulher que deseja, nem mesmo depois de uma luta leal. 
No vejo muito senso em tudo isto, nem em lutas nem em qualquer outra 
coisa, mas  costume combaterem, e pronto. Compreendo perfeitamente a tua 
relutncia em relatares mais aventuras dessas, o assassnio de Orestes, 
por exemplo.
- J que se casou com Hermone... - volveu Eteoneu. - Se tivessem dado 
cabo dele antes, ainda tolerava. Porm, a dificuldade no est nesse 
gnero de aventuras; est em toda esta atmosfera da casa. Quando casastes 
com Menelau e para aqui viestes, vi de imediato que qualquer coisa ia 
acontecer. O meu pressentimento foi aumentando de ano para ano, at que, 
finalmente, fugistes de casa. Foi um grande alvio para mim, no porque 
vos tivesse averso, mas porque se aclarou o ambiente; sabia-se 
justamente o que se devia fazer: Menelau devia perseguir-vos, eu devia 
guardar a
casa, por fim, ele devia voltar, e, independentemente do nosso desgosto, 
devamos continuar uma vida normal a partir de ento.
- Tens razo - assentiu Helena. - Eu devia ter morrido em Tria.
- No era minha inteno diz-lo - ponderou Eteoneu -, mas sabei-lo! Ora, 
voltmos ao ponto onde estvamos quando chegastes. No h perspectiva de 
soluo, digo-vo-lo.
- Tenho a impresso de que a soluo j se achou sem o nosso auxilio - 
disse Helena. - At aqui preocupava-me o futuro de Hermone. Sou eu a 
culpada de todos os cuidados que o pessoal tem sofrido por esse motivo; 
abandonei Hermone quando ela precisava dos meus conselhos. Desde que 
voltei tenho visto claramente o que perdeu com a minha ausncia, e toda a 
minha pena e no ser apenas eu a sofrer as consequencias do seu 
procedimento. Quanto ao meu amor por Pirro mantenho que foi inevitvel, e 
no me arrependo dele. Contudo, abandonar a minha filha
 outro assunto.
- Creio que  difcil separar os dois episdios - ponderou Eteoneu. ~ 
Quereis dizer que, se vos apaixonsseis de igual modo por outro 
visitante, fugireis de casa novamente?
- Certamente - exclamou Helena.
- Vou-me embora de imediato, enquanto h sossego - disse Eteoneu. - No 
posso passar por tudo isso de novo. Decididamente,
no posso.

214
JOHN ERSKINE
- Se ficasses podias proteger-me - tomou Helena. ~ s o homem que melhor 
sabe proteger os interesses do meu marido.  muito provvel que nunca 
mais me apaixone, < que mais ningum perca o corao por minha causa.
- No serei eu a pr as mos no fogo em relao a isso. No censurei 
Pris - disse Eteoneu. - Em parte no vos censurei a vs, j que, como 
dizeis, vos apaixonastes perdidamente por ele. Tudo foi bastante natural, 
e eu sabia o que pensar a esse respeito. Alm de que pude ver que Menelau 
no vos entendia. Nunca teve qualquer experiencia com mulheres...
- Pode no me ter entendido nessa altura, mas agora j me entende sem 
dificuldade. No  isso que embaraa Menelau. Acho at que  demasiado 
brando. Nunca vive para alm da sua sabedoria. Sabe muito mais do que 
demonstra, comigo e com tudo o resto.
- Ora, era exactamente isso que eu queria dizer! - exclamou Eteoneu. - 
No fazia ideia de que tambm vs o tivsseis notado.
- Ora, Eteoneu - disse Helena -, tu e eu somos as nicas pessoas nesta 
casa que tm as ideias mais em comum. Tivmos alguma experincia do mundo 
e temos pensado no que vimos. Hei-de sentir tantas saudades tuas, se nos 
deixares... Podias auxiliar-me tanto, daqui em diante... como, de facto, 
me tens auxiliado. Ainda no tive oportunidade de te agradecer o que 
disseste a Hermone.
- Sobre as mulheres?
- Sim.
- Pois vde, Menelau ia-me despedindo por isso!
- Ora, nem ele podia reagir de outro modo - tomou Helena mas tu disseste 
a verdade. Era o que Hermone precisava de ouvir. Suspeito que Menelau 
tambm sabia que era verdade. E, desde o incio, procedeste de modo 
perfeito com Orestes. E mostraste uma atitude humana com a pobre Adrasta. 
s um homem realmente nobre!
- Sou vulgar - ponderou Eteoneu -, e j no sou o que era. Sois amvel. 
De facto  o primeiro cumprimento que recebo desde que fostes para Tria. 
No conto com os tributos que poderia recolher, se tentasse, das 
observaes sarcsticas do vosso esposo.
- Oh, mas ele gosta muito de ti, Eteoneu! Suponho mesmo que confia mais 
em ti por ver que as ordens mais tolas que te d no so cumpridas. Se 
arranjar um empregado que lhe obedea literalmente, a casa desmorona-se. 
Porque no ficas?
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
215
- Se vs dois precisais assim to desesperadamente de mim...
- murmurou Eteoneu. - Todavia, h ainda outras dificuldades.
O melhor ser partir j, antes que seja tarde.
- Conta-me quais so as outras dificuldades - teimou Helena. - Talvez 
pudssemos arranjar soluo para elas.
- Trata-se de Hermone e Orestes - disse Eteoneu. - No estamos livres 
deles. Julgam querer viajar o resto da vida. Mas isso que significa? 
Menelau perdoou a Orestes antes de partirem, e est a ser influenciado 
pela filha...
Deve estar - disse Helena. Garanto-vos - tomou Eteoneu... - Mas ho-de 
voltar, e a est a dificuldade. Quando Menelau lhe perdoou foi na doce 
esperana de que lhe dissessem adeus para sempre. Primeiro tive de fazer 
as malas com roupa e preparar mantimentos para Hermone; depois vi~me 
obrigado a desfazer tudo, porque ela foi demasiado orgulhosa para o 
aceitar; em seguida, fui obrigado a arranjar tudo novamente no dia 
seguinte, e mais duas vezes ainda para Orestes. Ele no  to orgulhoso, 
afiano-vos. E Menelau f~lo prometer, sem
grande dificuldade, que, se Hermone passasse necessidades, lho 
comunicariam. Vamos prov~los  distncia at eles acharem maior 
convenincia em serem providos de perto.
- Orestes deve voltar ao estado do pai dentro de pouco tempo
- disse Helena. - No h dvida que a mesma gente que o censura agora, 
h-de querer mais tarde que ele a governe. Ento ter o melhor dos lares 
para oferecer  mulher.
- Estais convencida de que ele aspira a fixar-se em qualquer lugar e a 
olhar pelos prprios interesses? - interrogou Eteoneu. -
Lembrai-vos que cresceu numa espcie de jogo de escondidas, primeiro 
iludindo a me, em seguida caando Egisto, depois ainda, assaltando 
Pirro. Julgo-o muito habituado a esta vida para mudar. Se, ao menos, 
pudesse vingar-se a si prprio por causa de Pirro, satisfaria por 
completo a vocao. No entanto, no o posso imaginar civilizado. Nada 
nele  estvel.  uma daquelas pessoas que falam sobre a ordem 
estabelecida das coisas, mas nunca a praticam.
- Teve a decncia de casar com a minha filha, que ficaria comprometida se 
ele o no fizesse.
- Como sabeis que ele casou com ela? Foi ele quem vo-lo disse?  grande 
evidncia, no ?

216
JOHN ERSKINE
- No  evidncia absolutamente nenhuma, mas eu acredito nele - tornou 
Helena. - No gosto dele, mas diz a verdade.
- Enfim, dos filhos  que eu tenho pena - ponderou Eteoneu.
- Ser a maior raa de reformadores que jamais se inventou.
- Pelo que vejo, ficas - disse Helena. - H muito tempo que no sinto uma 
felicidade to grande como a que me d esta esperana.
- Mas eu no disse que ficava - atalhou Eteoneu.
- Mas ficas, no ficas? - insistiu Helena.
- No achais que j sou muito velho?
- Absolutamente nada! Tornars em breve aos teus tempos de rapaz como 
guardio, sabes tudo acerca dos homens, e um bom bocado acerca das 
mulheres, e podes agora proceder segundo os teus conhecimentos para 
grande vantagem de todos ns. Alm disso, velho ou novo, Menelau e eu 
queramos que ficasses. Estimamos os nossos amigos em qualquer idade.
- Se colocais a questo nesses termos - tornou Eteoneu fico, mas sem 
muita vontade. Continuarei de preveno, claro.
- Claro - disse Helena. - Que seria de um homem sem preveno?
- A ida para Tria no foi to m... - continuou Eteoneu.
- Como a volta - concluiu Helena. - Compreendemo-nos um ao outro, 
Eteoneu. Obrigada por ficares, e obrigada por esta conversa. Quando 
tiveres alguma coisa para me dizer que me possa auxiliar, vem dizer-ma.
- Pois sim - assentiu Eteoneu. - Gostei muito desta conversa. Com Menelau 
estou sempre em desacordo. Quereis que lhe diga que fico, ou dize-lo vs?
- Nem um nem outro - replicou Helena. - Ficas, simplesmente. Se lhe 
disseres que ficas ele pergunta-te logo porqu, e tu no tens razo 
nenhuma satisfatria, a no ser que digas que fui eu quem to pediu, e 
ento ele pode despedir-te. Fica connosco, Eteoneu, sem mais palavras, e 
acho que a casa ter paz e sossego.
so
- Nopodamos encontrar melhor lugar para descansar - disse Orestes. - 
Nesta curva da estrada a vista  maravilhosa e a 
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
217
sombra desta rvore solitria  acolhedora. H uma meia milha que eu 
vinha a deitar os olhos para aqui. Se soubesse que as provises do teu 
pai pesavam tanto tinha ao menos rejeitado metade.
- Podemos parar por hoje - disse Hermone. - Que utilidade h em andarmos 
depressa, como se tivssemos medo de chegar tarde a algum stio? No 
levamos destino certo, nem temos hora marcada para chegar. Estou cansada!
- Ento! No percas assim a coragem! - disse Orestes. - A principal razo 
por que caminhamos  para que ningum se esforce em nos barrar a 
passagem. Na noite passada aquela casa recebeu-nos a muito custo; cheguei 
mesmo a recear que profanassem o dever da hospitalidade, convidando-nos a 
bater a outra porta.
-  que j toda a gente ouviu falar de ti ~ atalhou Hermone.
- A tua fama  to grande como a da minha me. Tm medo que os mates 
enquanto dormem... Pobre Orestes!
- Em parte assim  - volveu Orestes -, mas pior ainda  verem-me com uma 
mulher, concluem logo que no s minha mulher legtima. Suponho que 
pensam que ningum deve nunca casar comigo. No gostam de receber em casa 
mulheres que no sejam efectivamente casadas.
-  estranho como as pessoas se prendem assim a meras formalidades - 
observou Hermione -, esquecendo-se do essencial! Se tivesse trazido 
comigo o certificado de casamento, seriam cordiais; mas, sem ele, so 
frias como gelo. Contudo, eu no podia ser mais tua mulher do que sou, 
mesmo sem a cerimnia.
- Eu sinto-me completamente casado - disse Orestes. - No tenho lar, mas 
 como se o tivesse. Quem estar com a tua me a estas horas?
- A que propsito falas nisso?
- De coisa alguma - tomou Orestes. - Creio que vem naturalmente. Ao 
trepar aquele monte, quando no conseguias falar por causa do cansao e a 
respirao te faltava, vinha eu a pensar nas coisas que ela me disse, e 
no que eu tencionava dizer-lhe, se nos encontrssemos de novo. Hermone, 
aceitei o oferecimento de reconciliao que o teu pai me fez com o mesmo 
sentimento que sempre nutri por ele. No o teria feito se no fosse por 
tua causa.
- Foi realmente aborrecido como tudo se passou - disse Hermone. - Tu bem 
querias dedicar os ltimos momentos  minha

218
JOHN ERSKINE
me. Tenho a certeza de que tambm ela ficou perplexa, pois tem to 
poucas oportunidades para esse tipo de conversas que aprecia...
- Ter que gastar uma hora inteira com Menelau, quando podia ter sido com 
Helena! - exclamou Orestes. - Ela tem um bom raciocnio, porm  
instvel. Muito pronta nas percepes, mas, segundo me pareceu, segue--as 
sem ter em mente qualquer fim lgico. Sobre a diferena entre o erro e o 
pecado, e sobre o arrependimento antecipado, tem absoluta razo, porm, 
falha justamente quando pretende dar a essas ideias uma aplicao social.
- Como sabes tanto! - murmurou Hermone. - Que queres dizer com isso?
- Ora, fala como se a sociedade fosse o nome dado a um grupo de seres 
humanos, e como se cada ser humano fosse algo de importante, ao passo que 
ns sabemos muito bem que ser humano  apenas um nome que se d ao 
tomo social. At  conversa que tive com ela no conseguia compreender o 
que me contavas sobre aquela teoria do amor pela vida, mas agora -me 
perfeitamente clara. Preocupa-se com a felicidade do homem tomado como 
indivduo, no lhe interessando a razo pela qual esse indivduo deve ser 
feliz. Ora,  preciso que se limite ao bem-estar da sociedade.  estranho 
que chegssemos  mesma concluso, quando tanto eu como ela trabalhmos 
assentes em princpios diametralmente opostos. No podemos conservar-nos 
separados dos nossos semelhantes e sermos independentes deles, como ela 
pretende; temos de marcar o nosso lugar na sociedade, como eu procuro 
fazer. O arrependimento antecipado est muito bem para o egosta, mas 
para o socialista no tem sentido. Deve-se punir o crime e recompensar a 
virtude, se  que se sente alguma responsabilidade em conservar o mundo 
em movimento. Ela est pouco ao corrente destas coisas, suponho, e 
Menelau tambm as no v claro.
- Podes abrir essa mala mais pequena? - interropeu Hermone. - No, o pai 
no  socialista, mas os seus biscoitos individuais fazem prstimo.
- A esperana que tenho - disse Orestes -,  que o esprito dela continue 
de acordo com a teoria tica.  bom sinal, apesar da opinio que faz do 
assunto ser limitada e pessoal. Suponho que observaste como todas as suas 
teorias esclarecem a sua prpria conduta. Chamo a isso um fraco 
resultado. No se pode ir muito longe em tica moderna, a no ser que se 
relacione com umA VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
219
problema social. Um homem sozinho numa ilha deserta no pode ser bom nem 
mau.
- Olt, mas tu no compreendeste ainda! - exclamou Hermone. - Afinal, o 
que me contaste sobre o que ela disse, esclarece-me mais a mim do que a 
ti. Tenho a certeza de que a minha me havia de contestar semelhante 
ilustrao, de que uma ma, numa ilha deserta, teria fatalmente de ser 
boa ou m, e o mesmo seria com um homem. E se a sociedade no estivesse 
l para apreciar a ma, ou se a sociedade l estivesse, e no apreciasse 
o homem, tanto pior para a sociedade.
- Claro que essa argumentao s pode ocorrer num esprito sagaz - disse 
Orestes. - Se a sociedade l no estivesse com as suas regras e 
tribunais, como havias de saber se a ma era boa ou m? Uns gostam delas 
verdes, outros, maduras.
- No podes afirmar que o bom e o mau so uma questo de gosto - volveu 
Hermone. - Nesse ponto, concordo com a minha me. Julgo que h-de haver 
seja o que for que se assemelhe a uma boa ma. Gostava que tivesses 
uma... Orestes! Se bom e mau so uma questo de gosto, nesse caso no 
procedeste muito bem no... no que fizeste. Apenas pensaste que procedias 
bem!
- Pensei e ainda penso - disse Orestes -, e a principal razo por que 
penso assim  que seguia a opinio que a melhor sociedade tem sobre a 
vingana.
- Mas no sobre o dever social - tornou Hermone.
- Nunca hs-de ter o bom senso e o tacto da tua me! - exclamou Orestes. 
- Tive de escolher entre dois deveres sociais, num caso em que tanto uma 
como a outra escolha haviam fatalmente de ser ms. Como eu disse, tinha 
de ser uma questo de opinio.
- Se uma ou a outra tinham de ser ms,  porque haver alguma relao com 
esses deveres sociais, no achas?
- Hermone, o que est feito, est feito, e s me tomas mais infeliz 
levantando essas questes. Ou falavas nisso antes ou, ento, nada dizias!
-  isso o que a minha me diz - tornou Hermone. - Sempre ajuda, no ?
- No acho que seja exactamente o que ela diz - tomou Orestes. - No fiz 
teno alguma de repetir as frases da tua me.
- Prova um dos biscoitos do meu pai - interrompeu Hermone.

220
JOHN ERSKINE
- Voltando atrs, onde tnhamos ficado - continuou Orestes -,  o mesmo 
que se d com a beleza. Uns dizem que a beleza  uma coisa positiva, uma 
espcie de propriedae. J notaste a observao de que certas mulheres 
tm grande beleza. Claro que est mal. Beleza  simplesmente um efeito, 
o efeito da extrema aprovao, uma questo de gosto. Quando somos um 
pouco mais conhecedores, dizemos ento que tais mulheres so belas ou, 
ainda melhor, dizemos que fazem uma impresso agradvel chamada beleza.
- A minha me no se h-de importar com isso - disse Hermone. - Enquanto 
criar a mesma impresso, chega-lhe o dom que tem. _ Mas ela cria sempre 
essa impresso? - perguntou Orestes.
- S a vi uma vez, bem sabes.
- Sim, bem sei - volveu Hermone. - Mas quanto mais vezes se olha para 
ela mais se fica com essa impresso. _ Gostava de ver com os meus 
prprios olhos - disse Orestes.
- Mas no h edifcios, paisagens e coisas que suscitam sempre a mesma 
opinio nas pessoas, de tal modo que somos levados a julgar estranhos 
aqueles que no gostam dessas coisas?
- E depois, se assim fosse?
- Bem, suponho que, se fazem sempre o mesmo efeito,  porque h nelas 
alguma coisa de constante, alguma coisa que talvez esteja dentro das 
propores ou no conjunto a que se possa chamar beleza. Gostava de ter o 
conjunto da minha me. _ Podes dizer de igual forma que h alguma coisa 
de universal na natureza humana. A tua me tem tido aquela vida, porque 
possui certamente caractersticas fsicas a que chamas beleza, ou 
porque... ~ Ou porque os homens so todos iguais! - rematou Hermone. - 
Agora j sei onde queres chegar. Podemos seguir caminho? No vejo uma 
nica casa no horizonte. ~ Temos ainda umas trs lguas pela frente, se 
aquele homem  bom calculador de distncias - observou Orestes. - Podemos 
percorr-las ao cair da noite. ~ Eu no iria to longe, mesmo que a minha 
vida dependesse disso - volveu Hermone. - No podemos dormir esta noite 
em alguma gruta, num abrigo ou coisa parecida? Ouvi dizer que havia...
- Ouviste falar em alguma gruta nas proximidades? ~ inquiriu Orestes. - 
Isso seria ptimo! Mas tudo aqui  rocha sem 
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
221
sombra, pelo que vejo. Vamos andar at mais no podermos, e ento 
decidiremos o que fazer.
- Orestes, assim no pode ser, dia aps dia. Acabamos por morrer. Procuro 
esconder-to, mas no posso mais.
- Tens razo, Hermone - disse Orestes. ~ Ests um tanto cansada, e 
talvez aquele constrangimento da recepo da noite passada tenha 
produzido os seus efeitos. De uma noite ao ar livre  que ns precisamos. 
Ao menos vemo-nos livres de gente. Podamos perfeitamente ser felizes se 
no fossem aqueles que temos de encontrar pelo caminho.
- Bem, vou tentar seguir um pouco mais adiante. Orestes ps as trouxas 
aos ombros e comeou a caminhada, e ela seguiu-o arrastando os passos. 
Quando tinham percorrido duas milhas, sensivelmente, ele voltou-se para 
trs e encarou-a.
- H ainda outra coisa espantosa na tua me - disse ele. - j notaste 
que, quando se dirige a ti...
6.
- Menelau - disse Eteoneu -, acho que fui um pouco injusto com a vossa 
esposa, e sempre gostaria de retirar certas palavras desagradveis que 
disse sobre ela; escusamos de tornar a mencion-las. Estive a falar com 
ela.
- Queres dizer que estiveste a olhar para ela - observou Menelau. - 
Compreendo perfeitamente, e aceito as desculpas. Ela tem uma aparncia 
persuasiva. No s o primeiro.
7. De todos os heris que combateram em Tria, Ulisses foi o ltimo a 
regressar  ptria. Em vo, a mulher esperou por ele, e Telrnaco, o 
jovem filho, observando como diminuam os haveres da famlia, no chegava 
a saber se era ele o chefe da casa ou se devia fazer alguma coisa em 
relao a isso. Os pretendentes pediam a Penlope que casasse com eles na 
suposio de que talvez Ulisses tivesse

222
JOHN ERSKINE
morrido, e, por economia, lucravam antecipadamente com os pedidos que 
faziam da sua mo, vivendo l em casa at ela tomar uma resoluo. Helena 
teve pretendentes no comeo da sua vida; Penlope, no fim, quando j no 
era nova e a sua beleza j no era, como Orestes dizia, mais do que uma 
questo de gosto. Este facto levou muito boas pessoas a suporem que a 
histria de Penlope, como agora a sabemos, por qualquer acidente se 
contava s avessas. De qualquer maneira, a questo fica deste modo; por 
que razo os pretendentes queriam casar com ela? Pelos bens, certamente, 
pensava Telmaco; e aos seus olhos inexperientes aparecia a viso de uma 
vasta fortuna. Porm, taca era uma regio rochosa e rida. A primeira 
vez que ele viajara tinha os olhos bem abertos. Os maadores dos 
pretendentes deviam saber melhor do que ele, visto virem de grandes 
distncias. O que ia nos seus pensamentos, podemos apenas adivinh-lo, 
mas, que eles foraram a pobre Penlope, no h dvida nenhuma, porque 
quando Ulisses finalmente voltou puxou do arco e matou-os a todos, um por 
um.
A histria de Telrnaco e do seu pai ausente est relacionada num ponto 
com um facto da vida de Helena de bastante valor, como retrato dela sob o 
ponto de vista domstico.
Precisamente antes de Ulisses fazer a sua dramtica reapario, Telmaco 
chegou ao desespero. Resolveu fugir de noite num
pequeno barco, com alguns homens de confiana, e navegar at Pilos, onde 
vivia Nestor, para depois possivelmente, continuar a viagem at Esparta, 
ptria de Menelau. Se acaso alguns dos amigos do seu
pai lhe dessem informaes encorajadoras sobre o desaparecido, voltaria a 
esperar, pacientemente, outro ano. Pelo contrrio, se lhe dessem alguma 
razo plausvel para pensar que Ulisses estava morto, voltaria para 
taca, revestiria um aspecto atrevido, celebraria o funeral do seu pai, 
casaria a me com algum (no importava quem), mandaria os outros 
pretendentes embora e tomaria conta da casa.
Nunca tinha deixado a ilha onde nascera. Quando chegou a
Pilos encontrou Nestor num banquete com toda a sua gente  sua
volta. Telrnaco dispunha-se a voltar para casa. No possua o
dom de palavra do pai e tinha vergonha de se abeirar de Nestor, para 
expor ao que vinha, assim em frente do pblico. Porm, lembrou-se que 
vinha por uma boa causa, e, felizmente, Nestor insistiu para que comesse 
antes de falar. Acabada a refeio, o prprio
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
223
velho encetou a conversa. Pertencia quele tempo severo em que vivera 
Eteoneu. Perguntou ao rapaz se vinha em negcio de mercadoria honesta, se 
como pirata. Telrnaco ficou um pouco atrapalhado com a pergunta, mas 
abraou a ideia, e deixou o velho pensar que a pirataria era um dos seus 
desportos favoritos ou havia de vir a s-lo quando tivesse mais prtica.
- Mas eu vim para vos perguntar se sabeis notcias do meu pai. No sei h 
quantos anos no ouvimos falar de nada em casa; e chegmos ao ponto em 
que mesmo as ms notcias so preferveis a este agoirento silncio. 
Soubemos que Menelau est de novo a salvo em casa, e que Agammnon tambm 
chegou  sua, mas no a salvo. jax morreu, e tivemos outras notcias 
sobre amigos do meu pai, mas nem uma palavra sobre ele, apesar da sua 
celebridade e das suas qualidades serem dignas de suscitarem comentrios. 
Se tivesse sido assassinado, calculo que j nos teriam vindo contar. Onde 
poderei encontr-lo? Podeis dizer-me
como e quando o vistes pela ltima vez, e tudo o que sabeis dele desde 
essa altura? Se os factos forem maus, no os modereis, aprecio a verdade.
Nestor tentou recordar-se. Usses era o seu melhor amigo. Nunca se 
cansaria de recordar as proezas que tinham feito juntos nas plancies de 
Tria. Telrnaco receava bem isso mesmo. ~ Todavia, quando chegou o 
momento do nosso regresso -
disse ele -, nenhum de ns tinha conscincia do que fazia. Comeou logo 
no dia seguinte  queda da cidade. Como ns a celebrmos! Depois, se me 
permites, Agammnon reuniu a hoste para os sacrifcios! Para dizer a 
verdade, quase todos ns tnhamos j a nossa conta em vinho. Ento, 
Menelau disse que voltava  ptria imediatamente, a guerra tinha acabado, 
e no havia necessidade alguma de ficar. Agammnon insistiu em mais 
alguns sacrifcios para apaziguar Atenas. Patetice a sua, porque suponho 
que quando uma deusa est zangada no adianta fazer sacrifcios, a no 
ser como perda de tempo, entre outras coisas. Palavra puxa palavra, 
discutiram um com o outro, mas o que disseram na discusso no pude 
ouvir; todos ns j estvamos bastante entusiasmados, e nunca se ouviu 
troada assim, a no ser num verdadeiro campo de batalha. Tommos 
partidos: metade era a favor do embarque, a outra metade por mais 
sacrifcios. Eu era da opinio de Menelau, e organizmos uma perfeita 
esquadra que apresentmos no dia seguinte.

224
JOHN ERSKINE
Porm, com o ar da manh, voltmos ao nosso juzo, e,  medida que 
navegvamos, tomvamo-nos pensativos. Era a reaco, suponho. Quando 
chegmos por altura de Tenedos, quase todos parmos, durante algumas 
horas, a oferecer sacrifcios para maior segurana, mas Menelau ou 
continuou viagem ou deitou-se do convs abaixo; no tommos a v-lo. O 
teu pai fez-nos um belo discurso. Argumentou que, se os sacrifcios eram 
o essencial, no seria aquele o lugar, e voltou para trs para se juntar 
a Agammnon. E foi a ltima vez que o vi. Nem mais uma palavra ouvi sobre 
ele. A maior parte dos restantes conseguiu chegar  ptria. Em Lesbos 
parei para sacrificar outra vez, para me certificar, e devo dizer que 
tivemos um vento esplndido, que nos levou direitinhos ao porto de 
abrigo. Indomneu, nunca ouviste falar dele? O primeiro pretendente que 
Helena deitou por terra, teve uma viagem mais suave, sem perder um homem, 
e est de volta a Creta, como se nada tivesse acontecido. Mas foi uma 
partida indecente que Egisto pregou a Agamrnnon! Com certeza j ouviste 
contar a forma como Orestes se vingou?  a vantagem de se ter um filho: 
ter certo o castigo da pessoa que nos matar. Ulisses tem sorte, digo-o 
mesmo  tua frente, em ter um filho to audaz como pareces. Se no o 
mataram h-de voltar  ptria, e se o fizeram, deves perseguir o homem 
que o matou. A no ser que fosse obra da providncia, claro.
Telrnaco ficou desapontado. No tinha notcias do pai e, aparentemente, 
nem esperanas, nem mesmo da parte de Menelau. Mas a sua curiosidade 
estendia-se tambm a outros assuntos; era novo.
- Constou-me o que Egisto fez a Agammnon - disse ele mas s por alto. 
Nada sei dos pormenores.
- Bom - opinou Nestor -, foi um caso notvel, se considerarmos que homem 
era Agammnon e o pouco que valia Egisto. Segundo me parece, foi Egisto 
quem planeou tudo, e tencionava at matar Menelau tambm, se tivesse ido 
para Micenas. Clitemenestra no era assim to m quanto isso. Durante 
muito tempo se ops  ideia e Egisto nunca a teria convencido se no se 
tivesse visto livre do menestrel. No sabes quem  o menestrel? Agammnon 
tinha-o deixado como protector especial da mulher. Ou fosse o efeito da 
msica dele, tocava e cantava todas as noites, ou fosse a influncia do 
seu carcter inspirado, Egisto no podia adiantar-se com Clitemenestra 
enquanto o menestrel l estava.
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
225
Assim, um dia convidou-o para a pesca e o menestrel foi, para o no 
perder de vista, e Egisto abandonou-o numa rocha que costuma cobrir-se na 
mar cheia. Clitemenestra, em vistas disto, cedeu de imediato. A ideia 
dos seus pecados levou Egisto a fazer sacrifcios; estava sempre a orar 
at que Clitemenestra comeou a preocupar-se por causa da perda do gado. 
Foi numa dessas oraes que Orestes o encontrou. Menelau ficou em casa, 
por inspirao dos deuses, e assim escapou ao destino do seu irmo. Est 
agora em Esparta, como sabes, com Helena. Dizem que ela est mais 
sedutora do que nunca.
Telrnaco decidiu que Esparta seria o destino da sua viagem seguinte. 
Talvez Menelau soubesse alguma coisa do pai. Nestor achava que no, mas 
no fazia mal perguntar. Assim, o rapaz seguiu viagem, esperanado por 
notcias e movido pela perspectiva de ver Helena, que, dizia-se, estava 
mais bela do que nunca.
Quando chegou ao famoso porto a que Pris uma vez tinha batido, Eteoneu 
conservou-o fora com uma desculpa muito frouxa, e apressou-se a procurar 
Menelau.
- Est outro belo rapaz l fora - disse ele. - Manda-se entrar?
- Eteoneu - observou Menelau -, j houve momentos na tua vida em que no 
procedias como um tolo. Gostava de dizer que este era um deles. No 
entendo a aluso. Claro que se manda entrar! Quando viajei em tempos 
passados sempre fui recebido com hospitalidade, e suponho que tambm te 
aconteceu o mesmo. Devemos assim proceder por nossa vez quando chega 
algum viajante.
- Bem, o que quer isto dizer agora?! - exclamou Eteoneu. -
Mas no muito alto.
Telrnaco nunca tinha visto uma casa assim. O tecto era elevado, e, no 
se sabia bem como, o fumo saa e a luz entrava. Parecia que, l dentro, o 
sol e a lua brilhavam. Tanta grandeza embaraava-o. Lembrava-se de que o 
pai tinha melhor cabea, mas que o pensamento no lhe flua facilmente. 
Levaram-no para tinas de mrmore, onde criados o embaraaram mais ainda 
com o cuidadoso banho que lhe deram, e untaram-lhe o cabelo com leo, 
vestiram-lhe melhores roupas do que aquelas a que estava habituado. 
Menelau veio dar-lhe as boas vindas. Era um homem alto de longos caracis 
negros, que no precisavam de leo para brilhar. No era to 
impressionante como a sua casa. Ocorreu a Telrnaco que lhe havia de 
fazer falta o exerccio dirio de Tria; para quem estava

226
JOHN ERSKINE
to habituado... No banquete que Menelau ordenou para o seu hspede 
mostrou que a perda do exerccio no diminui o apetite.
- Nunca tinha visto uma casa assim - confessou Telmaco -
e, apesar de no ter viajado at muito longe, duvido que haja outra igual 
no mundo. Todo este bronze, ouro e mbar, para nada dizer da prata e do 
marfim! S a corte de Zeus no Olimpo pode ser igual, melhor  impossvel!
Menelau revestiu-se de um ar mais sbrio e disse que ningum o devia 
comparar com os deuses, mas que, na verdade, era uma boa casa. Ou seja, 
um bom edifcio.
-  Pois eu era capaz de dar grande parte da minha fortuna -
observou ele -, em troca dos dias que passei longe da minha casa, e em 
troca dos meus amigos que morreram em Tria ou se perderam no caminho da 
Ptria. Claro que todos temos de morrer
algum dia, e suponho que, em todo o caso, muitos deles j deviam estar 
nos tmulos, ainda que o caso de Tria no tivesse ocorrido. Mas sinto 
pena, em particular, de um amigo, Ulisses. Deves ter ouvido falar no seu 
nome. Fez mais por mim do que qualquer outro, e aqui estou eu de novo em 
casa, e ningum sabe onde ele se encontra, nem mesmo se est vivo. 
Suponho que o pai deve ter o corao despedaado, assim como a mulher e o 
filhinho, que dever estar bem crescido.
A meno do nome do pai trouxe sbita angstia a Telmaco. Sbita, porque 
at a o seu pensamento estivera apenas concentrado na esplndida casa de 
Menelau. Estava prestes a revelar o seu nome e ao que vinha quando Helena 
surgiu, vinda do seu quarto em abbada. Como podia ser aquilo?! No 
entanto, no havia engano possvel! A sua me tivera o cuidado de se 
referir ao envelhecimento de Helena, e ele sabia o que ela tinha passado. 
Esperava uma Afrodite, uma espcie de deusa tentadora, aliciante como o 
pecado.  medida que caminhava para ele, observava que, afinal, era jovem 
e virginal, e ele sabia que Artemisa era assim. Com ela vinha uma 
rapariga, provavelmente mais nova do que parecia. Chamavam-na Adrasta. 
Apresentou a Helena uma cadeira com escabelo, e trouxe-lhe l para dobar 
num cesto dourado assente em rodas. Telmaco esqueceu-se do pai, 
esqueceu-se da me, esqueceu-se dos seus pretendentes. Toda a vida tentou 
arrepender-se de se ter esquecido deles, mas nunca o conseguiu.
Helena cumprimentou-o, tomou nas mos a l, e entrou na
A VIDA PRIVADA DE HELENA DE TRIA
227
conversa, como se Telmaco fosse um velho amigo, ou como se no tivesse 
ainda dado por ele. Depois deixou cair as mos no regao.
- Menelau, creio que no devemos perguntar ao estrangeiro quem ele  sem 
que primeiro esteja disposto a no-lo dizer mas, se for da sua vontade, 
gostaria de adivinhar-lhe o nome.
Olhou para Telmaco, e ele estava to feliz que se sentia tolo.
- Nunca supus - disse ela -, que houvesse duas pessoas to parecidas. 
Tambm vs a semelhana, com certeza, Menelau.
- No, no vejo nada - volveu Menelau.
- Oh, mas devias ter visto logo que te apareceu!
- Talvez, mas no vi - tornou Menelau.
- Tenho que te dizer ento.  Ulisses - murmurou Helena.
- Palavra de honra, agora vejo! - admirou-se Menelau. - E eu a falar-lhe 
no pai precisamente antes de tu chegares; realmente, notei o seu 
interesse no que eu dizia. Palavra de honra! No h engano possvel, no 
senhor!
Menelau olhou para ele, e ele olhou para Menelau notando ento no rosto 
do homem mais velho uma expresso que no transparecia antes da mulher l 
estar. Uma sugesto de quase serenidade; de satisfao, digamos. Telmaco 
supunha que este era o seu ar natural, mas este no o era )ustamente. 
Conversaram durante horas, ou melhor, foi Menelau quem conversou, e, uma 
vez que no havia informaes sobre o seu pai, Telmaco escutou 
delicadamente, contemplando Helena, o movimento lento das suas mos, e a 
alma pairava-lhe bem longe do peito. Ento Helena disse que bastava de 
conversa, e Menelau ficou um pouco animado com a repreenso, todavia, 
como era hbito perguntou a Helena se no havia nada para a ceia.
Helena apresentou ao rapaz uma taa de vinho, e exclamou:
- Dizem que quem beber deste vinho esquecer para sempre todas as penas. 
Veio do Egipto, onde se conhecem os segredos das ervas, das drogas e dos 
encantamentos. Este vinho tem magia!
Ele tomou-o das suas mos, que tocaram as dele, e ela sorriu-lhe. 
Aconteceu o que ela dissera: esqueceu para sempre todas as suas penas. 
Porm, sabia bem que a magia no estava no vinho.
Menelau entretinha-se a comer, do outro lado da mesa.

INDICE
I Parte - O Regresso de Helena                  
............................................. 7
II Parte - A Nova Gerao                
........................................................  49
III Parte - Os Mais Velhos              
..........................................................  1O3
IV Parte - Nascimento e Morte                   
.................................................  139
V Parte - A Beleza de Helena                  
..................................................  185

a no perder
ANITA SHIREVE, A MULHER DO PILOTO " uma escritora Muito talentosa 
[Washington Post111 recebeu o
PENIL.11---. Winship Award e o New England Book Award para fico. Nos 
Tops h mais de 5O semanas, foi n.o 1 em todas as Listas de Destsellers 
nos Estados Unidos o Inglaterra. "Um romance intenso e absorvente, 
magnificamente escrito... Uma variante mais moderna da obra Vol de Nuit, 
de Saint-Exupry, contada do ponto de vista da mulher, o novo romance de 
Anita 5hreve explora numa prosa calma e clara o desejo autodestrutivo de 
um homem por um mundo para l do quotidiano... Como o avio da histria 
de Saint-Exupry a alma deste piloto parece ter terminado a correr sobre 
o vazio.---                         Pblishers Weekly JOE CONNELU, POR UM 
FIO (2.LIedio)
Por Um Fio  uma obra literria... A viso do autor , ao mesmo tempo, 
desolada e compadecida, com um controle magistral do material explosivo 
que possui.  um romance forte, cheio de coragem, insi nua nte, 
angustioso e real.                                   Publshers Weekly 
Os direitos para o filme foram obtidos por um dos dolos de Conneily, 
Martin Scorcese. Paul Schrader (TaxiDrive4 foi contratado para escrever o 
argumento e o actor principal  Nicolas Cage. ELIZARETH GEORGE, NA 
PRESENA DO INIMIGO (5.5 edio)
E.GEORGE, FOI DISTINGUIDA COM O ANTHONY AND AGATMA AWARDS,
O GRAND PRIX DE LITTIRATURE POLICRE FRANCS E O MMI ALEMO. Na Presena 
do Inimigo revela-nos uma hbil contadora de histrias no auge do seu 
talento. Este  um romance envolvente e de uma perspiccia brilhante, 
com inovaes relativamente ao quadro do romance policial. De uma forma 
mais plausvel, o exerccio de investigao parte de vrios hipotticos 
vestgios e, por percursos distintos, vai-se aproximando da resoluo. [    
...1 Por outro lado, Na Presena do Inimigo mostra, atravs de uma 
situao pattica e quase absurda, os efeitos nefastos, e mesmo 
perigosos, que o jornalismo sensacionalista pode provocar ao cultivar o 
fascnio pela vida privada de figuras pblicas. ELI7ABETH GEORGE, 
DECEPO FATAL (2.2 edio)                           JOS MANUEL CORTS, 
Pblico
 um romance policial que consegue manter o suspense ao longo de mais de 
5OO pginas.
O que Decepo Falalmais tem de fascinante  o desfecho.                         
JOS PRATA, City ELIZABETH GEORGE, UM GOSTO A CINZAS (2.fi edio)
Romance aps romance, ELIZABE1H GEORGE tornou-se uma presena 
incontornvel, quer junto do grande pblico quer no seio dos leitores 
mais exigentes. Pela qualidade das suas intrigas policiais e pela sua 
subtileza psicolgica, ela conquistou um lugar ao lado de mestres do 
suspense como RUTH RENDELI, P.D. JAMES E PATRiciA HICHSMITH.                   
Pblishers Weekly BERNARD CORNWELL O REI DO INVERNO (6.2 edio), O 
INIMIGO DE DEUS (5.!! edio), XCALIBUR (5.2 edio)
Uma coleco fantstica. Uma histria magnfica da Idade das Trevas e da 
realidade da guerra e das lutas polticas numa terra onde a religio 
compete com a feitiaria pelas almas das pessoas. Esta histria retrata o 
Rei Artur, mais o homem do que a lenda, esse gnio militar, que com um 
punhado de guerreiros a ele ligados pela lealdade e pelo amor, lutou para 
manter viva a centelha da civilizao num mundo brutal e selvagem.                           
Kirkus gewiews BE~D CORN1WELIL, STONHENGE * AmANDAQucK, OS ANIS 
PROIBIDOS DE AFRODITE (3.9 edio)
Beatrice Poole, viva e autora de fico gtica, de estilo popular, 
precisa de ajuda. O tio gastou a fortuna nuns objectos antigos chamados 
Anis de Afrodite para em seguida morrer em circunstncias misteriosas. 
Mais uma vez, Amanda Quick oferece aos seus leitores uma histria 
inteligente, sensual e sofisticada.                                                        
gookUst CHRISTOP1HIER PRIEST, OS EXTREMOS
- NOMEADO MELHOR LIVRO DO ANO DE FICO CIENTFICA PELA ASSOCIAO DE 
FICO CIENTFICA BRITNICA
-@@ e r der
BARBARA MICHAELS, UM MONSTRO NO LABIRINTO (2.L' edio)
- BARBARA MICHAEL5 RECEBEU O "GRAND MASTER AWARD 199811 Barbara MichaeIs 
 Simplesmente a melhor escritora viva de histrias fantsticas e de 
suspense                                                                 
MARION ZIMMER BRADLEY BARBARA MICHAELS, OUTROS MUNDOS HAN SUYIN, UM SONHO 
ESPLENDOROSO
Reveste primordial importncia a luz que em Um Sonho Esplendorosoa 
autora projecta sobre a psicologia chinesa. Nada do que lemos at hoje 
contribuiu tanto para conhecer as causas de um acontecimento complexo da 
histria contempornea.                              Me Observer KATE 
ATIKINSON, RETRATOS DE FAMLIA (6.! edio)
- MELHOR LIVRO DO ANO EM FRANA E EM INGLATERR Escolhido em Inglaterra, 
em Outubro199, como um dos melhores 99 romances dos ltimos 99 anos 
Atkinson teve uma entrada de rompante na cena literria britnica. 
Mergulhando com os olhos abertos em Retratos de Famlia, percebe-se 
melhor porqu. Revelando um genuno talento para contar histrias e um 
estilo que alia a fluncia  preciso descritiva, esta  uma obra que se 
l compulsivamente.                             F"Ncisco JOS VIEGAs, 
Diiro de Notcias KATE ATKINSON, CRQUETE HUMANO (4.@@ edio)
- NOMEADO O MELHOR LIVRO DE 1997 PELO NEW YORK TIMES Com a publicao 
posterior do romance Human Croquet: Kate Atkinson tornou-se em definitivo 
uma das ficcionistas da Gr-Bretanha que maior interesse motiva em 
acompanhar a sua produo literria.                                                
JOS MANUEL CORTS, Pblco Se no leu nenhum livro de Kate Atkinson, 
prevenimo-lo desde j que perde uma das vozes mais originais da fico 
britnica contempornea. Crquete Humano  uma das leituras mais 
divertidas deste ano (1999). Para Maro aguarda-se a publicao de 
EmotionaIly Weird.
ANTNIA SANTA CLARA, O Independente (Livros, 4113ez'99) KATE ATIKINSON, 
EMOES ESTRANHAS * LAVVRENCIE NORFOLK, O RINOCERONTE DO PAPA (3.2 
edio)
- NOMEADO COMO UM DOS MELHORES LIVROS DA FICO BRITNICA [GRANTAI Em 
Fevereiro de 1516, uma caravela portuguesa afunda-se ao largo da costa 
italiana. A misso de Nossa Senhora da Ajuda era a de entregar um 
rinoceronte ao Papa. O papa Leo X queria um rinoceronte nos seus jardins 
e encorajara os embaixadores portugueses e espanhis nesta tarefa, pois o 
primeiro a conseguir tal proeza receberia tratamento especial quando 
chegasse a altura de dividir os novos territrios da Amrica e da ndia. 
O Rinoceronte do Papa  uma fbula baseada numa histria verdadeira.  um 
romance brilhante com uma narrativa espectacular. A pesquisa histrica de 
Norfoik  colossal ...                   The Daily Telgraph Um romance 
histrico, uma aventura erudita. Espantoso, brilhante. NorfoIk  o novo 
Umberto Eco.                                                                         
Publlshers Weekly
RosALIND M[LES, (l.P vol) GUINEVERE - A Rainha do Pas
do Verio (2.5 edio); (2.2 vol) GUINEVERE - O Cavaleiro do Lago Sagrado; 
(3. 9 vol) GUINEVERE - A Criana do Graal Sagrado * Uma vibrante 
reconstituio histrica de uma saga de amor, sofrimento, dio, cime, 
vingana e desejo vista pelos olhos de Guinevere, a rainha de Avalon. Da 
aclamada historiadora e romancista "')salind Miles chega-nos o primeiro 
volume de uma vvida e imaginativa trilogia que le-vanta o vu de 
mistrio rodeando a vida de Guinevere, A Rainha do Pas do Vero. 
Guerreira, amante e musa. A histria de uma mulher, jamais contada at 
hoje...
